‘É preciso ter calma’: Itaú alerta para o risco de decidir por medo após tombo da Bolsa
O mercado financeiro brasileiro entrou em modo pânico nesta segunda-feira (26), primeiro pregão após a virada inédita que garantiu a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para um quarto mandato. A queda na Bolsa foi tamanha que o a B3 acionou o circuit breaker pela primeira vez desd
O mercado financeiro brasileiro entrou em modo pânico nesta segunda-feira (26), primeiro pregão após a virada inédita que garantiu a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para um quarto mandato. A queda na Bolsa foi tamanha que o a B3 acionou o circuit breaker pela primeira vez desde a pandemia da covid-19, em 2020 , enquanto o dólar teve a maior oscilação desde 1999. O otimismo que predominou entre investidores após o 1º turno perdeu força. Na ocasião, o senador Flávio Bolsonaro (PL) saiu à frente e alimentou, na Faria Lima, a expectativa de alternância de poder e de um eventual ajuste fiscal. Agora, bancos e corretoras voltaram a falar de juros a 15%, dólar acima de R$ 5,60 e um Ibovespa em patamares muito abaixo dos 200 mil pontos a que negociava até poucos dias. Tentando separar o joio do trigo, o Itaú Unibanco está orientando investidores no que parece ser a missão mais difícil após um pregão como esses: manter a calma . Para Martin Iglesias, líder em recomendação de investimentos da instituição, em momentos de volatilidade extrema, o investidor acaba submetido a vieses comportamentais de aversão à perda e ao arrependimento que o levam a tomar decisões precipitadas e, por vezes, prejudiciais. O Itaú não alterou as estratégias das carteiras recomendadas e da alocação no Brasil, pois entende que é preciso aguardar por maior visibilidade e entender se “o mercado está exagerando ou não” na reação pós eleições. “Passada a tensão eleitoral, veremos como será encaminhada a agenda fiscal, quais serão as prioridades do novo governo, quem é a equipe econômica. Só aí teremos um pouco mais de clareza sobre o que pode acontecer. Se vai ser muito volátil ou não, vai depender muito dos próximos passos”, afirma Iglesias. “É por isso que estamos recomendando calma aos investidores.” Enquanto ainda não é possível prever os próximos movimentos do mercado, o banco orienta os clientes a ajustar a parcela de investimentos no exterior ao percentual recomendado para cada perfil. “A diversificação internacional protege do movimento de câmbio quando todos os ativos brasileiros perdem valor, uma correlação baixa muito válida no momento. Mas não estamos falando de investir em algo que não parece bom apenas para ter mais segurança. Também vemos oportunidades de ganho”, explica. O mercado teve um de seus piores pregões em anos após as eleições. Qual a sua avaliação do movimento? Houve mudanças nas recomendações para clientes? Martin Iglesias – Já esperávamos a reação forte dos mercados pela manhã. Há alguns dias, até estávamos com uma visão positiva para Bolsa. Obviamente, agora temos que esperar a reação do mercado, porque as decisões precisam ser tomadas com certa calma, inclusive é isso que recomendamos aos investidores. Até essa volatilidade reduzir, até vermos com mais clareza qual será o nível de preços, é importante manter a calma. Estamos utilizando nossa visão de longo prazo, que consiste em continuar pensando em diversificação, mas particularmente a diversificação internacional. Já há algum tempo temos insistindo bastante nisso com nossos clientes, aqueles que ainda têm espaço para ter um nível de diversificação internacional mais alto. Quem já está em um nível compatível com a nossa recomendação está passando e vai passar por esse momento com menos impacto nas carteiras do que aqueles que não tinham. Muito cliente não tem uma diversificação completa da carteira, então nossa abordagem tem sido explorar esse ponto, verificar se a exposição internacional está de acordo com a nossa recomendação. E com calma, mostrando que, muitas vezes, decisões tomadas após uma forte correção, por medo de perder mais, não são tão bem feitas. Esse tende a ser o novo tom do mercado daqui para frente, uma alocação mais cautelosa? Acho que tem bastante coisa em aberto ainda. É preciso ver como caminha todo o desafio fiscal, que é a grande preocupação do mercado e provavelmente causou toda essa volatilidade. Passada a tensão eleitoral, podemos começar a ver alguma coisa sobre como será encaminhada essa agenda, quais serão as prioridades do novo governo, quem é a equipe econômica. Só aí teremos um pouco mais de clareza sobre o que pode acontecer. Se vai ser muito volátil ou não, vai depender muito dos próximos passos. É por isso também que estamos recomendando calma aos investidores, esse é o ponto central. Qual o pior erro um investidor pode cometer nesse cenário? Isso entra na questão das finanças comportamentais . Quando há uma queda muito rápida e intensa como a que vimos, o investidor fica sujeito a dois vieses importantes: a aversão à perda e a aversão ao arrependimento. No primeiro, pensa que pode perder mais se continuar investido, o que o leva a querer sair. No segundo, teme vender, a Bolsa se recuperar e ficar de fora. E os dois sentimentos podem ocorrer ao mesmo tempo. Isso gera uma tensão enorme: uma força diz para zerar a posição, enquanto outra diz para ficar. Muitas vezes, o investidor decide simplesmente para se livrar dessa dúvida. Por isso, é preciso ter calma. O que mudou? Essa é a pergunta essencial. A carteira deve fazer parte de um plano de finanças pessoais, vinculada aos objetivos, às necessidades e ao perfil de risco. Algo disso mudou? Não, mudou o preço e, com isso, as emoções. Para mim, o mais importante é que a decisão seja consciente, sem ser guiada pelo medo de perder ou de ficar de fora. Charlie Munger dizia que, para investir bem, basta não cometer grandes erros: não diversificar, seguir a manada ou se assustar na hora errada. O sr. falou sobre a importância da diversificação internacional. É a incerteza local que faz essa estratégia ganhar mais valor neste momento? Nós não estamos aumentando a nossa alocação no exterior. A questão é que muitos clientes ainda não têm a exposição internacional recomendada, então o maior esforço é para que comecem de alguma forma. E não precisa ser de uma vez. Muitas vezes, o investidor se coloca diante de uma decisão binária sem necessidade: dá para comprar aos poucos e ficar menos sujeito à cotação do dólar no momento da entrada. A exposição internacional tem dois pontos principais. O primeiro é a proteção cambial quando todos os ativos brasileiros perdem valor. Isso ajuda a reduzir os riscos, e a baixa correlação também é muito válida neste momento. O segundo é que há oportunidades no mercado internacional. Não estamos falando de investir em algo que não parece bom apenas para ter mais segurança. Os títulos do Tesouro americano hoje pagam dólar mais 5,2%. Estamos com uma visão positiva para a Bolsa americana, não só pela inteligência artificial, mas também porque a economia tem surpreendido pela robustez, e os resultados refletem isso. Hoje, a diversificação internacional não apenas protege, mas oferece oportunidades de ganho. E nas estratégias para o Brasil? Com a reeleição confirmada, o Itaú vai ajustar alguma posição? Por enquanto, estamos mantendo nossas posições porque precisamos ver onde os preços vão se estabilizar. É preciso analisar com mais calma se o mercado está exagerando ou não. Vamos continuar monitorando. Vínhamos com uma posição positiva em Bolsa, que está em discussão e depende muito do novo patamar de preços. O mesmo vale para a posição em NTN-Bs, que também precisará ser reavaliada à medida que os preços se estabilizarem.