Telecom está à prova do dinheiro caro

Por Tele.Síntese · Categoria: Telecomunicações ·

Com a Selic acima de 13%, provedores seguem sendo comprados e vendidos no setor de telecom. Os M&As do setor vêm se colocando à prova da recessão dos juros altos, avalia Gabriel Cardoso, da Quintes Capital O post Telecom está à prova do dinheiro caro apareceu primeiro em TeleSíntese.

*Por Gabriel Cardoso – Abra o site de três provedores da sua cidade e verá que a oferta é quase a mesma: R$ 100 por algumas centenas de megas, instalação grátis, roteador incluso. Mudam o logotipo, as cores e alguns dos SVAs e, às vezes, R$ 10 no preço. E esse é o problema central que o setor de telecom enfrenta, há alguns anos: desaceleração do crescimento, mesmo em épocas de juros mais equilibrados. O acesso à banda larga virou um produto igual, e a fibra já não é mais exclusividade de quem foi rápido e se antecipou à tendência. A velocidade parou de diferenciar duas ofertas e, sem diferença de valor, a disputa recai sobre o preço da assinatura. Pelos dados da Anatel, a receita média por cliente de banda larga caiu de R$ 100,73 no início de 2024 para R$ 93,77 no segundo trimestre de 2026. Com os tickets em queda e cidades tomadas por três, quatro ou mais redes concorrentes, crescer organicamente não é uma tarefa simples. Para não dizer que não há mais crescimento: se você é dono de um provedor que cresce entre 0,5% e 1% ao mês, parabéns, você deve estar entre o top 20% do mercado. Abaixo disso, vemos uma grande massa de empresas que, não só por ineficiência, luta para “lateralizar” ano a ano ou, no limite, igualar o IPCA. Com essas características, o crescimento orgânico das empresas se tornou caro e lento. Cada cliente novo é tirado de um concorrente, quase sempre com desconto ou, pior ainda, trazendo para a base aquele cliente que nunca pagará uma fatura. Diante desse cenário, o caminho das aquisições permanece sendo o preferido pelos gestores, que enxergam a incerteza e a morosidade de lançar rede nova em mais uma cidade, vila ou bairro. Por isso, os M&As no mercado de telecom têm aguentado o juro alto. Com a Selic em 13,75%, o dinheiro está caro para todo mundo, e diversos setores arrefeceram a consolidação e a entrada de investimentos por conta do custo impeditivo do capital. Em contrapartida, só neste ano a TIM pagou R$ 947 milhões pela I-Systems, a Brasil TecPar levou a Ligga e a Zaaz fez sete aquisições em um ano. Mas o caso que melhor evidencia esse movimento é o da Desktop. Em março, a Claro anunciou a compra da operadora do interior paulista por R$ 4 bilhões, incluindo dívida. O negócio fecha um ciclo inteiro do private equity americano HIG Capital, que entrou em 2020, quando a Desktop tinha cerca de 100 mil clientes, e sai em 2026 com 1,2 milhão de assinantes em mais de 200 cidades, construídos com diversas aquisições no caminho. Do lado da Claro, a conta é ainda mais clara. A operadora tinha cerca de 2,56 milhões de clientes em fibra própria no fim de 2025 e cresce pouco no orgânico. Com uma única aquisição, soma 1,2 milhão de clientes numa região onde já é forte e pode colher inúmeras sinergias. Além disso, garante crescimento e se livra de um concorrente que crescia mais rápido. Os compradores existem, estão ativos e cada vez mais populares. O fenômeno da consolidação, em qualquer mercado, tende a começar entre os maiores e ir se difundindo com o tempo. Hoje, quase todo ISP é um comprador em potencial e não vai parar por causa da Selic. A pergunta útil para quem pensa em vender é: quem precisa mais da sua base hoje e nos próximos anos? A falta de crescimento custa mais que os juros altos. *Gabriel Cardoso é fundador da Quintes Capital, boutique de M&A dos Pequenos e Médios ISPs. O post Telecom está à prova do dinheiro caro apareceu primeiro em TeleSíntese .