BTS: o que faz da banda de k-pop um dos maiores fenômenos da música mundial

Por Estadão · Categoria: Geral ·

“Já começamos com o caos”, diz um dos integrantes do grupo sul-coreano BTS logo na cena inicial do documentário BTS - O Reencontro (disponível na Netflix desde março), filme que registra o reencontro do septeto depois de um hiato de quase três anos para cumprir obrigações com o exército de seu país

“Já começamos com o caos”, diz um dos integrantes do grupo sul-coreano BTS logo na cena inicial do documentário BTS - O Reencontro (disponível na Netflix desde março), filme que registra o reencontro do septeto depois de um hiato de quase três anos para cumprir obrigações com o exército de seu país . Era a primeira vez que eles reapareciam para os fãs, via rede social, em uma praia em Los Angeles, no segundo semestre de 2025. A chamada BTSmania, ou qualquer outro neologismo que dê conta de definir a devoção dos fãs pelo grupo, estava viva. Contrariando a tese de que a carreira de um artista de k-pop é curta — entre outros motivos, porque a renovação precisa ser constante e, geralmente, em grupo —, o BTS, criado em 2013, chega ao Brasil com a turnê Arirang para apresentações nos dias 28, 30 e 31 de outubro no Morumbis, em São Paulo , ainda como um dos maiores fenômenos pop do planeta na atualidade. Essa será a quinta vez da banda no País, a primeira em sete anos. Os ingressos estão esgotados. Atenção aos números: mais de 104 bilhões de streams (reproduções de música em plataformas digitais) e cerca de 500 milhões de unidades, em CD ou vinil, vendidas pelo mundo. Segundo números do Spotify, a música Swim , primeiro single do álbum Arirang , lançado em março deste ano, já foi ouvida mais de 1 bilhão de vezes por fãs no mundo todo. Na última semana, era a 25ª música mais ouvida no ranking mundial da plataforma. A expectativa é de que a turnê atual do BTS renda, segundo cálculos da gravadora BigHit/Hybe, US$ 1 bilhão, o que coloca o grupo no mesmo patamar que grandes artistas, como o Coldplay, por exemplo, mas ainda atrás de Taylor Swift, que, segundo estimativas, faturou US$ 2,63 bilhões com a The Eras Tour , que passou pelo Brasil em 2023. Por que o BTS é este fenômeno? Há diferentes fatores que fazem do BTS esse acontecimento mundial. Primeiro, a Coreia do Sul investe comercialmente no grupo formado pelos jovens RM, Suga, J-Hope, Jin, Jimin, V e Jungkook — todos com idade entre 29 e 34 anos. Investe, obviamente, esperando um retorno. Cálculos da corretora coreana NH Securities indicam que a banda pode incrementar o PIB anual do país em até 0,35% até 2040, totalizando cerca de US$ 6,58 bilhões. Isso porque toda uma cadeia de consumo pode se beneficiar. Além da música, o turismo, a moda e o setor de vestuário são impactados. O segundo fator são os fãs. O grupo, desde seu início, contou com eles e com as redes sociais para impulsionar a carreira. Esses admiradores ganharam o nome de Army, acrônimo em inglês para Adorable Representative M.C. for Youth (Representante Adorável M.C. para a Juventude, em livre tradução). A tradução “exército” não deixa de ser válida. Em uma terminologia mais atual, é o fandom do grupo coreano. Foram os fãs que divulgaram, traduziram e legendaram as músicas que o grupo lançava no início de carreira, além de inundar o perfil da banda de comentários, o que gera engajamento. Essa vitória é deles. Qual é o som que o BTS faz? Dados e números são importantes para dar a dimensão do BTS no mercado da música mundial. Mas, para quem ainda não conhece a banda ou nunca a ouviu, musicalmente, ele é um grupo de hip-hop que, ao longo da carreira, inevitavelmente se rendeu ao pop mais comercial, com canções em inglês. O carimbo é de boy band . Em um paralelo, para quem viveu os anos 1980, eles podem ser comparados ao grupo porto-riquenho Menudo. Em 2019, o BTS emplacou três álbuns simultaneamente na parada de sucesso norte-americana Billboard 200: Map of the Soul: Persona , BTS World e Love Yourself: Answer . Foi o primeiro grupo de k-pop a conseguir tal proeza. Com isso, igualou-se aos Beatles — é daí que vêm as (infundadas) comparações — que, em 1964, chegaram com Meet the Beatles! , The Beatles’ Second Album e A Hard Day’s Night ao mesmo ranking musical. No presente, o álbum Arirang tenta manter o DNA do BTS com o que o mundo quer ouvir dele — leia-se: o Ocidente. A busca por esse equilíbrio é mostrada no documentário BTS - O Reencontro , da Netflix. O título escolhido remete a uma antiga canção tradicional coreana, datada dos anos 1400, que foi a primeira a ser registrada nos Estados Unidos, no século 19, por imigrantes sul-coreanos. É a ideia de beleza e conexão, de acordo com seu significado. No slogan encontrado pelos agentes da banda, é algo como “nascido na Coreia, tocando para o mundo”. Esse sentimento pode ser percebido em uma cena do filme. Um dos integrantes diz que gostaria de morar no “exterior”. Mas, em seguida, conclui que os dois meses em que passou em Los Angeles para gravar esse último álbum o fizeram sentir falta da Coreia. Os sete membros do grupo também demonstram determinação em evoluir. “Quero ouvir que o BTS é diferente”, diz um deles. Falam em “correr riscos”. Encontram esse ajuste justamente na faixa escolhida como single do álbum, Swim . O refrão, logo no começo, pede para que não se fique parado: “Nade, nade”. “Para ouvir muito tempo e não se cansar”, diz outro membro. Deu certo. Swim é uma grande faixa pop, mas com raízes no hip-hop. A faixa Body to Body reafirma o talento de um dos membros, o rapper RM, conectado com o que se faz na música mundial. Hooligan soa mais “estranha” e criativa. Like Animals é pop rock. O grupo igualmente se impõe à indústria da música ao anunciar que não vai inscrever seu novo trabalho no Grammy, a maior premiação do setor. Tudo isso porque a academia criou a categoria Melhor Performance de Música Pop Asiática. Não querem ficar dentro de uma caixinha. O Stray Kids, outra banda da Coreia do Sul, que esteve no Rock in Rio 2026, também deu as costas ao Grammy. Em coreano, BTS é a abreviação de Bangtan Sonyeondan, ou Garotos À Prova de Balas. Assim são eles, com seu Army, munido de suas Army Bombs e bichos de pelúcia, sempre pronto a defendê-los.