Unesco reconhece três locais brasileiros ligados à memória da escravidão

Por Correio Braziliense — Brasil · Categoria: Nacional ·

Sítios históricos no Rio de Janeiro, Bahia e Alagoas integram iniciativa da Unesco; Brasil passa a ter seis representantes no projeto global

Três espaços que preservam diferentes capítulos da história da população negra no Brasil passaram a integrar uma iniciativa internacional dedicada à memória da escravidão e da resistência ao sistema escravista. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) anunciou, na sexta-feira (23/10), a inclusão de locais no Rio de Janeiro, na Bahia e em Alagoas na Rede de Lugares de História e Memória relacionados à Escravidão e ao Tráfico de Pessoas Escravizadas. Os novos integrantes são o Cais do Valongo, na capital fluminense; a Sociedade Protetora dos Desvalidos, em Salvador; e a Serra da Barriga, em União dos Palmares. Embora tenham trajetórias distintas, os três lugares ajudam a compreender tanto a violência da escravização quanto as formas de organização, solidariedade e resistência construídas pela população negra ao longo da história brasileira. Leia também: Escravidão, o maior crime da humanidade No Rio de Janeiro, o Cais do Valongo conserva vestígios de um dos principais locais de chegada de africanas e africanos escravizados às Américas. Reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco desde 2017, o sítio arqueológico constitui um testemunho material do tráfico transatlântico e da dimensão que a escravidão alcançou no país. A memória da resistência também está presente na Serra da Barriga, em Alagoas, onde se encontra o Parque Memorial Quilombo dos Palmares. O território guarda a história de uma das mais importantes experiências de enfrentamento ao regime escravista no Brasil, tornando-se uma referência da luta da população negra pela liberdade. Situada em Alagoas, a Serra da Barriga abriga o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, símbolo máximo do enfrentamento ao regime escravista (foto: Rovena Rosa/Agência Brasil) Já em Salvador, a Sociedade Protetora dos Desvalidos representa outra dimensão dessa trajetória. Sua história, iniciada no século XIX, está associada à criação de redes de apoio e solidariedade entre pessoas negras, demonstrando a importância da organização coletiva diante das desigualdades e das consequências da escravidão. Criada no século XIX em Salvador, a Sociedade Protetora dos Desvalidos representa o pioneirismo das redes de apoio coletivo e solidariedade negra (foto: Paul R. Burley/Wikipédia ) Preservação e educação O reconhecimento amplia a presença brasileira na rede internacional criada pela Unesco em 2024. A iniciativa reúne lugares associados à escravidão e ao tráfico de pessoas escravizadas, com o objetivo de assegurar a preservação desses espaços e estimular a transmissão de suas histórias às novas gerações. Além da proteção da memória, o projeto incentiva a troca de experiências entre os participantes e o desenvolvimento de atividades educativas, especialmente aquelas que envolvem as comunidades ligadas aos territórios reconhecidos. Leia também: Memória da escravidão: o Judiciário diante do espelho da história O Brasil já contava com três instituições na iniciativa: o Museu da Inconfidência, em Minas Gerais, o Museu Casa da Hera e o Museu da República, ambos no Rio de Janeiro. Com as novas inscrições, o país passa a ter seis representantes na rede. A apresentação das candidaturas nacionais é coordenada pelas Comissões Nacionais para a Unesco. No caso brasileiro, essa atribuição cabe ao Ministério das Relações Exteriores, responsável pela articulação do país com a organização internacional. Em nota do Ministério das Relações Exteriores, o governo brasileiro comemorou a inclusão dos três locais e destacou a importância do reconhecimento para a preservação da memória histórica. Segundo o MRE, a medida também busca valorizar as experiências de resistência da população negra e fortalecer iniciativas de educação que permitam às novas gerações conhecer as consequências da escravidão e o papel daqueles que lutaram contra ela. Saiba Mais Brasil Como o Dia da Independência apagou a memória da luta negra por independência e abolição Brasil Mito da elite esconde lutas populares na Independência do Brasil Revista do Correio Dia de Santo Agostinho: 6 orações para fortalecer a fé e pedir proteção