Qual o legado para o McDonald’s ao se despedir da FIFA depois de 32 anos de parceria
A decisão da empresa de encerrar sua parceria com a FIFA coloca em discussão os limites da exposição de marca, a mensuração do retorno comercial e os critérios que justificam investimentos em grandes propriedades esportivas The post Qual o legado para o McDonald’s ao se despedir da FIFA depois de 32
Trinta e dois anos de parceria. A maior campanha de Copa do Mundo da história da empresa. Ativações em mais de 110 países. Sanduíches temáticos, copos colecionáveis e uma presença global em torno do maior evento do futebol. Ainda assim, o McDonald’s decidiu encerrar seu patrocínio à Copa do Mundo da FIFA. A notícia chama a atenção não apenas pela longevidade da parceria, iniciada em 1994, mas pelo momento escolhido para encerrá-la. A decisão acontece meses depois de a companhia realizar sua maior campanha para o torneio, justamente quando o futebol ofereceu uma oportunidade extraordinária de conexão com consumidores em todo o mundo. O motivo do encerramento é porque a campanha ficou abaixo das expectativas da empresa. Em sua teleconferência de resultados do segundo trimestre de 2026, o diretor financeiro do McDonald’s, Ian Borden, afirmou que a iniciativa impulsionou os negócios e gerou entusiasmo entre as unidades da rede, mas não alcançou o desempenho esperado. Nos Estados Unidos, as vendas nas mesmas lojas cresceram apenas 0,8% no período . É importante fazer uma ressalva: o resultado não significa que a campanha fracassou, nem que a Copa foi a responsável pelo desempenho comercial da companhia. O próprio executivo reconheceu efeitos positivos. O problema é que eles não foram suficientes diante das expectativas. Convido vocês então para uma conversa que realmente importa para o negócio do esporte: quanto vale um patrocínio quando a visibilidade não se converte no resultado esperado? Vamos começar falando sobre investir melhor Em minha opinião, a saída do McDonald’s não deve ser interpretada como um abandono do esporte, tampouco como uma prova de que a Copa do Mundo perdeu seu valor comercial. A decisão faz parte de uma revisão mais ampla da estratégia de marketing da companhia, que pretende reduzir sua dependência de propriedades intelectuais de terceiros e fortalecer experiências mais próprias e distintivas. Em entrevista à Adweek , Morgan Flatley, diretora global de marketing do McDonald’s, já havia sinalizado que a empresa estava excessivamente dependente dessas associações externas, conhecidas no mercado como borrowed IP : propriedades culturais, esportivas ou de entretenimento que pertencem a outras organizações. A lógica é simples: uma marca pode investir milhões para se associar a um evento, aproveitar sua audiência e conquistar relevância durante algumas semanas. Mas, quando o evento termina, boa parte dessa atenção vai embora. A empresa precisa voltar a investir para recriar a conexão em outra ocasião. Isso não significa que o patrocínio seja ruim. Significa que a marca precisa avaliar se o valor gerado compensa o investimento e se existem alternativas capazes de produzir resultados melhores. O McDonald’s não está necessariamente reduzindo seu orçamento de marketing. Está revendo a maneira como distribui seus recursos, buscando iniciativas que ofereçam resultados mais consistentes e mensuráveis. A própria empresa afirmou que esporte e cultura continuarão sendo importantes para sua relação com os consumidores. A rede mantém, por exemplo, associações com a Fórmula 1 na América Latina, a Ligue 1 na França e o Chicago Fire, clube de futebol dos Estados Unidos cujo estádio terá o nome McDonald’s Park. Portanto, não estamos diante de uma marca que decidiu abandonar o esporte. Estamos diante de uma empresa que decidiu rever onde e como pretende investir nele. Os sanduíches e os copos não ficam nos detalhes. Há uma segunda reflexão importante nessa história: o que podemos aprender com os 32 anos de parceria entre McDonald’s e FIFA? A marca nunca se limitou a exibir seu logotipo em placas publicitárias. Ao longo dos anos, construiu campanhas que aproximaram o futebol da experiência cotidiana dos consumidores. Que tal os sanduíches temáticos com referência a Copa ? Na Copa de 2026, essa estratégia ficou especialmente evidente no Brasil. O cardápio especial, com sanduíches inspirados nas seleções, transformou o torneio em uma oportunidade de consumo. Os copos colecionáveis com ídolos do futebol deram ao consumidor mais um motivo para participar da campanha. E as ativações digitais, incluindo ofertas no aplicativo, ajudaram a conectar a comunicação às experiências dentro dos restaurantes. Esses exemplos são importantes porque demonstram o potencial do patrocínio esportivo quando ele deixa de ser apenas uma plataforma de exposição e passa a fazer parte do produto. O consumidor não precisava simplesmente ver a marca associada à Copa, ele podia experimentar um sanduíche temático, colecionar um copo, compartilhar a experiência e voltar ao restaurante. É assim que uma propriedade esportiva pode ganhar valor comercial para um patrocinador: criando oportunidades para transformar a paixão do torcedor em comportamento de consumo. Mas existe uma diferença fundamental entre uma boa ativação e um bom resultado de negócio. Um copo colecionável pode gerar desejo. Um sanduíche temático pode movimentar as vendas. Uma campanha pode conquistar enorme repercussão. Nada disso, isoladamente, comprova que o investimento foi rentável. Para chegar a essa conclusão, seria necessário conhecer o custo total da operação, o volume de vendas adicionais, o comportamento dos consumidores, a margem dos produtos e os efeitos sobre a percepção da marca. Os dados públicos disponíveis não permitem calcular o retorno integral da parceria nem afirmar que cada uma dessas iniciativas ficou abaixo das expectativas. A lição, portanto, não é que essas ativações deixaram de funcionar mas sim que o sucesso criativo precisa estar conectado a objetivos comerciais claros. O que o mercado esportivo precisa aprender? A primeira lição é que audiência não é sinônimo de resultado. A Copa do Mundo oferece alcance global, atenção concentrada e uma conexão emocional difícil de reproduzir em outros ambientes. É uma métrica valiosa. Mas não garantem, por si só, aumento de vendas, aquisição de clientes ou fidelização. A segunda é que o patrocínio precisa ser pensado desde o início como uma plataforma de negócios. Não basta vender placas, exposição na transmissão, presença em eventos e direitos de associação. É preciso ajudar o patrocinador a desenvolver produtos, experiências, campanhas e mecanismos de relacionamento que façam sentido para sua estratégia. A terceira é que a mensuração não pode começar depois do evento. Antes de assinar o contrato, marca e propriedade esportiva precisam definir o que pretendem alcançar e como avaliarão os resultados. Isso inclui indicadores de marca, mas também métricas comerciais quando elas fizerem parte dos objetivos. Por fim, existe uma lição sobre a própria gestão dos contratos: a tradição não pode substituir a análise de desempenho. Em minha opinião, esse é um dos aspectos mais relevantes do caso. 32 anos de parceria representam uma história extraordinária, construída ao longo de diferentes gerações de torcedores. Mas a longevidade de um acordo não é, por si só, justificativa para renová-lo. O patrocínio precisa continuar fazendo sentido para os dois lados. Por que sair justamente agora? O momento da decisão também importa. O contrato chega ao fim com a Copa de 2026, oferecendo uma oportunidade natural para a empresa reorganizar seu planejamento. Ao mesmo tempo, a campanha ficou aquém das expectativas e a companhia já vinha revendo sua dependência de propriedades externas. A combinação desses fatores ajuda a explicar por que o encerramento acontece agora. Não há evidência suficiente para afirmar que a saída foi motivada por uma crise de relacionamento com a FIFA. O McDonald’s declarou que a decisão não tem relação com as notícias recentes envolvendo a entidade. A questão parece ser essencialmente estratégica: diante de um ciclo encerrado, uma campanha de retorno inferior ao esperado e uma mudança de prioridades, a empresa decidiu não renovar. A FIFA, por sua vez, perde um parceiro histórico. É um sinal importante para o mercado, mas não uma prova de que a Copa deixou de ser valiosa para as marcas. Cada patrocinador tem objetivos, públicos, estruturas de custos e critérios de retorno diferentes. Uma propriedade pode ser excelente para determinada empresa e não representar a melhor alternativa para outra. O que importa no marketing é o negócio que ele consegue gerar A saída do McDonald’s deixa uma pergunta para clubes, ligas, federações e organizadores de eventos: o que estamos entregando aos nossos patrocinadores além de exposição? O esporte tem uma capacidade extraordinária de reunir pessoas, despertar emoções e construir comunidades. Mas transformar esses atributos em valor comercial exige planejamento, criatividade, dados e execução. É preciso conectar a audiência a experiências relevantes, criar oportunidades de consumo, fortalecer o relacionamento com os torcedores e demonstrar os resultados alcançados. Acredito que o futuro do patrocínio esportivo dependerá cada vez mais dessa capacidade de construir valor em conjunto. Não se trata de abandonar os grandes eventos ou desprezar o poder da exposição. Trata-se de entender que a exposição é parte da entrega, não necessariamente o seu resultado final. O McDonald’s e a FIFA construíram uma parceria que atravessou 32 anos. Seus sanduíches temáticos, copos colecionáveis e campanhas ajudaram a mostrar como o futebol pode fazer parte da vida cotidiana de uma marca. Agora, a empresa decidiu seguir outro caminho. A decisão parece coerente com a revisão de sua estratégia, mas seu sucesso ainda precisará ser demonstrado pelos resultados que o McDonald’s conseguir gerar com os recursos redirecionados. A provocação que fica para o mercado esportivo: se nem 32 anos de história garantem a renovação de um patrocínio, o que realmente sustenta essa relação? Possivelmente, é a capacidade de gerar valor para a marca que mantém o contrato vivo. The post Qual o legado para o McDonald’s ao se despedir da FIFA depois de 32 anos de parceria appeared first on TMC .