ABES cobra prioridade para transformação digital no próximo governo
Em entrevista no ABES Summit, Andriei Gutierrez critica governança federal; vice-governador paulista anuncia coordenação de projetos de IA. O post ABES cobra prioridade para transformação digital no próximo governo apareceu primeiro em TeleSíntese.
O presidente da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES), Andriei Gutierrez, defendeu a criação de uma estrutura de governança com poder político para coordenar a transformação digital, a IA e a infraestrutura digital do Brasil. A proposta foi apresentada nesta terça-feira, dia 27, durante a abertura da 16ª edição do ABES Summit, realizada na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). “Hoje a transformação digital do Brasil está à deriva”, afirmou Gutierrez. Segundo ele, a existência de planos e estratégias nacionais não é suficiente para assegurar a execução das políticas públicas sem uma instância responsável por articular os diferentes órgãos governamentais. A cerimônia reuniu o vice-governador de São Paulo, Felicio Ramuth; o presidente da Ericsson no Brasil e na região Sul da América Latina, Rodrigo Dienstmann (representando o presidente da Fiesp, Paulo Skaf); e Floriano Pesaro, da ApexBrasil, representando o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin. O encontro reuniu representantes da indústria de software, empresas de tecnologia e governos para discutir os impactos da IA sobre os modelos de negócios, a competitividade e o desenvolvimento econômico. ABES propõe estrutura vinculada à Presidência Na entrevista, Gutierrez criticou o modelo de coordenação das políticas digitais brasileiras, atualmente baseado no Comitê Interministerial para a Transformação Digital. Para o dirigente, falta uma instância com autoridade para acompanhar a execução das iniciativas e estabelecer prioridades entre os ministérios. “A gente precisa ter uma governança politicamente empoderada e centralizada. Enquanto a gente não tiver isso, a transformação digital e a infraestrutura digital vai ficar à deriva”, declarou. O presidente da ABES afirmou que já apresentou essa reivindicação a representantes das campanhas presidenciais e à ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, com quem se reuniu cerca de duas semanas antes do evento. Entre as alternativas defendidas estão a criação de uma secretaria especial vinculada à Presidência da República, com estrutura enxuta, ou a reorganização de atribuições hoje distribuídas entre diferentes ministérios. “A ABES não vai defender a criação de ministérios, mais gasto público”, disse. Gutierrez reconheceu avanços associados ao Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), incluindo os investimentos previstos em supercomputação, mas avaliou que a transformação digital ainda não ocupa posição central nas prioridades do governo federal. O dirigente também defendeu o uso das compras públicas como instrumento de estímulo ao desenvolvimento tecnológico nacional. Segundo ele, o receio de questionamentos pelos órgãos de controle leva gestores públicos a evitar contratações de soluções inovadoras, mesmo quando existem instrumentos legais para isso. A ABES pretende discutir o tema com tribunais de contas e representantes do poder público, buscando mecanismos que permitam utilizar o poder de compra do Estado sem comprometer a fiscalização dos recursos. São Paulo anuncia coordenação de projetos de IA Durante a abertura, o vice-governador Felicio Ramuth anunciou que ficará responsável pelos projetos de tecnologia e inovação do governo paulista nos próximos quatro anos. Segundo ele, a decisão do governador Tarcísio de Freitas permitirá acompanhar a implementação das iniciativas diretamente do núcleo de gestão estadual. “Eu vou estar à frente dos projetos de tecnologia e inovação do nosso governo de Estado, em todas as áreas”, afirmou. Ramuth reconheceu que a utilização de IA na administração estadual ainda é limitada e convidou as empresas associadas à ABES a colaborar na identificação de aplicações para os serviços públicos. Executivos na abertura do ABES Summit (Imagem: Adriano Camargo) O vice-governador apresentou resultados de iniciativas de digitalização, incluindo o sistema eletrônico de documentos, que acumula mais de 21 milhões de registros, e a adesão de 501 municípios paulistas à digitalização documental por meio de parceria com o estado. Também mencionou o programa Tecnocidades, voltado ao apoio às prefeituras na atualização da legislação de antenas para implantação do 5G. Na área de infraestrutura, Ramuth afirmou que São Paulo reúne aproximadamente R$ 100 bilhões em investimentos em data centers. O executivo destacou a importância do avanço do Redata no Congresso e alertou para os efeitos da reforma tributária sobre o setor de software. Em relação à regulamentação da IA, defendeu regras adaptadas às condições brasileiras e manifestou preocupação com a possibilidade de restrições à atividade empresarial. Indústria e exportações entram na agenda Representando Paulo Skaf, Rodrigo Dienstmann comparou a expansão da IA às transformações provocadas pela introdução do software nos processos industriais a partir das décadas de 1970 e 1980. O presidente da Ericsson no Brasil afirmou que as novas tecnologias terão aplicações tanto nas atividades administrativas quanto na operação física de diferentes setores, incluindo robótica, drones e veículos autônomos. Para o executivo, o Brasil precisa buscar participação no desenvolvimento dessas soluções e nas cadeias internacionais de valor, em vez de limitar sua atuação ao consumo de tecnologias produzidas no exterior. Floriano Pesaro, que representou Geraldo Alckmin, destacou a internacionalização das empresas brasileiras de tecnologia e a atuação da ApexBrasil em parceria com a Softex no apoio às exportações de software e serviços tecnológicos. Segundo Pesaro, aproximadamente 300 empresas são atendidas pelo convênio, cujas exportações alcançaram US$ 1,18 bilhão em 2025. O executivo informou crescimento de 48,7% no ciclo iniciado em 2023. Ele também abordou os desafios relacionados à diversidade de regras internacionais para IA e à necessidade de desenvolver modelos que considerem a língua e a cultura brasileiras. Adoção de IA exige controle de custos e segurança Na entrevista ao Tele.Síntese , Gutierrez afirmou que a disseminação de agentes de IA está alterando os critérios utilizados para avaliar a maturidade digital das organizações. “O conceito de maturidade mudou”, disse. Segundo ele, a capacidade de automatizar processos precisa estar associada à revisão das estratégias empresariais, à governança e à avaliação dos impactos da tecnologia sobre os modelos de negócios. O dirigente observou que empresas começaram a identificar retorno sobre investimentos em IA em 2026, mas também enfrentam dificuldades para controlar os gastos decorrentes do uso de agentes autônomos. “A gente também começou a ver um certo descontrole nas organizações com os agentes”, afirmou. O problema envolve o consumo de tokens, os custos de processamento e a gestão das informações acessadas pelos sistemas. Para Gutierrez, será necessário adotar ferramentas de orquestração capazes de controlar credenciais, permissões, desempenho e despesas associadas a essas aplicações. A segurança da informação também preocupa a entidade. O presidente da ABES apontou pequenas e médias empresas como um dos segmentos mais vulneráveis à utilização de ferramentas de IA para desenvolver sistemas sem procedimentos adequados de avaliação de riscos. Segundo ele, a associação mantém um grupo de trabalho dedicado à cibersegurança e participa das discussões sobre a criação de um marco legal nacional para o setor, além de iniciativas voltadas à disseminação de boas práticas. No campo da soberania digital, Gutierrez defendeu uma estratégia que combine o desenvolvimento de soluções nacionais com o acesso às tecnologias produzidas no exterior. “O Brasil pode e deve estimular o desenvolvimento de tecnologias locais, mas sem abrir mão do acesso às melhores tecnologias internacionais”, declarou. A ABES considera necessário identificar tecnologias estratégicas para o país, incluindo sistemas utilizados em comunicações governamentais e militares. A entidade também trabalha com Finep e Embrapi em iniciativas de apoio ao desenvolvimento tecnológico e mantém relações com instituições e empresas estrangeiras para diversificar o acesso a fornecedores. Para Gutierrez, a próxima etapa dessa agenda dependerá da capacidade dos governos de articular investimentos, políticas industriais, segurança e adoção de IA sob uma estrutura de coordenação com autoridade para acompanhar sua execução. O post ABES cobra prioridade para transformação digital no próximo governo apareceu primeiro em TeleSíntese .