Ninguém previu uma queda tão forte da Bolsa; o que pode acontecer agora?

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Após a reeleição de Lula, Ibovespa sofre forte queda. Entenda como indicadores como P/L e dividend yield podem revelar oportunidades na Bolsa.

O mercado começou a semana tentando digerir o resultado das urnas . A reeleição de Lula contrariou a expectativa de uma parte relevante dos investidores e provocou uma onda de vendas tão forte que o Ibovespa acionou o circuit breaker , aquele mecanismo que interrompe as negociações quando a queda passa de um certo limite. Quem vinha acompanhando o mercado nas últimas semanas não deveria se surpreender com a direção do movimento. O que pegou muita gente de surpresa, inclusive a mim, foi a intensidade. Nesta segunda-feira (26), o Ibovespa encerrou o dia em baixa de 13,88%, aos 176.608,23 pontos, no menor nível desde agosto. Venho falando há algum tempo que a Bolsa estava colocando nos preços a possibilidade de alternância de poder e, principalmente, de uma política econômica mais comprometida com as contas públicas. Essa possibilidade saiu da mesa no domingo, e os investidores tiveram que refazer suas posições. Só que existe uma diferença grande entre reconhecer que o cenário ficou mais difícil e concluir que todas as empresas brasileiras passaram a valer muito menos de um dia para o outro. Quero olhar para essa diferença com você usando um indicador simples: o preço/lucro , o famoso P/L. O P/L mostra quanto o investidor está pagando por cada real de lucro que as empresas geram. Se uma companhia lucra R$ 1 por ação e a ação custa R$ 10, o P/L é de 10 vezes. Em outras palavras, mantido aquele lucro, você levaria dez anos para “recuperar” o preço pago. Quanto menor o múltiplo, mais barato o mercado parece, desde que esses lucros se sustentem. Na sexta-feira antes do segundo turno, o Ibovespa negociava perto de 11,2 vezes lucro , acima da média histórica de aproximadamente 10,3 vezes. Ou seja, a Bolsa estava pagando um prêmio, justamente porque parte dos investidores apostava na mudança. Agora vamos fazer uma conta. Imagine uma queda de 20% no preço das ações, com os lucros constantes. Esse mesmo P/L cairia de 11,2 para algo perto de 8,96 vezes, cerca de 13% abaixo da média histórica. É claro que uma queda desse tamanho pode estar antecipando lucros menores lá na frente, e eu não descartaria isso. Mas a conta mostra como o preço muda rapidamente a relação entre risco e retorno: o mercado que parecia caro na sexta pode ficar barato na segunda sem que nenhuma empresa tenha mudado o seu balanço. Tem outro número que eu acho importante. No dia 11 de agosto, quando Lula ainda aparecia na frente nos mercados de predição, o Ibovespa chegou a negociar perto de 9,2 vezes lucro . Naquele momento, o mercado trabalhava com um cenário de continuidade política e com todos os desafios fiscais de 2027 que venho discutindo aqui. Não era um piso garantido, mas funcionava como uma referência de quanto o mercado aceitava pagar por aquele cenário. Se a Bolsa voltar a negociar abaixo disso, teremos empresas avaliadas por múltiplos menores do que os de agosto, num cenário político parecido com o que boa parte dos investidores já considerava naquela época. Isso quer dizer que a Bolsa vai subir amanhã? Não, e eu nem tenho como saber. Em momentos de forte aversão ao risco existe um comportamento bem conhecido: primeiro o investidor procura liquidez, só depois ele faz as contas. Fundos precisam reduzir exposição, quem está alavancado recebe chamada de margem e as ordens de venda encontram poucos compradores dispostos a assumir risco. Esse desequilíbrio pode gerar quedas muito maiores do que os fundamentos das empresas justificariam sozinhos. Um levantamento da consultoria Elos Ayta, divulgado pelo NeoFeed, ajuda a ilustrar isso. Nas seis eleições presidenciais com segundo turno desde 2002, o Ibovespa caiu no primeiro pregão depois da votação em quatro delas , mas em todas as seis terminou a primeira semana em alta. Em 2014, por exemplo, a Bolsa caiu 2,77% no dia seguinte à reeleição de Dilma Rousseff e fechou a semana com ganho de 5,18%. Dito isso, a queda de agora é muito maior do que a daqueles episódios, então não estou dizendo que a história vai se repetir. O histórico serve só para lembrar que a primeira reação nem sempre define o que acontece nos dias seguintes. E onde eu vejo oportunidade? Em empresas que continuam gerando caixa, têm dívida sob controle e conseguem remunerar o acionista mesmo quando a economia aperta. Com a correção, muitas ações caíram entre 20% e 30%, e algumas bem mais que isso. Só que uma empresa que ontem gerava lucro e pagava dividendos não perdeu essa capacidade porque a ação dela caiu hoje. Pense comigo. Uma companhia distribuiu R$ 1,20 por ação nos últimos doze meses, e a ação custava R$ 12. O dividend yield , que é a relação entre o dividendo pago e o preço da ação, era de 10%. Depois de uma queda de 25%, a ação passa a custar R$ 9. Se a empresa mantiver os mesmos R$ 1,20, quem compra agora recebe 13,3% ao ano sobre o preço pago. A empresa não lucrou mais nem pagou um centavo a mais, quem mudou foi o preço. Agora compare isso com a renda fixa . O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira , com projeções coletadas antes da votação, ainda apontava Selic de 11,75% no fim de 2027, ou seja, uma trajetória de queda dos juros. O resultado da eleição pode mexer nessas projeções, já que o risco fiscal aumentou, mas o ponto continua valendo: dependendo da empresa, do preço de entrada e da sustentabilidade dos lucros, dá para encontrar ações cujo dividendo projetado supera a Selic esperada para os próximos anos. E, diferente de um título de renda fixa, você ainda participa de uma eventual valorização da companhia ao longo do tempo. Mas cuidado, porque dividendo passado não garante dividendo futuro. A empresa pode cortar a distribuição, piorar os resultados ou precisar direcionar caixa para investimento e pagamento de dívida. Olhar só para o dividend yield é uma armadilha clássica (muitas vezes o yield está alto justamente porque o mercado desconfia que ele vai cair). Antes de comprar, é preciso entender a geração de caixa, a recorrência dos lucros e se aquela remuneração ao acionista se sustenta. Foi pensando nisso que montei uma planilha com as ações da Bolsa e os principais indicadores fundamentalistas, para comparar empresas e encontrar possíveis oportunidades. Comecei a falar desse assunto no meu Instagram, @ vmiziara , nos últimos dias, e vou aprofundar essas análises ao longo da semana. Eu não sei se a Bolsa já encontrou o fundo, e muito menos se o cenário econômico vai ser favorável nos próximos anos. Continuo preocupado com a trajetória fiscal, com o crescimento da dívida pública e com os desafios que o país tem pela frente. Mas uma coisa é analisar o cenário macro, outra é avaliar quanto estamos pagando por empresas que continuam produzindo, vendendo, gerando caixa e distribuindo resultado. Quem consegue separar essas duas coisas talvez encontre oportunidades que simplesmente não existiam algumas semanas atrás. Tem uma frase antiga no mercado que diz que se compra ao som dos canhões . Eu só acrescentaria um cuidado: isso não significa comprar qualquer coisa que caiu, e sim procurar boas empresas que ficaram baratas justamente porque, naquele momento, quase ninguém quer correr risco. É o que eu pretendo fazer nas próximas semanas, com calma e olhando empresa por empresa.