Dependência de IA estrangeira amplia riscos para empresas brasileiras
Especialistas no ABES Summit alertam para riscos geopolíticos na infraestrutura digital e defendem alternativas a fornecedores externos. O post Dependência de IA estrangeira amplia riscos para empresas brasileiras apareceu primeiro em TeleSíntese.
A dependência de fornecedores estrangeiros de nuvem, modelos de IA e infraestrutura computacional representa um risco geopolítico que precisa entrar nos planos de continuidade de negócios das empresas brasileiras. O alerta foi feito nesta terça-feira, 27 de outubro, durante o painel “Soberania digital, geopolítica e os novos riscos na era da IA”, realizado no ABES Summit 2026, em São Paulo. O debate reuniu Philipe Moura, diretor de Estratégia para a América Latina da Eurasia Group; Fábio Maia, líder de pesquisa no CESAR/CISSA; e a deputada federal Adriana Ventura (SP), vice-presidente da Comissão Especial sobre IA da Câmara dos Deputados, que participou remotamente, de Brasília. A moderação foi de Eduardo Paranhos, sócio fundador do escritório Ouro Preto Paranhos Advogados e colíder do grupo de trabalho sobre IA da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES). Os participantes discutiram como restrições comerciais, controles de exportação e decisões políticas podem afetar o acesso a tecnologias utilizadas em atividades empresariais. Também defenderam que soberania digital seja compreendida como capacidade de escolha e autonomia, e não como autossuficiência tecnológica. Data centers e redes integram disputa geopolítica Philipe Moura propôs analisar a cadeia tecnológica da IA em quatro camadas: modelos e dados; capacidade computacional, incluindo data centers e redes de telecomunicações; fabricação de equipamentos e semicondutores; e recursos naturais, como energia, água e minerais. Segundo o executivo, países com controle sobre componentes dessas estruturas podem exercer influência sobre o fornecimento internacional de tecnologia. Para o Brasil, o desafio é identificar os segmentos nos quais existem condições de desenvolver capacidades próprias, sem tentar competir simultaneamente em todas as etapas. “Uma coisa que eu gosto muito de pensar é uma soberania possível”, afirmou Moura. O diretor da Eurasia Group também abordou o alcance das decisões regulatórias dos Estados Unidos sobre empresas de tecnologia que operam internacionalmente. Segundo ele, a dependência desses fornecedores expõe organizações de outros países a eventuais restrições determinadas por Washington. “Existe um interruptor, e esse interruptor está em Washington”, declarou. Moura afirmou que a fragmentação geopolítica exige maior atenção dos conselhos de administração aos riscos associados à contratação de tecnologias externas. Na avaliação do executivo, a resiliência deverá ganhar espaço nas decisões sobre infraestrutura e modelos de IA, especialmente quando aplicações críticas dependerem de um único provedor. Ele também destacou a importância de avaliar a capacidade de substituir tecnologias diante de controles de exportação ou interrupções de fornecimento. Empresas devem mapear fornecedores e riscos Fábio Maia afirmou que muitas organizações ainda não conhecem integralmente as dependências tecnológicas de seus processos. Segundo o pesquisador, planos de continuidade costumam considerar ataques cibernéticos e falhas operacionais, mas deixam de contemplar eventos geopolíticos. “O fato é que poucas empresas têm um mapeamento de dependências”, alertou. Para Maia, o primeiro passo é identificar os sistemas essenciais ao funcionamento da organização, seus componentes tecnológicos, os fornecedores envolvidos e as jurisdições às quais estão submetidos. A partir desse levantamento, as empresas podem avaliar a exposição a restrições comerciais, decisões governamentais e interrupções de serviços, estabelecendo medidas de proteção proporcionais à criticidade de cada operação. O pesquisador defendeu uma abordagem de soberania baseada na preservação de funções essenciais, sem exigir que todas as tecnologias sejam desenvolvidas internamente. “Eu acho que o 1º passo é mapear as dependências do seu negócio”, afirmou. Maia também apontou oportunidades para empresas brasileiras de software e prestadores de serviços especializados. Segundo ele, operadores de infraestrutura crítica precisarão ampliar avaliações de riscos, inventários tecnológicos e mecanismos de continuidade operacional. O pesquisador citou o setor de telecomunicações como exemplo de atividade sujeita a exigências relacionadas à segurança da infraestrutura e à seleção de fornecedores. Em sua avaliação, a ampliação dessas práticas poderá gerar demanda por serviços especializados de empresas de menor porte. Regulação de IA deve considerar custos de conformidade A deputada federal Adriana Ventura defendeu que a busca por soberania digital não resulte em políticas de isolamento tecnológico. Para a parlamentar, o Brasil precisa integrar as cadeias internacionais de desenvolvimento e estabelecer condições para que empresas nacionais participem desse mercado. “Soberania não é isolamento”, afirmou. Deputada federal Adriana Ventura, vice-presidente da Comissão Especial sobre IA da Câmara dos Deputados, diretamente de Brasília (Imagem: Adriano Camargo) Adriana também discutiu o PL 2.338/2023, que estabelece regras para o desenvolvimento e a utilização de IA e está em análise na Câmara dos Deputados. Segundo ela, a regulamentação deve ser proporcional aos riscos, com responsabilidades definidas e atenção às normas já existentes. A parlamentar também mencionou a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), o Código de Defesa do Consumidor e outras disposições legais que já alcançam determinadas aplicações tecnológicas. Para Adriana, a criação de obrigações excessivas pode elevar os custos de conformidade e restringir a entrada de startups e pequenos empreendedores. Ela defendeu que o Legislativo identifique as lacunas normativas antes de estabelecer novas exigências. A deputada também relacionou soberania digital à liberdade de contratação e à possibilidade de substituir fornecedores. “A dependência de um fornecedor único é um risco à continuidade de negócios, é um risco à liberdade de escolha”, declarou. Na discussão sobre o posicionamento brasileiro na cadeia internacional de IA, Moura defendeu investimentos seletivos em segmentos nos quais o país possa desenvolver capacidades tecnológicas. Adriana destacou a necessidade de articulação entre governo, universidades e setor produtivo, enquanto Eduardo Paranhos chamou atenção para o papel das normas técnicas na redução da fragmentação regulatória entre países. Fábio Maia, por sua vez, afirmou que o desenvolvimento tecnológico exige planejamento que ultrapasse os ciclos eleitorais. O pesquisador sugeriu identificar áreas consideradas estratégicas para reduzir dependências externas e avaliar oportunidades em tecnologias emergentes, incluindo modelos de IA menores e especializados. “A gente precisa de políticas de estado e não que passem de um governo para outro”, finalizou. O post Dependência de IA estrangeira amplia riscos para empresas brasileiras apareceu primeiro em TeleSíntese .