Ele movimenta bilhões na Índia com seus filmes, mas sem apoio do governo: ‘Há grandes riscos’
Em 2022, S. S. Rajamouli chamou a atenção do mundo com seu épico de três horas de duração RRR (Revolta, Rebelião, Revolução) , ambientado na Índia dos anos 1920, durante o domínio colonial britânico e acompanhando dois revolucionários reais, Alluri Sitarama Raju e Komaram Bheem, como protagonistas d
Em 2022, S. S. Rajamouli chamou a atenção do mundo com seu épico de três horas de duração RRR (Revolta, Rebelião, Revolução) , ambientado na Índia dos anos 1920, durante o domínio colonial britânico e acompanhando dois revolucionários reais, Alluri Sitarama Raju e Komaram Bheem, como protagonistas de uma jornada fantasiosa, exagerada e cheia de números musicais charmosamente coreografados. O blockbuster arrecadou cerca de US$ 166 milhões globalmente e ganhou o Oscar de Melhor Canção Original com a música Naatu Naatu . Rajamouli se tornou o cineasta mais importante da Índia não apenas devido aos feitos de RRR , mas também pelo êxito da franquia Baahubali , que movimentou bilhões de rúpias indianas. Ele construiu sua carreira fora de Bollywood, a indústria cinematográfica de língua hindi, sediada principalmente em Mumbai. O diretor pertence à Tollywood, denominação usada para o setor de produções em língua telugu, concentrado em Hyderabad, no sul da Índia. O realizador de 53 anos participou da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo , onde ministrou uma masterclass e recebeu o Prêmio Leon Cakoff, honraria também concedida ao norte-americano James Gray . Em entrevista ao Estadão , ele falou sobre seu trabalho e como não tem apoio do governo indiano, além de adiantar detalhes acerca de seu próximo e ambicioso projeto, Varanasi , estimado como o filme mais caro da história da Índia , com orçamento na casa dos US$ 130 milhões e lançamento programado para 2027. Brasil e Índia são países semelhantes em alguns aspectos. Possuem grandes dimensões, enorme diversidade, desigualdades sociais, pobreza e potencial de atrair grandes públicos ao cinema. O que o cinema brasileiro poderia aprender com o cinema indiano? A primeira coisa que notei em São Paulo é a vida familiar. Seja no aeroporto, no avião, nas estradas ou nos parques, vejo muitas famílias juntas, desde crianças pequenas, adolescentes e pessoas de meia-idade até idosos. A estrutura familiar me parece semelhante à da Índia. A segunda coisa é que não conheço nada sobre o cinema brasileiro para dizer se ele poderia se beneficiar desta ou daquela maneira. Mas, de modo geral, no mundo inteiro, acredito que o cinema é a forma de entretenimento mais simples e econômica que as pessoas podem ter. As pessoas se reúnem em uma sala de cinema, as luzes se apagam, uma história começa a ser exibida na tela e compartilhamos nossas emoções em comunhão. Essa é uma experiência maravilhosa que só o cinema pode proporcionar. Enquanto fizermos filmes enraizados em nossa cultura, em nosso idioma e em nosso povo, o cinema continuará vivo. Você me parece ter um modelo de negócios muito estruturado para fazer seus filmes. Poderia falar um pouco sobre como trabalha e como consegue garantir altos financiamento e reunir tantas pessoas nos projetos? Isso não acontece de repente, porque comecei fazendo filmes em uma escala muito pequena. Comecei trabalhando como diretor de novelas, de produções diárias para a televisão. À medida que meus trabalhos começaram a fazer sucesso, mais produtores se dispuseram a investir nos meus filmes. Eles confiam em mim e acreditam na minha maneira de trabalhar, por isso estão dispostos a investir essas quantias. Na Índia, não temos um sistema de estúdios, pelo menos no cinema em língua telugu. Então, o financiamento é levantado pelo produtor e há grandes riscos envolvidos. E o governo oferece algum tipo de apoio aos seus filmes? Não. É tudo investimento privado, risco privado. O governo fica com uma fatia grande de impostos ( risos ) e não oferece nenhum apoio. Como lida com o fato de trabalhar com tanto dinheiro em um país com grandes desigualdades sociais? As desigualdades sociais existentes na sociedade são completamente esquecidas quando as pessoas entram nas salas de cinema. Você pode ser rico ou pobre. Pode pertencer a castas diferentes, falar idiomas diferentes ou seguir religiões diferentes. Isso não importa. Quando você entra em uma sala de cinema, esse é o lugar em que esquece tudo e simplesmente acompanha a história que está sendo exibida na tela. Portanto, isso não é um desafio. Na verdade, é uma vantagem para mim. Em ‘RRR’, você retrata o Império Britânico de maneira extremamente violenta, e os protagonistas representam a resistência e o orgulho indiano. Como pretendeu abordar essa história, no sentido de recuperar uma narrativa histórica que, durante muito tempo, foi contada do ponto de vista dos colonizadores? Para ser muito franco, não fiz um comentário social. Não estava lidando com política. Eu estava contando uma história de amizade. Em meus filmes, quero que a emoção da amizade seja grandiosa, que vá além dos limites da realidade. Essa é a razão pela qual escolhi dois personagens grandiosos. Encontrei um período de suas vidas sobre o qual ninguém sabe o que aconteceu durante cerca de dois a quatro anos. Os personagens existiram, mas a história é ficção. É evidente que aquilo contra o que lutaram e aqueles contra quem lutam acabam entrando na narrativa. E, como os colonizadores britânicos aparecem, as atrocidades cometidas por eles também aparecem. Portanto, esses elementos fazem parte da história e são conduzidos pela emoção. Não estão ali porque quero contar ao mundo a história do que aconteceu com a Índia durante a colonização. Essa seria uma história completamente diferente. Acredita que o cinema indiano pode competir com Hollywood em termos de escala e ambição? Nas condições atuais, não podemos competir. Mas isso não significa que estejamos fora da disputa. Temos uma maneira própria e única de contar histórias, capaz de se conectar com muitas pessoas fora da Índia. RRR provou isso, mas ainda acho que foi apenas uma pequena abertura da porta. Há muito mais espaço para abrir essas portas. Podemos levar nossos filmes ao mundo, alcançar um público muito maior e tornar a indústria cinematográfica indiana muito maior. Mas não acho que possamos competir com Hollywood por causa da experiência que eles têm, da tecnologia, do talento para contar histórias e dos orçamentos. Estamos muito atrás nesses aspectos. Mas não vejo isso como um não definitivo. Podemos vencê-los. Já recebeu propostas para trabalhar em Hollywood? Recebi muitas propostas depois do lançamento de RRR . Só que, naquela época, eu já estava comprometido com Varanasi . As propostas ainda estão lá e, quando eu terminar Varanasi , vou avaliar o que posso fazer. Pretende trabalhar com estúdios de Hollywood? Eu adoraria, porque há muito a aprender com a disciplina da produção cinematográfica de Hollywood. Quero aprender. E a melhor maneira de aprender é fazer um filme lá. Que impacto ‘Varanasi’ já está tendo na Índia e quais impactos você espera que ele tenha quando for lançado no país? Obviamente, quero que o filme arrecade muito dinheiro, por causa da quantia investida. Precisamos ter retorno e fazer um sucesso de bilheteria. Mais do que isso, quero que o público se conecte emocionalmente com o filme. É a mesma fórmula que usei nos meus trabalhos anteriores: ter um núcleo emocional muito forte e construir o espetáculo ao redor dele. E, nossa, construímos um baita espetáculo! Temos um universo gigantesco da Antártida, da África e [da cidade] Varanasi em diferentes linhas do tempo. A história viaja para os mundos dos deuses e volta ao passado. Tudo foi muito difícil de conceber e executar, assim como transformar nossas ideias do roteiro em imagens. É como se fossem 6 ou 7 filmes reunidos em um só. Estou ansioso para que o público tenha essa experiência na tela grande.