You Can See Everything quebra regras de documentários para subverter expectativas

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Dirigido por Nathan Fielder e Lance Oppenheim, You Can See Everything (Tudo Pode Ser Visto) é um documentário sobre os últimos dias de liberdade de Elizabeth Holmes. Ele também é uma história sobre relacionamentos tóxicos e aparentemente abusivos, pessoas desconectadas da realidade e sobre um criado

Dirigido por Nathan Fielder e Lance Oppenheim, You Can See Everything (Tudo Pode Ser Visto) é um documentário sobre os últimos dias de liberdade de Elizabeth Holmes. Ele também é uma história sobre relacionamentos tóxicos e aparentemente abusivos, pessoas desconectadas da realidade e sobre um criador que se deixa envolver pelo tema que tentou analisar. Lançada praticamente de surpresa pela A24 , a obra reflete muitas as condições sob as quais foi produzida. Inicialmente sem rumo ou objetivo, os cineastas responsáveis tiveram total liberdade para entrar na intimidade de Holmes e sua família. Além de resultar em momentos constrangedores e perguntas difíceis, essa independência também conseguiu revelar muito além do que os trailers do filme prometem entregar. You Can See Everything tenta analisar as motivações de uma mentirosa Considerada em 2015 como a jovem a atingir mais rapidamente o status de bilionária de toda a história, Elizabeth Holmes conquistou corações e mentes do Vale do Silício com promessas de uma tecnologia revolucionária. No comando da Theranos, ela divulgava um dispositivo capaz de, com poucas gotas de sangue, realizar exames que costumam demandar quantidades muito maiores e provocar dores em pacientes. O problema é que tudo isso era uma grande mentira, e o aparelho nunca funcionou. Acusada em 2018 de fraude junto a seu sócio (e então namorado) Ramesh “Sunny’ Balwani, ela foi condenada a cumprir uma pena de 11 anos em uma prisão federal de segurança mínima e a pagar uma multa de US$ 452 milhões. A história de como isso aconteceu foi retratada em podcasts, livros e na série The Dropout, entre diversos outros meios. Assim, You Can See Everything não tenta revisitá-la, mas sim questionar como, apesar de tudo isso, Elizabeth Holmes e seu atual marido, Billy Evans (herdeiro de uma rede hoteleira) continuam a defender sua inocência . Para cumprir essa missão, Fielder não somente passa a acompanhar seus cotidianos, como vira uma parte integral deles. Em certo ponto do documentário, o diretor e comediante passa a morar no quarto de convidados do casal e a participar de muitos de seus momentos íntimos. Em uma cena particularmente constrangedora, ele sugere se afastar para que os dois possam ter uma relação íntima pela última vez antes de Elizabeth se entregar (e depois pergunta ao casal se a experiência foi boa). A abordagem, embora seja familiar para quem acompanhou o trabalho do comediante na série O Ensaio, nunca deixa de ser um tanto incômoda . Nesse sentido, também ajuda a decisão de Oppenheim de se focar excessivamente no rosto de seus personagens, cujas expressões, poros e imperfeições são registradas de maneira bastante crua. O envolvimento de Fielder também garante que You Can See Everything não segue as regras tradicionais de um documentário , que exigem certo distanciamento entre autor e assunto. Ao mesmo tempo que questiona as intenções, meias-verdades e mentiras de Elizabeth e Billy, ele também se torna parte do círculo mais próximo do casal e ajuda a definir algumas de suas decisões. Tudo isso acontece somente durante a primeira metade do documentário, que se encerra no momento em que Holmes é enviada para a prisão. No entanto, a história ainda continua por um tempo considerável, em trechos que realmente a tornam memorável e diferente de outras obras do estilo . Uma história em duas partes Após a prisão de Holmes, You Can See Everything continua disposto a investigar sua vida e motivações, mas tem um grande problema: presa, ela se torna inacessível às equipes de gravação. Para compensar essa grande falta, Fielder e Oppenheimer decidem recorrer à ajuda de alguém que conhece bem a fundadora da Theranos: a atriz Amanda Seyfried. Responsável por interpretá-la na série The Dropout, Seyfried aparece no documentário tanto como si mesma quanto como aquela que, até então, encarava somente como uma personagem. E essa decisão faz com que, junto com Fielder, ela passe a ocupar um papel na narrativa que nem sempre fica claro. Na mesma cena, ela pode interpretar Holmes e recriar alguns de seus diálogos, fazer comentários sobre sua interpretação e também expressar sua opinião sobre as descobertas que a equipe de filmagem faz . Essa dinâmica tem seu ápice no momento em que a atriz conhece Billy e confronta as decisões muitas vezes duvidosas que ele tomou em nomes de sua esposa — que incluem recriá-la usando um modelo de inteligência artificial. E são elas as responsáveis por fazer com que, além de ser uma história sobre Elizabeth Holmes, You Can See Everything também seja sobre o que foi feito a ela. E disso vem um dos grandes méritos do documentário: fazer com que o público, mesmo sabendo que a executiva é uma mentirosa, comece a entender como sua mente funciona e crie até mesmo certa empatia por ela. Vale a pena assistir You Can See Everything? Falar sobre as qualidades de You Can See Everything sem recorrer a spoilers ou comentar pontos específicos da trama é algo complicado. Isso porque é através da análise de peças centrais de sua narrativa que é possível compreender que ela vai muito além de um retrato dos últimos dias de liberdade de Holmes. Ao final da exibição, fica evidente que o título não se refere somente a ela, mas também àqueles ao seu redor e às próprias decisões de Fielder e Oppenheim como diretores. O documentário incorpora até mesmo alguns elementos de reality show, o que faz com a história que apresenta seja tão importante quanto a maneira como ela é contada . Traçando paralelos com O Experimento, You Can See Everything é um filme que acerta por nem sempre seguir caminhos tradicionais ou aparentemente lógicos. Capaz de provocar risadas, indignação e incômodo, a obra justifica a boa repercussão que recebeu no circuito internacional e deixa a vontade de revisitá-la e recomendá-la a todos.