Além das operações: o desafio de retomar territórios no Rio
Um ano após a Operação Contenção , realizada nos complexos da Penha e do Alemão, o Rio de Janeiro continua diante de uma questão fundamental: o que significa, de fato, manter um território dominado pelo crime organizado? A resposta não cabe na contagem de prisões, apreensões ou confrontos. Exige dis
Um ano após a Operação Contenção , realizada nos complexos da Penha e do Alemão, o Rio de Janeiro continua diante de uma questão fundamental: o que significa, de fato, manter um território dominado pelo crime organizado? A resposta não cabe na contagem de prisões, apreensões ou confrontos. Exige discutir a capacidade do Estado de garantir segurança e liberdade à população de forma permanente. O domínio territorial de organizações criminosas representa muito mais que um problema policial. Quando grupos armados impõem regras de circulação, interferem na rotina dos moradores e desafiam as instituições, restringem direitos e comprometem a própria autoridade do Estado. Enfrentar esse poder é indispensável. Mas entrar em um território e nele restabelecer, de maneira rigorosa, a presença legítima do poder público são desafios diferentes. A Operação Contenção, que resultou em 122 mortes , ampliou a necessidade desse debate. A dimensão dos acontecimentos reforça a importância do acompanhamento institucional, da apuração independente dos fatos e, sobretudo, de uma reflexão mais ampla sobre os desafios da segurança pública . O enfrentamento às organizações criminosas e a observância da legalidade são responsabilidades que devem caminhar juntas na atuação do Estado. O controle externo da atividade policial, atribuição constitucional do Ministério Público , não se confunde com oposição à atividade policial. Sua finalidade é contribuir para o aperfeiçoamento das políticas de segurança, com foco na análise de dados, em questões estruturais e na transparência para auditar procedimentos. Trata-se de uma atuação que busca fortalecer as instituições e contribuir para respostas cada vez mais eficazes aos desafios da criminalidade. No acompanhamento dos desdobramentos da Contenção, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro realizou apuração independente, apresentou denúncias de ilegalidades identificadas e recomendações expediu para aperfeiçoar protocolos operacionais e o uso de câmeras corporais. São providências que demonstram a importância de uma atuação institucional que, além da purificação dos fatos, contribui para o aprimoramento permanente das políticas públicas de segurança. Na ADPF 635, o Supremo Tribunal Federal distribuiu diálogo e acompanhamento contínuo, buscando maior efetividade do dever de enfrentar facções armadas, aliadas à defesa intransigente dos direitos fundamentais. A retomada territorial exige, ainda, inteligência, investigação financeira, interrupção do fluxo de armas e recursos ilícitos e integração entre União, estados e municípios. E precisa ser acompanhado por serviços públicos, circulação segura e oportunidades reais para os moradores, sobretudo para os mais jovens. Sem continuidade, a presença estatal corre o risco de ser episódica, enquanto o controle do crime se reorganiza. Um ano depois, a pergunta mais importante não é apenas a que aconteceu em uma operação, mas que a política de segurança será capaz de construir a partir das lições que ela impõe. Retomar um território é garantir que seus moradores não precisem escolher entre o medo do crime e o medo da violência. É fazer com que a lei, e não a força das armas, organize a vida cotidiana.