A obra sem fim
O Tribunal de Contas da União (TCU) deu um ultimato ao governo federal, cobrando uma definição sobre o destino de Angra 3. A obra segue em perpétua gestação desde 1984 e já consumiu bilhões de reais dos cofres públicos sem gerar um mísero miliwatt-hora de eletricidade para os brasileiros. Agora, o t
O Tribunal de Contas da União (TCU) deu um ultimato ao governo federal, cobrando uma definição sobre o destino de Angra 3. A obra segue em perpétua gestação desde 1984 e já consumiu bilhões de reais dos cofres públicos sem gerar um mísero miliwatt-hora de eletricidade para os brasileiros. Agora, o tribunal determinou que o governo terá até 120 dias para reunir e analisar a documentação necessária e outros 120 para decidir se conclui ou abandona a usina nuclear jamais terminada. Ou seja, a indefinição que atravessou décadas pode mais uma vez ficar para um novo mandato presidencial que se inicia e que poderá estender ainda mais a novela. Enquanto isso, a conta da indefinição só aumenta. Entre 2024 e meados de 2026, a Angra 3 custou R$ 2,5 bilhões à Eletronuclear, empresa responsável pela construção e pela futura operação da usina nuclear, entre a conservação das estruturas paralisadas e o pagamento de dívidas contraídas para financiar a obra. É dinheiro demais para manter um elefante branco encostado num país que mal consegue equilibrar suas contas. Pior: a paralisia já contamina outras empresas do setor nuclear. Segundo o TCU, a Indústrias Nucleares do Brasil (INB), fornecedora exclusiva de combustível para Angra 1 e 2, registrou prejuízo de R$ 156 milhões em 2025, em parte por causa dos atrasos nos pagamentos da Eletronuclear. A indefinição sobre uma usina que não funciona ameaça, assim, a saúde financeira de atividades que funcionam. Há quem defenda a continuidade do projeto sob o argumento de que a legislação de 2021 estabelece atribuições ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) para autorizar a exploração de Angra 3. Um exemplo é o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, que já prometeu planos para concluir a usina, mas não fez o que era preciso para isso. Como este jornal já sustentou, o problema de Angra 3 não é a energia nuclear, que tem seu lugar numa matriz energética diversificada e pode gerar energia contínua para o País. É a incapacidade do poder público de resolver o que fazer com um empreendimento gigantesco, custoso e paralisado há anos. Desistir custa caro. Prosseguir também. E não há garantia de que os benefícios da conclusão compensem os sacrifícios exigidos no final. Estudo do BNDES estimou em R$ 23,9 bilhões os recursos necessários para concluir a usina e entre R$ 21,9 bilhões e R$ 26 bilhões o custo de abandonar a obra e acabar com a operação. Dinheiro já desperdiçado não justifica desperdiçar ainda mais. O TCU também já alertou para o risco de a energia de Angra 3 custar muito mais aos consumidores do que alternativas disponíveis. O governo reeleito terá de lidar com a decisão que se arrasta por sucessivas administrações. Terá de fazer isso com transparência e, principalmente, responsabilidade fiscal, sem deixar que a conta final de escolhas ruins caia no colo do consumidor. Angra 3 não pode continuar sendo uma promessa de geração de energia cuja única produção garantida é a de novas despesas. Afinal, a conta de luz do brasileiro já está salgada demais.