Alfabetização é investimento no desenvolvimento econômico do Brasil

Por Estadão · Categoria: Geral ·

O Brasil avançou no acesso à educação nas últimas décadas. A universalização do ensino fundamental deixou de ser uma meta distante para se tornar realidade em grande parte do País. Essa conquista, porém, revelou um desafio mais complexo: garantir que a presença em sala de aula seja acompanhada por u

O Brasil avançou no acesso à educação nas últimas décadas. A universalização do ensino fundamental deixou de ser uma meta distante para se tornar realidade em grande parte do País. Essa conquista, porém, revelou um desafio mais complexo: garantir que a presença em sala de aula seja acompanhada por uma aprendizagem efetiva. Segundo dados do Indicador Criança Alfabetizada, divulgados pelo Inep, 66% dos estudantes do 2.º ano da rede pública atingiram, em 2025, o padrão nacional de alfabetização. O resultado representa um avanço e supera a meta nacional para o período. Ao mesmo tempo, significa que cerca de um terço dos estudantes ainda não alcançou o padrão esperado. O País ampliou o acesso à escola, mas ainda precisa assegurar a todos o direito de aprender. Esse processo não começa no ensino fundamental. A educação infantil tem papel decisivo no desenvolvimento das habilidades cognitivas, sociais e emocionais que acompanharão as crianças ao longo da vida. É nessa etapa que elas ampliam sua capacidade de se comunicar, conviver, explorar, resolver problemas e construir autonomia. Quando esse desenvolvimento é estimulado desde os primeiros anos, a criança chega mais preparada à alfabetização e encontra melhores condições para avançar na escola. Durante muito tempo, a alfabetização foi tratada principalmente como uma pauta educacional ou social, embora seus efeitos ultrapassem a sala de aula. Uma criança que encontra uma educação infantil de qualidade e aprende a ler, escrever e interpretar ao final do 2.º ano do ensino fundamental tem mais condições de avançar na escola e ampliar suas possibilidades ao longo da vida. Quando esses direitos não são garantidos, as dificuldades podem se acumular, afetando a formação, o acesso a oportunidades e as condições de participação econômica e social. A leitura deixa rapidamente de ser apenas um conteúdo de língua portuguesa e passa a ser um instrumento para compreender as outras disciplinas. Está presente na interpretação de um problema de matemática, numa atividade de ciências e na compreensão de acontecimentos históricos. Sem essa base, o estudante pode avançar de ano, mas encontra obstáculos cada vez maiores para acompanhar os conteúdos, tornando as defasagens mais difíceis de recuperar. Essa relação ajuda a compreender por que a primeira infância e a alfabetização devem ocupar um lugar central nas discussões sobre desenvolvimento econômico. O debate costuma se concentrar em juros, inflação, equilíbrio fiscal, empregos e produtividade, temas fundamentais, mas que não estão separados da educação. Uma economia mais produtiva depende, entre outros fatores, de pessoas capazes de interpretar informações, desenvolver competências e aprender continuamente. Qualquer projeto de desenvolvimento precisa considerar a formação oferecida desde os primeiros anos de vida. Tratar a educação infantil e a alfabetização como investimentos significa reconhecer que seus efeitos mais amplos aparecem no longo prazo, embora comecem a ser construídos na primeira infância. Esse tempo costuma entrar em conflito com os ciclos da política e do mercado: governos trabalham com mandatos, empresas acompanham resultados trimestrais e decisões públicas são pressionadas pela busca de respostas imediatas. A educação exige continuidade e não pode ser reiniciada a cada mudança de gestão nem depender de prioridades passageiras. Reconhecer que os resultados mais amplos levam tempo não significa esperar décadas para descobrir se uma política funciona. A aprendizagem deve ser acompanhada durante todo o processo, permitindo identificar quem está avançando, onde se concentram as dificuldades e quais estratégias precisam ser revistas. Avaliar, nesse contexto, não é transformar estudantes em números, mas impedir que aqueles que não estão aprendendo desapareçam dentro das médias gerais. O acompanhamento adequado possibilita agir enquanto ainda há tempo, apoiando professores, fortalecendo a formação das equipes pedagógicas e adaptando o trabalho à realidade de cada território. É nesse ponto que a gestão se torna parte da qualidade da educação. Recursos são indispensáveis, mas precisam estar acompanhados de planejamento, metas, acompanhamento sistemático e capacidade de corrigir rotas. Ampliar investimentos sem compreender o que acontece na ponta não garante a transformação esperada. Boas políticas educacionais precisam sair do papel e funcionar nas redes de ensino. Conhecer o problema e definir uma estratégia são passos fundamentais, mas o resultado depende da capacidade de implementar, acompanhar, aprender com os dados e ajustar o caminho. Na educação pública, em que os contextos e desafios de cada território são diversos, essa capacidade é determinante para transformar uma política ou metodologia em aprendizagem efetiva. A sociedade civil pode contribuir para aproximar estratégias bem estruturadas da realidade das redes públicas. O investimento privado em educação também deve ser compreendido para além da filantropia ou da reputação institucional. Empresas fazem parte das comunidades em que atuam e dependem das condições de desenvolvimento dessas regiões. Apoiar iniciativas que ampliem a aprendizagem contribui para uma sociedade com mais oportunidades e um ambiente econômico mais preparado para o futuro. Quando bem direcionado, o investimento social privado pode fortalecer capacidades nas secretarias de educação, apoiando a implementação de estratégias, a formação continuada e a gestão das políticas educacionais, com potencial para gerar resultados sustentáveis. O retorno desse investimento não aparecerá no balanço do trimestre seguinte. Uma criança que tem acesso a uma educação infantil de qualidade e é alfabetizada ao final do 2.º ano ainda levará alguns anos para chegar ao ensino superior ou buscar o primeiro emprego. Ainda assim, cada habilidade desenvolvida e cada avanço na aprendizagem representam mudanças concretas em sua trajetória, fortalecendo sua autonomia e ampliando suas possibilidades de futuro. Se o Brasil pretende se tornar mais produtivo, menos desigual e preparado para as transformações das próximas décadas, precisa entender que o desenvolvimento econômico começa antes de um jovem ingressar no mercado de trabalho. Ele começa na primeira infância, quando são construídas as bases para o desenvolvimento e a aprendizagem, e avança quando uma criança aprende a ler, compreender e questionar o mundo ao seu redor e encontra, na escola pública, condições para continuar aprendendo.