Fora da rivalidade em campo, Pelé e Maradona representam diferentes paixões entre os torcedores
Protagonistas de uma rivalidade histórica, Pelé e Maradona possuem, fora dos gramados, diferentes demonstrações de idolatrias por parte de seus torcedores. Essas diferenças refletem não somente as atuações em campo, mas também a cultura das cidades em que passaram. O brasileiro, nascido na cidade mi
Protagonistas de uma rivalidade histórica, Pelé e Maradona possuem, fora dos gramados, diferentes demonstrações de idolatrias por parte de seus torcedores. Essas diferenças refletem não somente as atuações em campo, mas também a cultura das cidades em que passaram. O brasileiro, nascido na cidade mineira de Três Corações , fez história no litoral paulista. Foi em Santos que se construiu como atleta e pessoa ao levar o clube do município para o mais alto patamar do futebol. Apesar disso, o antropólogo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, José Paulo Florenzano, afirma ao Estadão que não existe nessas cidades - Santos e Três Corações - algo que possa ser reconhecido como idolatria. “Trata-se de um sentimento mais discreto e circunscrito a determinados grupos mais diretamente ligados ao jogador.” Algo que se difere de Nápoles , cidade italiana em que Maradona é reconhecido para além de um ídolo, um Deus. A relação do argentino com os napolitanos é um evento mítico do futebol mundial. Um time desacreditado e uma região historicamente marginalizada se uniram a um gênio rebelde. “Não há comparação entre a relação de Maradona com Nápoles e a relação de Pelé com Santos. No primeiro caso, temos um culto ‘religioso’ da cidade italiana pelo atleta argentino. No segundo caso, temos o reconhecimento esportivo da cidade brasileira por um ‘Rei’ cada vez mais ‘estrangeiro’, diz Florenzano. Com a chegada de Maradona, o Napoli passou de um clube de menor expressão nacional, que nunca havia sido campeão da primeira divisão, para um vencedor. O argentino marcou 115 gols em 259 jogos oficiais e garantiu dois Scudettos — um deles sendo o primeiro da história do sul da Itália —, uma Copa da Uefa, uma Copa do Itália e uma Supercopa, o que o coloca como um pilar dessa era gloriosa da história do clube. Com o assédio da imprensa e dos torcedores e o agravamento do vício em drogas, o fim em Nápoles foi conturbado. Em março de 1991, depois de uma partida contra o Bari, Maradona testou positivo para cocaína no exame antidoping, o que resultou em uma punição de 15 meses. Apesar do fim conturbado, a idolatria na cidade permaneceu intacta. As ruas de Nápoles, cobertas por murais, altares e homenagens, impactam qualquer turista que chegue à cidade. O jornalista Luca Ranieri, de 28 anos, viveu a energia “maradoniana” por 15 dias em setembro. “Logo no primeiro dia, quando eu desembarquei em Nápoles e comecei a andar pela cidade, já comecei a ver umas bandeiras, uns escritos de Maradona em alguns lugares da cidade. E é impressionante, todo lugar que você olha tem alguma coisa do Maradona”, afirma o jornalista ao Estadão . A idolatria ao argentino se encontra com sincretismo religioso de uma população que reconhece e o retrata como um Deus. “Uma das passagens mais engraçadas que eu tive em Napoli. A igreja de San Gennaro é super antiga, tradicional. As pessoas vão para lá para rezar por San Gennaro, por proteção. E logo que você sai da igreja, tem algumas lojas de artigos religiosos. A primeira tinha bandeiras do Maradona com uma auréola. O Maradona é vendido também como um santo.” Ao voltar os olhos para o Brasil, Ranieri reconhece o que Pelé representa para a cidade de Santos, mas afirma que o Rei poderia ser mais homenageado. “Santos e Pelé é uma coisa muito intrínseca. Os dois nasceram um para o outro. O Museu Pelé é um lugar maravilhoso; a Vila Belmiro é um estádio mágico. Mas é diferente. O Pelé é ídolo do Santos, o maior jogador da história do Brasil e do mundo, ninguém vai superar. E eu acho que Santos ainda precisa respirar e torcer mais por Pelé, ter mais coisas de Pelé.” O jornalista e colunista do Estadão , Mauro Beting , faz parte da curadoria do Museu Pelé. O espaço guarda um acervo único do Rei, como documentos, camisas, chuteiras, bolas, reconhecimentos e troféus. Apesar disso, reconhece a falta de mais espaços para contar a história do ex-jogador. “Não vou dizer que o Maracanã ou a Vila Belmiro têm que chamar ‘Estádio Pelé’, mas é o atleta do século. A gente tem um problema que não é só do Pelé, não é só de Santos e não é só do meu trabalho; é um problema sério. O brasileiro acha que quem vive de passado é museu. “Não, vive de passado quem tem história, e uma história interplanetária como a do Pelé.” Ao comparar, Beting reafirma as diferentes posturas esportivas das duas estrelas. “Você pode comparar os talentos, a genialidade e até a habilidade do Maradona com o Pelé, jamais o comprometimento, o profissionalismo e a paixão de fazer. O Maradona tinha paixão de jogar bola. O Pelé de ser jogador de futebol, de ser atleta e de ser exemplo.” Além da comparação dos dois, o jornalista também fala da diferença entre a torcida brasileira e os argentinos e uma possível falta de garra por parte da seleção do Brasil. “Argentina, de modo geral, tem um sentimento pela pátria e um amor pela camisa maior que a gente. Não tem no Brasil um similar. Eu estou até discutindo que a seleção brasileira também não ganha, porque os jogadores não se identificam mais.” No Brasil, a idolatria ao Pelé parte da visão do herói nacional, perfeito e diplomático. Já com Maradona, na Argentina e em Nápoles, o povo se enxergava na imagem de uma estrela falha, que nasceu na pobreza, nunca se escondeu dela e possuía erros e vícios. “As razões pelas quais Pelé não desperta e alimenta no Brasil o mesmo culto ou devoção que Maradona suscita e possui na Argentina ou, sobretudo, em Nápoles, residem nas representações cristalizadas ao longo do tempo em torno do atleta por narrativas convergentes que o estereotiparam como “jogador mercenário”, “traidor da pátria” e “negro fora do lugar”. No entanto, do ponto de vista externo, em especial da África, Pelé foi reverenciado como uma divindade de um extremo ao outro do continente”, afirma o antropólogo José Florenzano. Florenzano acredita que a identificação da América Latina em relação aos dois supera a dimensão esportiva e passa também pelas questões políticas e raciais. “No caso de Maradona, a tatuagem de Che Guevara no braço direito o conectava com o imaginário de esquerda, ao passo que, no caso de Pelé, prevaleciam outros laços de identidade, reafirmados, no Caribe, por exemplo, pela admiração de Bob Marley pelo ‘Rei do Futebol’. Em outubro, o dia do Rei e do “Dios”. Sete dias separam as comemorações pela vida de Pelé e Maradona. O brasileiro, nascido em 23 de outubro de 1940, viveu no plano físico até 29 de dezembro de 2022, mas segue sendo relembrado todos os dias. Em Três Corações, Minas Gerais, no dia do Rei, teve programação no Museu destinado a ele. Com música, exposições e um momento destinado a homenagear os atletas destaques da cidade com uma medalha que carrega o nome do ilustre tricordiano. Em Santos, o museu recebeu um retrato doado pela artista conceitual e multimídia sérvia Milena ZeVu, composto por 17 mil cristais Swarovski. Além de uma atividade com os alunos da UME Colégio Santista para valorizar a história da cidade e o legado de Pelé por meio do contato com a história. No dia 30 de outubro, argentinos e napolitanos estarão em reverência ao “Dios” Maradona.