Quanto vale o show do BTS? Fãs viajam e gastam grandes somas para acompanhar grupo

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Quando soube que o BTS ia fazer show nos Estados Unidos, a contadora Lauany Souza, de 35 anos, cometeu a maior loucura de sua vida. Em companhia da irmã, Bruna, de 31, pegou o primeiro avião rumo ao Texas, onde o grupo sul-coreano se apresentou no Sun Bowl Stadium, com direito à cadeira numerada e a

Quando soube que o BTS ia fazer show nos Estados Unidos, a contadora Lauany Souza, de 35 anos, cometeu a maior loucura de sua vida. Em companhia da irmã, Bruna, de 31, pegou o primeiro avião rumo ao Texas, onde o grupo sul-coreano se apresentou no Sun Bowl Stadium, com direito à cadeira numerada e ambiente climatizado, na cidade de El Paso, nos dias 2 e 3 de maio. “Não falávamos nadinha de inglês!”, graceja. “Foi uma aventura e tanto”. Nos dias 28 e 30 de outubro, Lauany e Bruna, moradoras de São Gonçalo (RJ), município a 25 quilômetros do Rio de Janeiro, voltam a assistir a dois shows da BTS World Tour Arirang . Dessa vez, no Estádio MorumBIS, em São Paulo, com capacidade para 84.458 pessoas por noite. Se, da primeira vez, Lauany desembolsou algo em torno de R$ 15 mil, entre passagem, hotel e ingressos; da segunda vez, a despesa ficou na casa dos R$ 3 mil. BTS Pop-up Arirang: Loja funcionará no MIS Experience; veja regras Roteiro BTS em São Paulo: Veja outras atividades para os fãs de k-pop, além dos shows “Foi minha irmã quem me apresentou o grupo, em 2021. Gostei da música, mas achei o look deles brega. Até hoje, dou risada disso”, relata. “O BTS vai além das músicas que cantam e das coreografias que fazem: são as mensagens que transmitem. Suas músicas curam lugares dentro da gente que, às vezes, não sabemos como explicar. Permission to Dance (2021), por exemplo, virou meu mantra. Quando ouço essa música, parece que tudo fica melhor”. Septeto fantástico A exemplo de Lauany, o primeiro show do BTS a que Aline Geralducci, de 29 anos, assistiu foi no exterior – mais exatamente na Coreia do Sul, terra natal de RM, Jin, SUGA, j-hope, Jimin, V e Jung Kook. A convite da Netflix, ela e Karla Carvalho, diretora geral e fundadora da BTS Brasil On (BBO), a maior fanbase para o BTS no Brasil, com quase 700 mil seguidores, assistiram a um show do grupo na Praça Gwanghwamun, em Seul, no dia 21 de março. Três dos 253.374 ingressos disponibilizados pela Ticketmaster para o show do BTS no MorumBIS são de Aline. Sim, ela vai nos três dias: 28, 30 e 31 de outubro. No site da empresa, os preços dos ingressos, já incluídas as taxas de serviço online, variavam de R$ 408,00 (meia-entrada da arquibancada) a R$ 4.553,00 (inteira do soundcheck pacote VIP), que dá direito, entre outros “mimos”, a assistir à passagem de som e a ganhar um brinde exclusivo. Dançarinos do BTS chegam ao Brasil; primeiro show da banda será na quarta, 28 “No início, tive preconceito. Achava que o BTS era só mais um grupinho de meninos bonitos que sabiam dançar. Mas vi o clipe de Fake Love (2018) e fiquei obcecada”, recorda. “Uma das maiores loucuras foi me endividar com produtos importados, photocards limitados e, mais recentemente, ingressos do show, que consegui comprar aos 45 minutos do segundo tempo. Já devo ter gasto cerca de R$ 13 mil em produtos e experiências relacionadas ao BTS”. Insanidade ou admiração? Para ir ao show do BTS, vale tudo: de fazer empréstimo a vender livros. Foi o que fizeram a designer gráfica Giovanna Andrade e a assistente comercial Lohane Pinheiro. Giovanna, de 28 anos, calcula ter investido por volta de R$ 5 mil na “realização de um sonho”. Já Lohane, de 33, chegou a se desfazer de 50 livros de sua coleção para comprar o ingresso mais barato. Arrependimento? Nada disso! “Faria tudo de novo”, jura Giovanna. “Mil vezes”. Moradora de Bebedouro, a 379 km de São Paulo, Giovanna não descarta a hipótese de acampar na porta do estádio. “Para quem é fã, isso não é loucura, faz todo sentido!”, argumenta. Diferentemente dela, que nunca viu o BTS ao vivo, Lohane foi ao show em 2019, no Allianz Parque, em São Paulo. O show fazia parte da turnê BTS World Tour Love Yourself: Speak Yourself. “Foi uma experiência mágica”, descreve Lohane, que mora em Florianópolis (SC). Explicar o sucesso do septeto sul-coreano, acredite, é mais fácil do que comprar ingressos. “A música do BTS é mais do que entretenimento. Fala de saúde mental, desigualdade social e até de questões políticas. Quando eles acreditam em algo, eles se posicionam”, afirma Giovanna, diretora do Map of Bangtan, fanbase com 200 mil seguidores no Instagram. “Não é sobre o que eles fazem no palco. É sobre o que eles representam fora dele”. Lohane endossa as palavras de Giovanna. “O que diferencia o BTS de outros grupos de K-pop é a qualidade das músicas. Eles não fazem música para viralizar no TikTok. Eles fazem música de verdade. São letras profundas, como Spring Day (2017), que geram conexão emocional imediata em quem ouve. O grupo transformou o pop mundial em um espaço de acolhimento”, explica a fundadora da BTSxBRAZIL, fanbase com 390 mil seguidores no X. Entre os Beatles e os Stones A estudante Lara Aguiar Naves, de 24 anos, conseguiu ingressos para os dias 28 e 30. Embora defina a experiência como “uma disputa bastante acirrada”, principalmente pelo tamanho e pela relevância do BTS, não parece lá muito surpresa. “A procura foi intensa porque esse show representa a realização de um sonho para muitos fãs”, explica a administradora da página Anpan BTS Brasil, que tem 106 mil seguidores na conta principal e 54 mil na reserva. Para comprar as passagens e cobrir outras despesas, Lara precisou vender alguns itens oficiais do BTS, como o livro Beyond the Story , o CD Arirang (o quinto, e mais recente, álbum de estúdio deles) e até o bastão de luz oficial do grupo. Arrecadou R$ 400. “Se o BTS fosse uma banda de rock, eu diria que seus integrantes são versáteis como os Beatles e irreverentes como os Rolling Stones. É essa combinação que torna o BTS artistas globais”, avalia. A jornalista Paula Craveiro, de 45 anos, queria muito ir aos três dias de show. Queria. Teve que se contentar com apenas um. Planejava curtir a turnê, ao lado de amigos, na arquibancada ou na cadeira inferior. Conseguiu um único ingresso na pista. Isso, graças à amiga de uma amiga. “A venda foi caótica. Muita desorganização por parte da empresa organizadora”, lamenta. “Tinha tudo para dar errado. Felizmente, deu certo”, consola-se. Procurada pela reportagem para comentar sobre a dificuldade relatada pelas fãs para comprar ingressos para o show do BTS, a assessoria da Ticketmaster Brasil não respondeu às perguntas. O espaço segue aberto. Paula começou a se interessar pelo BTS em 2020, durante a pandemia de Covid-19. À época, enfrentava uma depressão. Para livrar-se do mal, recorreu à terapia junguiana e praticou atividade física. De quebra, ouviu o álbum Map of the Soul: 7 . “As letras me ajudaram a olhar para as minhas vulnerabilidades com mais serenidade”, explica. “Entendi o que aquilo representava, aceitei que elas faziam parte de mim e, a partir disso, consegui reagir”. Da Coreia para o mundo Essa é a quinta vez que o BTS se apresenta no Brasil. As outras quatro apresentações, todas em São Paulo, foram: RWeL8? (2014); The Red Bullet Tour (2015); The Wings Tour (2017); e Love Yourself: Speak Yourself (2019). A BTS World Tour Arirang (2026) começou no dia 9 de abril, em Goyang, na Coreia do Sul, e está prevista para terminar em 16 de março, em Bulacan, nas Filipinas. Segundo o site oficial do grupo, são 88 shows em 23 países. “No início, eles chegaram a ir às ruas convidar pessoas para assistir às suas apresentações gratuitas”, revela Camilla Costa, editora responsável pela revista BTS – O Fenômeno: do Debut ao Lançamento de Arirang (2026). “Fico triste por não ter acompanhado o BTS desde o início, lá em 2013. Mas, existe uma frase entre os fãs de que gosto muito: o BTS estreou na vida de cada um de nós exatamente no momento em que mais precisávamos deles”. Para ir ao show, Camilla convocou amigos e familiares e montou uma verdadeira força-tarefa. “Eu mesma não consegui comprar nenhum ingresso. Os meus foram adquiridos por outras pessoas, como a minha irmã e uma amiga”, explica. “A gente até brinca no fandom que foi quase uma terceira guerra mundial. Todo mundo sabia que seria complicado, mas ninguém estava realmente preparado. A sensação era de que seria impossível”. Coordenadora do Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea (MidiÁsia) da Universidade Federal Fluminense (UFF), Krystal Urbano destaca três momentos da carreira dos rapazes: a doação de US$ 1 milhão para o movimento Black Lives Matter, o lançamento de Arirang – o título remete a uma canção folclórica da Coreia – e o boicote ao Grammy em protesto contra a criação da categoria Best Asian Pop Music Performance . “A internacionalização do BTS não exige o apagamento de sua identidade artística. Pelo contrário. Pode ser parte daquilo que amplia as possibilidades de diálogo com outros países”, analisa. “Grupos, músicas e tendências podem ter ciclos de popularidade, mas o BTS está longe de ser uma moda. Isso não significa que sua configuração atual permanecerá inalterada, mas que sua importância ultrapassa o sucesso momentâneo de determinados artistas.” No palco com o BTS Em 2014, o BTS fez uma miniturnê internacional. Entre os dias 27 de julho e 1º de agosto, o grupo sul-coreano passou por três países: Alemanha, Suécia e Brasil. Ao longo de 90 minutos, cantou músicas, respondeu perguntas e participou de dinâmicas. Em São Paulo, o encontro de fãs aconteceu na casa de espetáculos Via Marquês, para um público estimado de 1,5 mil pessoas, e foi apresentado pela escritora Babi Dewet, então com 27 anos. Doze anos depois, Babi fala da dificuldade para decorar os nomes dos sete rapazes em coreano. Enquanto reconhecia o RM, o SUGA, o V e o j-hope, se atrapalhava para lembrar dos nomes de Jin, Jimin e Jung Kook. Durante o quiz com perguntas sobre a cultura brasileira, Jimin notou o nervosismo de Babi e, ao ouvir a apresentadora pronunciar o nome dele, levantou a mão e apontou para si mesmo. Um por um, todos os outros membros fizeram o mesmo. “Os caras foram muito legais comigo. Me fizeram sentir confortável no palco”, recorda a coautora do livro K-Pop – Manual de Sobrevivência (2017), hoje com 39 anos. “Ninguém esperava pela explosão deles. Em 2019, chorei de emoção no Allianz Parque. Depois de se apresentar para 1,5 mil fãs, o BTS estava fazendo um show para 84 mil pessoas. Hoje, me sinto realizada. Batalhei muito pelo reconhecimento da cultura pop coreana no Brasil”.