Indústria brasileira de árvores cultivadas leva produtos a 4 bilhões de pessoas
Todos os dias, 2,2 milhões de árvores são plantadas no Brasil para abastecer mercados em todo o planeta com produtos essenciais no dia a dia de bilhões de pessoas. Dos viveiros, onde mudas começam a ser cultivadas, até a chegada dos produtos finais aos lares, a atividade envolve pesquisa, tecnologia
Todos os dias, 2,2 milhões de árvores são plantadas no Brasil para abastecer mercados em todo o planeta com produtos essenciais no dia a dia de bilhões de pessoas. Dos viveiros, onde mudas começam a ser cultivadas, até a chegada dos produtos finais aos lares, a atividade envolve pesquisa, tecnologia, inovação e milhares de trabalhadores. Mesmo enfrentando um ciclo protecionista, o setor de árvores cultivadas continua batendo recordes de exportação e atraindo investimentos. Em Mato Grosso do Sul, a Suzano inaugurou recentemente a maior fábrica de celulose em linha única do mundo, em Ribas do Rio Pardo, enquanto a Arauco constrói outra em Inocência, que virá a ser a maior indústria global de celulose. No Rio Grande do Sul, a CMPC acaba de licenciar um projeto industrial em Barra do Ribeiro. As novas unidades ampliam a capacidade de produção de celulose e levam desenvolvimento para regiões de baixo dinamismo econômico. Esse crescimento é retratado no Relatório Anual Ibá 2026, divulgado pela Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), associação que representa empresas do setor de árvores cultivadas para fins industriais e de restauração de nativas. O levantamento registra recordes de produção e exportação de celulose em 2025, ano em que o Brasil manteve a liderança mundial nas exportações e a posição de segundo maior produtor. O país é ainda o sétimo maior player no mercado global de papel e de painéis de madeira e nono em madeira serrada. A carteira de investimentos do setor soma R$ 75 bilhões até 2029, destinados à construção de novas fábricas, à ampliação de plantios e à modernização de operações existentes. “Nos últimos tempos, entregamos uma fábrica nova a cada ano e meio no Brasil. De certa forma, esse setor, que é uma agroindústria, vai na contramão da desindustrialização que estamos vivendo no país nos últimos anos”, afirma Paulo Hartung, presidente da Ibá e ex-governador do Espírito Santo. Ciência e produtividade nas florestas brasileiras Desde os anos 1970, a produtividade média das árvores cultivadas mais do que triplicou. As condições de solo e clima favorecem o Brasil, mas não explicam a posição conquistada pelo país no mercado internacional. “O que justifica esse desempenho é o capital humano e a ciência aplicada, que permitiram uma evolução importante da produtividade”, afirma Hartung. O melhoramento genético, a clonagem e o aperfeiçoamento das técnicas de manejo elevaram a quantidade de madeira produzida por hectare. As pesquisas também buscam desenvolver árvores mais resistentes a pragas, secas e outras condições adversas. Outro fator destacado pelo presidente da Ibá é a adoção de certificações internacionais, como FSC e PEFC. Elas estabelecem critérios ambientais e sociais para o manejo florestal, incluindo práticas de conservação e relações com trabalhadores e comunidades. O cumprimento desses padrões também é exigido por compradores em diferentes mercados. Da floresta à bioeconomia Livros, embalagens de compras pela internet, papéis sanitários, móveis e tecidos de viscose têm algo em comum: utilizam matérias-primas obtidas de árvores cultivadas. Esses produtos chegam a mais de 4 bilhões de consumidores e mostram a diversidade de aplicações da madeira e de suas fibras. Essa diversidade está ligada à expansão da bioeconomia, que utiliza recursos renováveis na fabricação de materiais e produtos alternativos àqueles de origem em combustíveis fósseis. A composição de cada produto determina suas possibilidades de reciclagem e biodegradação, assim como as condições de coleta e processamento disponíveis após o consumo. “Uma embalagem de papel recebida em casa, por exemplo, pode ser encaminhada à reciclagem e transformada em uma nova embalagem”, explica Hartung. Produção e conservação nas propriedades A expansão da indústria exige novas áreas de cultivo. Mato Grosso do Sul liderou esse crescimento em 2025, principalmente com a conversão de pastagens de baixa produtividade. Nas propriedades florestais, uma das práticas sustentáveis adotadas é o manejo em mosaico, desenvolvido no Brasil. O sistema intercala áreas de árvores cultivadas com vegetação nativa conservada, formando corredores ecológicos que favorecem a circulação de animais e contribuem para a proteção do solo, da água e da biodiversidade. O crescimento das árvores também envolve a retirada de dióxido de carbono da atmosfera. Uma parcela desse carbono permanece armazenada na madeira e nos produtos fabricados a partir dela, por períodos que variam conforme a utilização e tempo até o fim do ciclo. Restauração florestal abre novas oportunidades Empresas dedicadas à recuperação de áreas degradadas e à silvicultura de espécies nativas começam a estruturar um novo segmento da indústria florestal brasileira. A atividade reúne projetos de recomposição da vegetação, produção de mudas e negócios ligados à comercialização de créditos de carbono e de produtos madeireiros e não madeireiros. A experiência da indústria de árvores cultivadas tem sido aproveitada por essas empresas. São conhecimentos desenvolvidos durante décadas, desde a produção de mudas até o planejamento financeiro de projetos que exigem investimentos de longo prazo. Nos viveiros, técnicas utilizadas na produção comercial de árvores são aplicadas ao cultivo de espécies nativas, como ipê, jequitibá rosa ou o jacarandá da Bahia, destinadas à recuperação de áreas da Mata Atlântica. A restauração também está relacionada ao compromisso assumido pelo Brasil no Acordo de Paris de recuperar áreas degradadas. Para ampliar esses projetos, o setor trabalha para estruturar modelos de financiamento capazes de acompanhar o tempo necessário para o desenvolvimento das florestas. Essas empresas, inclusive, já estão atraindo investimentos de conglomerados globais interessados em compensar suas emissões. Os desafios para continuar crescendo Apesar dos resultados, a indústria de árvores cultivadas enfrenta desafios, como outros setores no Brasil. No mercado internacional, o protecionismo e as disputas comerciais afetam as exportações. Internamente, a escassez de profissionais qualificados preocupa empresas que estão ampliando suas operações. O setor tem buscado parcerias com governos estaduais e instituições do Sistema S para desenvolver programas de capacitação. Persistem também gargalos de infraestrutura, como rodovias, ferrovias, portos e conectividade no campo. “O Brasil é um país de baixa poupança e que precisa atrair capital externo que nos dote de infraestrutura adequada. Para isso, é necessário um ambiente de segurança jurídica, previsibilidade regulatória e respeito aos contratos”, diz Hartung. As mudanças climáticas exigem ainda ampliar o debate sobre pesquisas em biotecnologias para desenvolver árvores mais resistentes a secas, pragas, ondas de calor e outros eventos extremos. “Temos uma trajetória notável no desenvolvimento de tecnologias como a clonagem e o melhoramento genético, mas precisamos nos abrir para novas trilhas para enfrentar os desafios climáticos que se impõem. Vejo um futuro próspero para a indústria de árvores cultivadas no Brasil. É uma atividade que cresce e investe muito. Mas que também tem obstáculos importantes, e precisamos ter capacidade de endereçá-los”, afirma.