Assombrações de outubro
Mais monstros, além dos que já temos no país. Outubro traz seus monstros, alguns inofensivos, outros nem tanto. Aqui vai uma lista preliminar. Observe que essas criaturas não frequentam as festas dos Jardins, onde o Halloween vem com bufê e DJ, mas quase exclusivamente o salão de festas do condomíni
Mais monstros, além dos que já temos no país. Outubro traz seus monstros, alguns inofensivos, outros nem tanto. Aqui vai uma lista preliminar. Observe que essas criaturas não frequentam as festas dos Jardins, onde o Halloween vem com bufê e DJ, mas quase exclusivamente o salão de festas do condomínio, entre o playground e o bicicletário onde ninguém guarda bicicleta. O Tio da Uva-Passa. Criatura que atende a campainha no dia 31 com um sorriso e uma tigela de uva-passa. As crianças recuam como se ele oferecesse fígado cru. Neste ano, ele dobrou a aposta: comprou uva-passa em saco de cinco quilos no Ceagesp e passou a distribuir no salão, nos elevadores e na guarita. O porteiro comeu por educação. Ao fim da noite, há uva-passa no balde de pipoca, na coxinha, no bolso dos fantasmas e no pelo do cachorro. Diz a lenda que, num condomínio da Vila Mariana, um Drácula mordeu uma criança só para tirar o gosto da boca. As Tribos Temáticas. Chegam em bandos de quinze a trinta, todos fantasiados conforme o tema votado no grupo de WhatsApp desde julho. Ocupam metade do salão com ring light e tripé. A avó vem de múmia, enrolada em atadura de farmácia, e o cachorro de abóbora. Por volta das dez, ninguém sabe direito quem está dentro da atadura. As tribos se dividem em duas espécies: os Instagramáveis e os Farofeiros do Além. Os primeiros tiram quatrocentas fotos e vão embora antes de a festa começar. Os outros trazem gelatina cor de sangue, cachorro-quente com salsicha em forma de dedo e um isopor do tamanho de um caixão. Não dançam, porque temem que alguém coma o resto enquanto estiverem na pista. Às onze, o patriarca abre o isopor e só encontra uva-passa. Theovoltaaqui e Valentinasaidaí. Crianças levadas à festa por pais que só querem ficar perto do isopor de cerveja. Elas, com razão, querem correr pelos corredores escuros. Isso aflige os parentes, que a cada dez segundos gritam "Theo, volta aqui!" e "Valentina, sai daí!" a cem decibéis, mais alto que Thriller. Às vezes, depois de um grito, aparecem oito Theos fantasiados de caveira, e a mãe leva o errado para casa. Só percebe no Natal. O Louco da Máquina de Fumaça. Sob o pretexto de criar clima, liga às oito da noite uma máquina de fumaça de show do Kiss, comprada de segunda mão de um ex-roadie. Às oito e cinco, ninguém enxerga mais nada. Fantasmas trombam com vampiros, Theos se perdem para sempre e a tribo temática fotografa a névoa branca. Um sujeito fantasiado de Saci jura que é um redemoinho e sai pulando num pé só. Às nove, o alarme dispara, o síndico desce de pijama e chegam os bombeiros. Um deles ganha o concurso de melhor fantasia. O Sobrevivente. Por fim, a criatura mais aterrorizante: a que chega ao trabalho na segunda-feira com um rabo de diabo para fora da calça e uma uva-passa no bolso do paletó, jurando ao chefe que passou o fim de semana lendo.