Economistas e mercado esperam manutenção dos juros pelo Fed a 6 dias de eleições nos EUA

Por Estadão · Categoria: Geral ·

NOVA YORK - Com a inflação ao consumidor nos Estados Unidos acima do esperado em setembro, mas um payroll (relatório mensal de empregos) fraco, a projeção majoritária sobre a decisão do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) nesta quarta-feira, 28, é de manutenção dos juros (atu

NOVA YORK - Com a inflação ao consumidor nos Estados Unidos acima do esperado em setembro, mas um payroll (relatório mensal de empregos) fraco, a projeção majoritária sobre a decisão do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) nesta quarta-feira, 28, é de manutenção dos juros (atualmente no intervalo de 3,75% a 4% ao ano). A ferramenta FedWatch, do CME Group, apontava 90,6% de chance de manutenção na terça-feira. Declarações de dirigentes do Banco Central americano nas últimas semanas reforçam essa perspectiva. “Apesar de um aumento notável nos preços ao consumidor e ao produtor em setembro, vários dirigentes do Federal Reserve defenderam que o comitê adote uma abordagem mais cautelosa e paciente em relação a quaisquer aumentos adicionais nas taxas de juros. Embora a maioria ainda apoie algum endurecimento adicional da política, a indicação é de um ritmo lento ou mais moderado de ajustes”, diz relatório da Stifel. A escolha pelo presidente do Fed, Kevin Warsh, das palavras no encontro anual do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Bangcoc, no dia 16 de outubro, também reduziu a chance de a elevação da taxa de juros indicada no comunicado de setembro ocorrer amanhã. Em Bangkok, Warsh mudou o tom de urgência sobre a estabilidade de preços que imprimiu na Conferência de Jackson Hole. Na conversa com a presidente do FMI, Kristalina Georgieva, no evento na Tailândia, Warsh evitou a ênfase na pressa do Fed. Para Andressa Durão, economista da instituição financeira ASA, a moderação no discurso evidenciou que Warsh está confortável com uma pausa. “Uma pausa vai contra a bravata de combate à inflação do presidente Warsh, mas continuamos com a visão de que aumentar as taxas pode fazer pouco para desacelerar o problema de inflação do lado da oferta do momento”, dizem os economistas da empresa de serviços financeiros Wells Fargo. Eleições nos EUA Para os economistas do Bank of America (BofA), a melhor razão para o Fed manter a taxa em outubro é “talvez o fato de os formuladores de políticas não quererem arriscar uma ruptura no mercado ao entregar uma grande surpresa hawkish a seis dias das eleições de meio de mandato” nos Estados Unidos. A eleição é no dia 3 de novembro. “Os mercados estão precificando chance minoritária de um aumento em outubro, e os rendimentos de longo prazo não estão questionando a credibilidade do Fed no combate à inflação”, diz relatório do BofA, que manteve previsão de um aumento em outubro, com baixa convicção. “De muitas maneiras, a decisão se resume a quem Warsh realmente é. Ele está disposto a entregar uma grande surpresa hawkish pouco antes das eleições de meio de mandato? Ou voltamos ao velho ditado: ‘O Fed só surpreende os mercados de forma dovish?’ Warsh vai optar por contrariar seu vice-presidente e o presidente do Fed de Nova York ou é um líder mais colegiado?”, questionam os analistas do BofA. Alta em dezembro Para economistas do C6 Bank, BofA, ING, Stifel, Goldman Sachs e vários outros, a expectativa é de uma nova alta de 0,25 ponto porcentual dos juros somente em dezembro. Felipe Mecchi, do C6 Bank, pontua que um novo aumento decorre de alguns fatores, como a inflação ainda elevada e o mercado de trabalho resiliente, apesar da desaceleração no payroll. Um ponto de atenção dos economistas é o crescimento resiliente da maior economia do mundo. Embora haja um consenso de que boa parte do desempenho esteja concentrado na tese da inteligência artificial — algo que deve desacelerar —, os analistas apontam risco inflacionário. “Embora seja verdade que os números recentes de empregos tenham sido decepcionantes e setores sensíveis a taxas de juros, como o mercado imobiliário, estejam enfrentando dores crescentes, a economia está crescendo de forma robusta e a inflação permanece acima da meta”, diz o relatório do ING. Nova unanimidade? Para o ING e para o Rabobank, a decisão de outubro não deve ser unânime. Os analistas do Rabobank esperam três votos dissidentes a favor de alta: Beth M. Hammack, presidente do Fed de Cleveland; Neel Kashkari, presidente do Fed de Minneapolis; e Lorie K. Logan, presidente do Fed de Dallas. Os analistas do ING lembram que Hammack, Kashkari e Logan votaram a favor do aumento em julho. “Dado que o último Resumo de Projeções Econômicas do Federal Reserve mostrou quatro membros do FOMC projetando aumentos de 50 pontos base (0,50 ponto porcentual) nas taxas entre agora e o final do ano, a decisão provavelmente não será unânime”, diz relatório do ING. Comunicado pós-decisão O Wells Fargo e o ING esperam um comunicado breve e uma entrevista à imprensa do presidente Warsh igualmente enxuta. “Suspeitamos que o presidente será relutante em oferecer muitas orientações futuras, embora um aumento em dezembro ainda seja o cenário base”, escreveram os economistas do Wells Fargo. Uma questão-chave para o Goldman Sachs é se o Fomc vai modificar a frase no comunicado referente ao aumento dos juros. “Achamos que pode adaptar a linguagem do recente discurso do vice-presidente (Philip) Jefferson para dizer: ‘Quaisquer ajustes adicionais na faixa-alvo para a taxa dos fundos federais para apoiar um retorno mais oportuno à meta de 2% do Comitê dependerão das tendências nos dados, das perspectivas em evolução e do equilíbrio dos riscos’”, diz relatório do Goldman. E dados não irão faltar. Às vésperas do Halloween, em 31 de outubro, o Fed parece já ter sofrido uma “travessura” do destino. Na quinta-feira, poucas horas depois da decisão, o calendário de indicadores traz o resultado da medida preferida do BC sobre inflação ao consumidor — o chamado PCE — e também do PIB no terceiro trimestre. Espera-se que daí não venha nenhum susto.