Brasil tem potencial para virar hub de pesquisa clínica, mas precisa ganhar escala

Por Estadão · Categoria: Geral ·

O Brasil começa a ocupar uma posição mais competitiva no mapa global da pesquisa clínica . Depois de décadas em que a demora para aprovar estudos afastava projetos internacionais, mudanças regulatórias reduziram prazos e aumentaram a segurança jurídica para a realização de pesquisas no País. O poten

O Brasil começa a ocupar uma posição mais competitiva no mapa global da pesquisa clínica . Depois de décadas em que a demora para aprovar estudos afastava projetos internacionais, mudanças regulatórias reduziram prazos e aumentaram a segurança jurídica para a realização de pesquisas no País. O potencial, no entanto, é maior. Segundo Fernando de Rezende, diretor executivo da Associação Brasileira de Organizações Representativas de Pesquisa Clínica (Abracro), indicadores como capacidade instalada, número de profissionais, tamanho do mercado farmacêutico e economia colocam o Brasil em condições de figurar entre os dez principais países do mundo na realização de pesquisas clínicas. “O Brasil tem potencial para crescer duas, três ou até mais vezes em relação ao que faz hoje em pesquisa clínica”, afirmou Rezende durante o Summit Saúde , realizado nesta terça-feira, 27, em São Paulo. Para chegar lá, porém, o País terá de ampliar a estrutura para receber esses estudos, formar mais profissionais e levar a pesquisa para além dos centros hoje concentrados principalmente no Sul e Sudeste. De país de “resgate” a competidor desde o início Durante muito tempo, um dos principais obstáculos brasileiros foi o tempo necessário para que uma pesquisa começasse. O prazo é decisivo porque os grandes estudos internacionais recrutam pacientes simultaneamente em diversos países. Quando o Brasil demorava para iniciar uma pesquisa, centros de outros países já podiam estar avançados no recrutamento, reduzindo a participação brasileira ou até deixando o País fora do projeto. Rezende conta que o Brasil chegou a ser conhecido no setor como um país de “resgate”: tinha profissionais qualificados, centros capazes de conduzir estudos e custos competitivos, mas era acionado muitas vezes apenas quando os patrocinadores precisavam completar o número de participantes previsto na pesquisa. “O Brasil era conhecido como resgate. Por quê? Porque nós temos capacidade, nós temos qualidade, nós temos custo, nós só não tínhamos capacidade de prazo. Não éramos competitivos nesse sentido”, afirmou. Esse cenário começou a mudar com a aprovação, em 2024, da legislação que estabeleceu novas regras para pesquisas com seres humanos. A lei trouxe maior segurança jurídica, modificou o processo de análise ética e estabeleceu prazos mais competitivos para a avaliação dos estudos. Os primeiros reflexos já aparecem. Segundo Rezende, dados da Anvisa apontam crescimento de 11% no número de estudos recebidos em 2025. Os prazos menores, porém, aumentam a necessidade de que os órgãos responsáveis tenham estrutura para cumprir os períodos previstos. Luís Fernando Correia, médico e embaixador do Projeto Cura de Apoio à Pesquisa Clínica, chamou a atenção para a capacidade técnica da Anvisa. Segundo ele, cerca de 25% dos estudos liberados no último ano foram aprovados por decurso de prazo — mecanismo pelo qual a autorização ocorre após o término do período estabelecido para análise. “Isso mostra o quê? A Anvisa precisa ser reforçada. Ela precisa ter um reforço na sua base técnica para que a gente possa acompanhar isso”, afirmou o médico, que também é colunista do Pulsa . Pesquisa precisa avançar além do Sul e Sudeste Se mais estudos começarem a chegar ao País, outro desafio será ampliar a capacidade de realizá-los. Hoje, boa parte da estrutura de pesquisa clínica está concentrada nas regiões Sul e Sudeste. O Brasil dispõe de centros e profissionais preparados, mas essa capacidade pode se tornar insuficiente diante de um crescimento mais acelerado da demanda, segundo Correia. “Centro de pesquisa não é dizer: ‘No meu hospital eu quero fazer pesquisa’. Não é só isso. As estruturas hospitalares têm de assumir sua parte e dizer: ‘Quero participar disso, vou criar um centro de pesquisa, vou gastar dinheiro com isso, pagando gente, treinando gente’”, afirmou. Rezende ponderou que a concentração dos estudos acompanha, em alguma medida, desigualdades que já existem na própria estrutura de saúde do País. Segundo ele, dados sobre estabelecimentos de saúde mostram uma oferta proporcionalmente maior no Sul e Sudeste, o que ajuda a explicar por que os estudos também se concentram nessas regiões. “Acho que o problema é um pouco maior e é um desafio maior, não só do setor de pesquisa clínica, mas é um desafio social”, afirmou. Diversidade genética é diferencial brasileiro Outro fator que pode aumentar a atratividade do Brasil para estudos internacionais é a diversidade da população. A miscigenação ao longo da história fez com que a população brasileira reúna uma grande diversidade genética , característica relevante para pesquisas que buscam avaliar como novos medicamentos se comportam em diferentes grupos populacionais. Para empresas que desenvolvem medicamentos destinados ao mercado global, essa é uma das vantagens de realizar parte da pesquisa clínica no Brasil. A característica também aparece como argumento na aproximação do Brasil com empresas chinesas. A China se tornou um dos principais polos de inovação biofarmacêutica do mundo, mas empresas que desenvolvem novos medicamentos precisam realizar etapas de seus estudos em populações distintas. Segundo Rezende, a Abracro vem realizando missões à China para apresentar o Brasil como destino para esses estudos. Uma nova missão está prevista para março, dentro de uma iniciativa com participação da ApexBrasil. “O chinês precisa realizar etapas do desenvolvimento do seu medicamento fora da China por questões de etnia. O Brasil tem uma diversidade étnica única, então, para eles, o Brasil é fantástico nesse sentido”, afirmou Rezende. Inovação também vem de empresas menores A disputa por estudos clínicos também mudou. Se antes grande parte da pesquisa internacional estava concentrada em grandes farmacêuticas multinacionais, uma parcela importante da inovação hoje nasce em pequenas empresas de biotecnologia. Para o Brasil, isso cria um novo desafio. Grandes farmacêuticas já têm presença no País, conhecem pesquisadores, centros e o ambiente regulatório brasileiro. Muitas biotechs, por outro lado, nunca realizaram um estudo no Brasil — e algumas sequer conduziram pesquisas fora de seus países de origem. “Antes a gente falava com uma, duas dezenas de empresas e estava falando com 90% dos estudos globais. Hoje não é bem assim. A gente tem que falar com algumas centenas de biotechs para poder atrair mais estudos”, afirmou Rezende. A aproximação com essas empresas é importante também para ampliar o acesso dos brasileiros a tratamentos experimentais. Em doenças para as quais as alternativas terapêuticas disponíveis já se esgotaram, participar de um estudo clínico pode representar uma possibilidade de acesso a uma nova terapia ainda em desenvolvimento. O desafio de avançar na cadeia de inovação Atrair mais pesquisas, entretanto, é apenas parte do caminho. O Brasil também precisa avançar para etapas mais precoces do desenvolvimento de novos medicamentos. Rezende comparou a trajetória brasileira à de China e Coreia do Sul. No início dos anos 2000, segundo ele, os três países apresentavam perfis semelhantes, com participação importante em estudos de fase 3, etapa mais avançada do desenvolvimento clínico. Vinte e cinco anos depois, o cenário mudou. China e Coreia do Sul ampliaram sua participação em estudos de fases iniciais, nos quais há maior presença de ciência aplicada e inovação. O Brasil, segundo Rezende, não acompanhou o movimento na mesma velocidade. “A China se tornou esse país, a Coreia do Sul está muito próxima de se tornar isso e o Brasil continua como estava 25 anos atrás”, afirmou. Para ele, mudar esse quadro exige olhar além da pesquisa clínica e fortalecer toda a cadeia de inovação, inclusive para que descobertas feitas dentro das universidades brasileiras consigam avançar até chegar à população. A nova legislação de pesquisa clínica é um passo nesse caminho, mas não suficiente. O momento, na avaliação de Rezende, é de transição: o País começa a superar gargalos que durante anos limitaram sua participação em estudos internacionais e precisa agora transformar esse avanço em uma posição mais relevante na produção de inovação. “Se avançarmos três anos, certamente a gente vai olhar para o período que a gente está agora e perceber que foi um período de transição. A gente vê as curvas de crescimento e está caminhando para um patamar muito mais amplo, com muito mais pesquisas à disposição dos profissionais de saúde e também da população brasileira.”