Lula precisa de coragem para mudar

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Com a vitória por margem expressiva no segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva vai iniciar seu quarto mandato com uma renovada legitimidade concedida pelas urnas. Com sua conhecida habilidade política, pode atrair o Centrão e partidos de centro no sentido ideológico, com o PSD, para se contrapor ao

Com a vitória por margem expressiva no segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva vai iniciar seu quarto mandato com uma renovada legitimidade concedida pelas urnas. Com sua conhecida habilidade política, pode atrair o Centrão e partidos de centro no sentido ideológico, com o PSD, para se contrapor ao PL, que formou as maiores bancadas em ambas as Casas do Congresso. Nesse sentido, Lula pode ter uma governabilidade razoável, se de fato abrir o seu governo para os partidos que poderão ser aliados no Congresso. Deve estar claro para Lula que o seu quarto e último mandato não poderá ser como o terceiro. Os limites econômicos e políticos do atual modelo são evidentes. Resta saber qual será o sentido das mudanças que provavelmente virão. Guinar à esquerda, e não ao centro, seria um erro crasso, e é de se esperar que um craque da política como Lula não o cometa. As primeiras especulações sobre o futuro ministro da Fazenda - trazendo nomes como o do jovem governador do Piauí, Rafael Fonteles, ou o vice-presidente, Geraldo Alckmin - são positivas nesse sentido. Embora não se deva esperar uma volta completa ao "paloccismo" dos primeiros anos do primeiro mandato de Lula, tanto Fontelles quanto Alckmin podem trazer de volta alguns aspectos daquela fase, como a montagem de uma equipe com espinha dorsal mais para a ortodoxia do que para a heterodoxia, embora possa contar com alguns quadros de mais alto nível dessa segunda corrente. É interessante comparar o desafio de 2003 com o de 2026. Naquela época, o Brasil era muito mais frágil, mas a institucionalização do enrijecimento orçamentário era mais incipiente, o que facilitava o ajuste. Hoje, a dificuldade política de se obter os 2-3 pontos porcentuais (pp) do PIB de ajuste do resultado primário é bem maior. A gastança eleitoreira da campanha e as promessas de mais gastos e - sobretudo - de não mexer nos nós principais do desequilíbrio fiscal brasileiro, como o aumento real puxado pelo salário mínimo de benefícios previdenciários e sociais, naturalmente não ajudam em nada. Lula terá que cometer algum estelionato eleitoral, e gerir com muita habilidade essa espinhosa tarefa. Na comparação com 2003, há outros aspectos que tornam o desafio atual maior. Lá, apesar da fragilidade macroeconômica, a economia vinha de anos de reformas da era FHC (e do início do Lula 1), e estava pronta para deslanchar quando o desequilíbrio macro fosse razoavelmente atenuado. Isso ocorreu a partir de 2004, com a ajuda de um superboom de commodities, levando aos anos de ouro da era Lula. Hoje, a economia está nos limites finais de um ciclo de endividamento público e privado, o que pode levar, no segundo caso, a uma desaceleração - ou mesmo recessão - "de balanços", que costuma ser mais longa e dolorida. No caso do endividamento público, a aritmética elementar aponta a insustentabilidade de se manter a toada atual de aumento da relação dívida/PIB em 2-3pp do PIB por ano - na verdade, para o Lula 4, algumas estimativas indicam aumento de 3-4pp do PIB ao ano, se nada for feito. Em 2027, a equação da política macroeconômica será muito complicada: fazer um ajuste fiscal estrutural, ou ao menos lançar as bases para isso, em meio a uma desaceleração cíclica e de balanços da economia. Isso pode gerar mau humor e queda de popularidade, com efeitos negativos para a governabilidade. Se a equipe econômica do novo governo souber calibrar bem a política macro, e Lula usar seu tino político para atravessar essa provável etapa de vacas magras, é possível que aporte numa fase mais promissora em meados do seu mandato. Mas não se deve minimizar a enorme dificuldade desse desafio. A "descentralização fiscal", com Estados e municípios liderando os gastos públicos e R$ 50 bilhões de emendas parlamentares, é outro grande complicador para o Executivo federal. Todo o cenário desta coluna parte do princípio que Lula vai convergir ao centro no seu quarto mandato, como sugerem as primeiras especulações sobre o novo ministério (sobretudo a Fazenda). Mas o atual presidente é conhecido pela sua imprevisibilidade, e pode escolher um caminho diferente. Também pode caminhar para o centro, mas de forma relutante e desastrada, e errar a mão nas difíceis escolhas econômicas e políticas que terá de fazer. Em todos esses casos, o limite é o recém-consumado triunfo eleitoral se transformar numa vitória de Pirro, e Lula encerrar sua carreira presidencial de forma melancólica. Dar um bom fecho à sua saga presidencial é possível e está nas mãos de Lula, mas exigirá muita coragem para mudar e trilhar caminhos diferentes daqueles a que se habituou nos últimos anos. Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quarta e sextas-feiras ( fojdantas@gmail.com ) Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 27/10/2026, terça-feira.