Brasileiros sacam mais e investem menos em previdência privada. O que explica essa mudança?
A previdência privada vem perdendo atratividade entre os brasileiros nos últimos anos. Dados da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi) mostram que a captação líquida dos planos privados, como o Plano Gerador de Benefício Livre (PGBL) e o Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL) ,
A previdência privada vem perdendo atratividade entre os brasileiros nos últimos anos. Dados da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi) mostram que a captação líquida dos planos privados, como o Plano Gerador de Benefício Livre (PGBL) e o Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL) , recuou 88,8% entre 2021 e 2025. Na comparação entre 2024 e 2025, a queda chegou a 93%. A tendência persiste em 2026. De janeiro a agosto, a captação líquida dos planos de previdência aberta somou R$ 8,7 bilhões, valor 13% inferior ao registrado no mesmo período do ano passado, de acordo com a Fenaprevi. A saída de recursos reflete, especialmente, a cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre aportes em determinados planos de previdência aberta. Em maio do ano passado, o governo federal publicou um decreto para cobrar IOF nos planos de previdência privada aberta. Com a norma, desde o início deste ano, um investidor que investiu mais de R$ 600 mil, ou seja, R$ 50 mil ao mês, em um plano VGBL terá de pagar 5% de IOF sobre os valores investidos excedentes. E, como a modalidade é o principal produto da indústria de previdência, a alíquota ajudou a frear a captação de recursos. Segundo a Fenaprevi, nos primeiros oito meses deste ano, em agosto de 2026 eram 13,7 milhões de planos de previdência privada aberta no país. Desses, 8,6 milhões são VGBL (63% do total); 3,2 milhões são PGBL (23% do total) e 1,9 milhão são os tradicionais. Além desse cenário, as taxas de administração elevadas e baixas performances também têm levado investidores a reavaliar seus planos de previdência privada. Diferenças aparentemente pequenas nas taxas podem reduzir o saldo acumulado em mais de R$ 1 milhão ao longo do tempo. Para Victor Oliveira, sócio e diretor- executivo da área de planejamento financeiro da Grão Planejamento, esses custos costumam estar presentes em produtos mais antigos e ajudam a explicar a baixa rentabilidade de parte desses produtos. “Os produtos mais recentes têm taxas mais adequadas e estratégias de alocação de portfólio mais equilibradas. Com isso, vêm entregando retornos consistentemente superiores ao CDI há vários anos”, diz Oliveira. Além das particularidades dos produtos, a maior oferta de investimentos capazes de gerar renda na aposentadoria acirrou a disputa dos planos de previdência privada pelos aportes dos investidores. Em fevereiro de 2023, a B3, o Tesouro Direto e a Secretaria de Previdência do Ministério da Previdência Social lançaram o Tesouro RendA+ , título público voltado ao planejamento da aposentadoria. O investimento garante pagamentos mensais por 20 anos e foi criado para complementar a renda dos aposentados. Os fundos imobiliários (FIIs) , que distribuem rendimentos mensalmente, e as ações boas pagadoras de dividendos também ganharam espaço entre os investidores que buscam construir uma fonte de renda adicional para a aposentadoria, especialmente entre os investidores mais velhos. Desde a pandemia de Covid-19, o número de investidores com 60 anos ou mais na Bolsa de Valores brasileira mais que dobrou . Dados da B3 mostram que a participação desse público passou de 280 mil investidores em 2020 para 592 mil em 2026 — um avanço de 112,8% no período. Os números revelaram ainda que as ações concentram a maior parte dos investimentos em renda variável da chamada “geração prateada”, como são conhecidos os investidores com 60 anos ou mais. Na sequência, os fundos imobiliários aparecem como o segundo ativo de renda variável mais procurado, com R$ 59,6 bilhões investidos. No Tesouro Renda+, cerca de 46% dos investidores possuem idade entre 25 e 39 anos; no entanto, os investidores com mais de 60 anos concentram o maior saldo mediano. Há ainda os títulos isentos de imposto de renda (IR), como as Letras de Crédito Imobiliário e do Agronegócio (LCIs e LCAs) , Certificados de Recebíveis Imobiliários e do Agronegócio (CRIs e CRAs) e debêntures incentivadas, que ganharam relevância em meio às mudanças tributárias nos últimos anos. A relevância da previdência privada A alíquota do IOF e o aumento da oferta de produtos capazes de entregar renda na aposentadoria não retiram a relevância da previdência privada, na avaliação de especialistas. Segundo Oliveira, no caso do IOF, a alíquota afeta especificamente os investidores de alta renda, o que não corresponde à maior parte dos brasileiros. “O investidor médio que precisa buscar a previdência privada e que não tem patrimônio construído não tem condições de fazer um aporte de R$ 50 mil por mês”, diz o especialista. Ele destaca ainda que os planos de previdência detêm outros benefícios que os investimentos tradicionais não possuem, especialmente para os investidores de alta renda que necessitam de planejamento sucessório. Isso porque os planos de previdência permitem que os investidores indiquem os herdeiros do patrimônio acumulado após a sua morte. Além disso, o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou inconstitucional, em dezembro de 2024, a cobrança do Imposto Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD) , conhecido como “imposto de herança”, sobre esses produtos. “Não existe um único produto que substitua diretamente a previdência privada. No entanto, uma carteira diversificada de ETFs, com renda fixa, ações brasileiras, ativos internacionais e, eventualmente, fundos imobiliários, mantida no longo prazo e combinada com um seguro de vida, pode reproduzir parte dos benefícios da previdência no planejamento sucessório”, destaca o especialista.