O prato cheio da comunicação política no Brasil
Eleições de 2026 evidenciaram transformações profundas no processo de circulação de informações impondo novas performances, possibilidades e desafios
Dois dias depois do resultado do segundo turno eleitoral, o sociólogo Boaventura de Sousa Santos apontou, em entrevista ao portal 247, a necessidade de os pesquisadores da comunicação estudarem as eleições do Brasil. Desinformação, manipulação da opinião pública e os efeitos das redes sociais e das ruas são algumas questões postas na lista de Santos aos intelectuais do campo comunicacional. Nas eleições deste ano, ficaram evidenciadas as transformações profundas no processo de circulação de informações impondo novas performances, possibilidades e desafios. O que é o debate público nesse outro contexto? Produzir conhecimento e promover meios para melhor compreensão do que é hibridismo entre entretenimento, propaganda política, redes de fofoca e jornalismo. Como direitos fundamentais, a leitura crítica da realidade e a democracia são impactados e estão sob ameaça nesse contexto de tomada de decisão sobre a vida cotidiana pelo desempenho dos algoritmos. Há um plus nesse cenário brasileiro: a fuga do candidato derrotado Flávio Bolsonaro. O senador pelo PL tem mandato até 1 de janeiro de 2027. Ao abandonar o Brasil, do modo como o fez, demonstrou não ter nenhum apreço aos 59,8 milhões eleitores que disseram sim a essa candidatura. O projeto pessoal é o único foco. Sob investigação, Flávio foge e tenta, com o fez o irmão Eduardo, outro fujão, e aliados estadunidenses, criar outra narrativa, o de político perseguido pelo governo brasileiro quando se soma a outros traidores da Pátria. O candidato derrotado tenta, no exterior, criar um movimento externo para questionar a legitimidade do resultado final das eleições nacionais. Busca apoio do governo Trump, por meio do secretário Marco Rubio, justificar a fuga e possíveis gestos, nas redes sociais, a serem realizados nos dias seguintes quando tomar coragem de aparecer. Este é o caráter do homem que queria comandar o Brasil. As eleições presidenciais deste ano são mesmo históricas e exigem tempo mais largo para situar o tamanho do acontecimento, como e em que proporção se deu. Já se sabia do quanto o resultado dessas eleições era acompanhado em nível global e o seu resultado uma senha para as disputas em todas as regiões do mundo, em especial na América Latina. Nesse movimento, quatro dias depois do resultado final das eleições, o L, usado na campanha do presidente Lula, passou a ser adotado em vários países da Europa como o mais novo símbolo internacional de luta e de resistência à extrema direita.