Árabes israelenses comparecem em massa às urnas e decidirão o futuro do país
As eleições israelenses realizadas ontem foram as mais divisivas da história do país, um referendo sobre Binyamin Netanyahu , o primeiro-ministro que mais tempo permaneceu no cargo. Também o primeiro-ministro acusado em julgamentos por tráfico de influência, protagonista da tentativa de censurar o J
As eleições israelenses realizadas ontem foram as mais divisivas da história do país, um referendo sobre Binyamin Netanyahu , o primeiro-ministro que mais tempo permaneceu no cargo. Também o primeiro-ministro acusado em julgamentos por tráfico de influência, protagonista da tentativa de censurar o Judiciário israelense e provável alvo de uma comissão de inquérito sobre seus erros e omissões no dia do ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023. Por tudo isso, muitos querem Netanyahu fora do poder. E por tudo isso que ele não quer o risco de perder a proteção do cargo. Um reflexo da importância do pleito se deu no comparecimento eleitoral. O comparecimento de 77,7% do eleitorado é o maior desde 1999. Importante destacar que esse comparecimento foi puxado para cima pelo comparecimento em regiões com maioria de eleitores israelenses de origem palestina, chamados de árabe israelenses na terminologia de governo. Seria a primeira vez na História em que o eleitorado de origem palestina tem um comparecimento proporcionalmente maior do que o eleitorado israelense judeu. Esse é o eleitorado mais afetado pelas políticas concretas de Netanyahu e de seus aliados de extrema-direita, como Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich. Desde questões macro, como no caso da Lei do Estado-Nação de 2018, até questões cotidianas em que, como apontam organizações como a Anistia Internacional, há uma discriminação sistemática contra essas pessoas. Além da política concreta, existem também as retóricas desumanizantes e a perseguição política, com os partidos árabes sendo provisoriamente excluídos das eleições pela comissão eleitoral controlada por Netanyahu, decisão revertida pela Suprema Corte. Essa demografia, que exige ser ouvida, é a demografia que vai decidir o futuro político de Israel . Ou, como uma política israelense colocou, “salvar a nação de si mesma”, referindo-se aos partidários de Netanyahu. Existem três blocos nessa eleição. Um é liderado pelo Likud de Netanyahu, mais os partidos de extrema-direita e os partidos ortodoxos. Outro é formado pelos partidos da direita secular, do centro e da centro-esquerda, uma frente ampla anti-Netanyahu, liderado pelo ex-general Gadi Eisenkot e seu partido Yashar. Finalmente, o bloco formado pela esquerda radical e pelos partidos árabes, a Lista Conjunta mais o Ra’am, liderado por Mansour Abbas, que chegou a ser ministro sem pasta entre 2021 e 2022. As projeções de saída de voto dão 50 a 55 assentos para cada um dos dois principais blocos, dos 120 assentos do Knesset. Ou seja, nenhum teria maioria clara. Os assentos restantes vão para os partidos árabes, especialmente o de Abbas, que são totalmente oposição à Netanyahu, mas são unanimidade na coalizão de Eisenkot. Se a oposição chegar à um acordo com Abbas ou com a Lista Conjunta, consegue formar governo e tirar Netanyahu do poder. O primeiro-ministro já esbraveja “fraude” e certamente dirá que seus opositores estão se aliando a “traidores” como Abbas em nome da governabilidade. Netanyahu fará de tudo para ou seduzir parlamentares do bloco oposicionista ou tentar dificultar ao máximo a formação de um governo, especialmente se o Likud ficar em primeiro, mesmo que sem maioria. Nesse caso, Netanyahu continua interinamente no cargo, com imunidade. Poderá intensificar a pressão com Trump para uma retomada de ataques contra o Irã , prevista para depois das eleições de meio de mandato dos EUA . Iniciar uma nova guerra seria extremamente conveniente para Netanyahu que, em nome da “emergência”, da “unidade nacional” ou de alguma outra desculpa retórica, poderia continuar no poder. Não seria a primeira vez que ele faria isso. Netanyahu afirma que é o candidato da segurança de Israel, mas é ele que intensifica as crises dessa segurança toda vez que lhe é politicamente conveniente.