BTS é mesmo Beatles da geração Z? Depende do ponto de vista

Por Estadão · Categoria: Geral ·

“O BTS é para a geração Z o que os Beatles foram para os jovens dos anos 1960”. Fazer esse tipo de afirmação virou um clichê na imprensa musical e no universo da cultura pop. Os próprios integrantes do BTS já se vestiram como os Beatles para uma apresentação na TV americana. Mas, como você pode imag

“O BTS é para a geração Z o que os Beatles foram para os jovens dos anos 1960”. Fazer esse tipo de afirmação virou um clichê na imprensa musical e no universo da cultura pop. Os próprios integrantes do BTS já se vestiram como os Beatles para uma apresentação na TV americana. Mas, como você pode imaginar, não é uma comparação tão exata assim. Existem, sim, semelhanças. Como os Beatles fizeram do Reino Unido o centro geográfico do rock, o BTS também mudou a bússola da música, sendo fundamental para a expansão global do pop sul-coreano, que hoje desafia a hegemonia norte-americana. Ambos os grupos influenciaram o estilo dos jovens, especialmente nos cortes de cabelo. E, é claro, há os fãs: os Beatles causaram a beatlemania, o BTS tem o seu Army, um exército de seguidores capaz de articular mobilizações no mundo inteiro. Em termos numéricos, o BTS foi o primeiro nome da música, desde os Beatles, a emplacar três álbuns no primeiro lugar da paradas americana em menos de um ano. Até Paul McCartney já comparou os dois. Ele disse em um podcast que não é exatamente pela música, mas que vê os meninos coreanos passarem pelas mesmas coisas que os Beatles passaram. De fato, a aproximação entre Beatles e BTS não tem nada a ver com música. Os primeiros começaram como uma banda de amigos e ganharam popularidade de forma meio acidental, tocando em pequenos clubes. Já o surgimento do segundo envolve um alto investimento do governo sul-coreano em cultura, no esforço bem-sucedido de expandir a influência do país no restante do mundo. Um dos pilares desse movimento são as empresas que “fabricam” ídolos da música no país. O BTS foi criado por uma delas, a gravadora Big Hit. Nessas agências, os aspirantes a “idols” têm uma rotina intensa de treinamentos, com aulas de dança, canto, etiqueta e idiomas. Depois, eles são lançados no mercado com estratégias elaboradas de alcance global. Por isso, o som do k-pop é feito sob medida para o mercado da internet e dos algoritmos, que não permite muitos riscos. São músicas bem produzidas, cativantes e agradáveis de ouvir, mas, em geral, reproduzem referências já muito exploradas pelo pop. Está aí a diferença essencial em relação aos Beatles, tão únicos na história da música pelas inovações que promoveram nas composições, instrumentações e até nas técnicas de gravação das canções. A banda é fruto de uma época da reconstrução pós-guerra, com os jovens rejeitando valores tradicionais e testando novas formas de expressão artística. Embalados por esse espírito, os Beatles fizeram experimentações que ajudaram no desenvolvimento de vários estilos musicais, do rock progressivo à música eletrônica. No fim das contas, talvez o que mais aproxime BTS e Beatles seja justamente o fato dos dois grupos refletirem muito bem seus próprios tempos.