Morros alvo da megaoperação contra CV seguem como ‘home office’ do crime: ‘Residências suntuosas’
Um ano após a operação mais letal da história do Rio de Janeiro, com 122 mortos, os complexos da Penha e do Alemão, zona norte carioca, seguem usados como “home office” de líderes criminosos e “fortaleza” do Comando Vermelho , alvo da incursão. A região abriga não só membros da facção, mas integrant
Um ano após a operação mais letal da história do Rio de Janeiro, com 122 mortos, os complexos da Penha e do Alemão, zona norte carioca, seguem usados como “home office” de líderes criminosos e “fortaleza” do Comando Vermelho , alvo da incursão. A região abriga não só membros da facção, mas integrantes de grupos de outros Estados, que pagam por proteção para fugir da polícia e de possíveis inimigos. “Há migração e concentração de lideranças de outros Estados em comunidades do Rio, muitas vezes até alugando residências suntuosas dentro das comunidades, e, mesmo daqui, realizando o controle, a administração de seus Estados de origem”, disse ao Estadão Fabio Correa, coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp) do Ministério Público do Rio (MP-RJ). O promotor ressalta, porém, que as forças de segurança do Rio têm mirado a apreensão de fuzis e na asfixia financeira do crime organizado, além de combater os fluxos e rotas ligados ao tráfico de drogas, armas e munições. “As operações, por si só, não são a única forma de conter o avanço das organizações criminais”, afirma. A Secretaria da Segurança Pública do Estado afirma que as ações adotadas contra o CV são contínuas, e reforça que a Operação Contenção “não se limitou à ação” do ano passado”. Já as investigações sobre a ação da polícia na megaoperação seguem em aberto. As primeiras denúncias encaminhadas pelo MP à Justiça não incluem acusações de homicídio, mas relatórios apontam falhas, por exemplo, falhas no uso de câmeras nos uniformes dos PMs durante a incursão - a secretaria não comentou (leia mais abaixo) . A hipótese de autoridades e pesquisadores é que alguns dos nomes fortes do CV da própria capital fluminense, que não foram capturados na operação e ainda estão foragidos, ainda dão ordens a partir da região. Entre eles, Edgar Alves de Andrade, vulgo Doca ou Urso; Carlos da Costa Neves, o Gardenal; e Juan Breno Malta Ramos Rodrigues, o BMW. A reportagem não localizou as defesas dos citados. A Operação Contenção, deflagrada na madrugada de 28 de outubro do ano passado, resultou na morte de nomes apontados como lideranças do CV de Estados como Amazonas e Pará. Como mostrou o Estadão , foragidos e em guerra com criminosos de seus Estados, alguns deles pagavam até R$ 150 mil mensais por uma rede de proteção nos complexos da Penha e do Alemão. A permanência ali abriria ainda portas para troca de conhecimento e de contatos do mundo do crime. Segundo Correa, o domínio territorial é o grande negócio dos grupos armados, em modelo que avança Brasil afora. Relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) aponta, por exemplo, que outra facção carioca, o Terceiro Comando Puro (TCP), já está em ao menos 10 Estados – o grupo é considerado a terceira força do crime organizado do País, atrás de CV e Primeiro Comando da Capital (PCC). “O tráfico de drogas responde somente a um percentual do lucro que as organizações criminosas auferem”, disse o promotor de Justiça. “Tanto as facções de tráfico quanto a milícia realizam as mesmas atividades, e o Comando Vermelho já parte para uma terceira onda, que é quando começa a atuar dentro da economia formal. A primeira foi o tráfico de drogas e a segunda quando passa a atuar nas práticas milicianas.” Ainda que não tenha tido objetivo de retomada territorial – o foco foi o cumprimento de mandados –, a leitura de pesquisadores é de que a Operação Contenção teve efeitos limitados no poder exercido pelo CV na Penha e no Alemão, até pelo fato de não ter capturado os principais líderes. Uma possibilidade é que, pela familiaridade com a região e por possivelmente contarem com uma rede de proteção ainda maior, esses alvos conseguiram se abrigar de forma mais efetiva durante a operação. Relatório elaborado pelo MP-RJ antes da operação, e ao qual o Estadão teve acesso, exemplifica o funcionamento de esquemas de proteção e da cadeia de comando seguida pelo CV. “Ninguém dá tiro sem ordem do Doca”, diz mensagem enviada em um dos grupos de WhatsApp que integrantes da facção usavam para se organizar. O documento destaca que, por conta de seu papel de liderança, sobretudo no Complexo da Penha, Doca tinha sua casa fortemente vigiada por seguranças armados com fuzis, conforme imagens obtidas em investigação conduzida pela Polícia Civil. “A Operação Contenção não enfraqueceu o Comando Vermelho. O território continuou sob domínio do CV, todas as ‘bocas de fumo’ voltaram a funcionar no segundo em que a polícia saiu”, diz Carolina Grillo, coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni-UFF). Os locais onde as mortes ocorreram não foram preservados para perícia e os cadáveres, inicialmente deixados por lá. Depois, os corpos foram retirados pelos próprios moradores e enfileirados em uma praça na Penha. Grande parte deles foi alvejada em área de mata, em uma estratégia chamada de “Muro do Bope”. “Existiu, no máximo, perda de credibilidade dos complexos da Penha e do Alemão, em relação aos seus aliados no Norte e no Nordeste, como lugar para oferecer proteção”, afirma Carolina. Mas segundo ela, nem por conta disso foi identificada migração para outras regiões em busca de mais proteção: os complexos da Penha e do Alemão seguem como um grande reduto do CV. Conforme a Secretaria da Segurança Pública do Rio, desde a operação houve 78 ações contra o CV, com foco no “enfraquecimento da estrutura operacional e financeira da facção criminosa”. Segundo a pasta, no âmbito das investigações ligadas à Contenção, já foram solicitados bloqueios de bens e valores que totalizam R$ 12 bilhões, envolvendo empresas e pessoas suspeitas de elo com a facção. O que apontam as denúncias contra os policiais A Operação Contenção teve 99 presos – apenas 17 delas alvos dos mandados de prisão e grande parte em flagrante – e mais de 100 armas apreendidas, incluindo fuzis do crime organizado. Na ação, três policiais civis e dois policiais militares foram assassinados. Conforme a Polícia Civil, as investigações sobre os assassinatos dos agentes foram concluídas pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), que indiciou 12 suspeitos – nove apontados como diretamente envolvidos nos homicídios e outros três suspeitos de ordenar ataques. As mortes das outras 117 pessoas seguem sendo investigadas. Relatório desta semana da Defensoria Pública em parceria com o Projeto Mirante, iniciativa Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF, indica que as câmeras corporais dos agentes apontam indícios de tortura e violência policial na ocorrência. Entre os casos, está o de um homem detido com o pé de um agente sobre a sua cabeça. As câmeras dos uniformes dos PMs, porém, não filmam os momentos das mortes. Até agora, o MP-RJ apresentou 12 denúncias contra 28 policiais por crimes como furto, peculato, violação de domicílio, constrangimento ilegal de moradores, roubo e recusa de obediência, além de irregularidades relacionadas ao uso de câmeras portáteis. Procurada pela reportagem, a PM não se manifestou. Os casos incluem, conforme denúncia obtida pelo Estadão , o de um grupo de um subtenente e três sargentos da PM que não apresentaram em sede policial um fuzil apreendido no chão após troca de tiro durante uma das ocorrências. O paradeiro do armamento ficou desconhecido, e o grupo foi denunciado por furto qualificado. Conforme apurado pela reportagem, nenhuma das denúncias foi por homicídio, mas as investigações seguem em curso. “Dentro do trabalho de acompanhamento das perícias pelo Ministério Público, dois casos foram considerados como ‘diferentes’, como fora do padrão: o de um corpo decapitado e outro marcado por tiros a curta distância”, disse o promotor Fabio Correa. As circunstâncias ainda são apuradas. Conforme o MP, desde o início, a Promotoria adotou medidas para garantir investigação e perícia independentes, instaurou um Procedimento Investigatório Criminal próprio e realizou o acompanhamento em tempo real pelo plantão institucional de operações. A análise das provas, que busca esclarecer eventuais responsabilidades inclui mais de quatro mil horas de gravações de câmeras corporais, 122 laudos periciais médico-legais e 262 depoimentos de agentes públicos, prestados por 255 pessoas distintas. Foram ouvidos ainda 45 familiares de pessoas mortas na operação. Para esta quarta-feira, 28, o coletivo Frente Penha convocou mobilização para lembrar o ato. Investigação identifica falhas no uso de câmeras de PMs A investigação do Gaesp também identificou falhas consideradas recorrentes no uso das câmeras corporais na operação. Só na Polícia Civil, dos 685 agentes que participaram da operação, apenas 62 utilizaram efetivamente câmeras corporais, segundo a investigação. Na PM, ao mesmo tempo, foram constatadas situações envolvendo agentes sem equipamentos, câmeras descarregadas, falta de baterias suplementares e problemas no planejamento da distribuição e do uso dos dispositivos. Levantamento do MP-RJ aponta que, de 51 equipamentos do Batalhão de Operações Especiais (Bope), ao menos 17% foram desligados propositalmente pelos policiais. No caso de outros 7,8%, há indícios de obstrução da lente para possivelmente dificultar a captação das cenas. Em março, a Procuradoria-geral de Justiça do Rio recomendou à PM, à Polícia Civil e à Secretaria da Segurança Pública aprimorar o uso das câmeras corporais. Isso inclui identificação dos agentes, oferta de câmeras para todo Bope, apresentação de cronograma de ampliação, além de melhorar a fiscalização e o treinamento. Conforme o Ministério Público, algumas medidas já estão sendo adotadas pela PM do Rio, como a ampliação do quantitativo de equipamentos utilizados e a utilização de sistemas institucionais de monitoramento. Para a Polícia Civil, o procurador-geral recomendou especificamente a utilização de câmeras corporais em atividades ostensivas, operações policiais e cumprimento de mandados judiciais. Nos casos de operações não planejadas em que as câmeras não forem utilizadas, a ideia seria que a corporação comunicasse ao Gaesp em até 24 horas, apresentando as justificativas. Conforme o MP, após reuniões e requisições sobre o cumprimento da recomendação, a Secretaria da Segurança informou que realizaria reunião interna de alinhamento técnico para tratar do tema, pedindo mais 15 dias para se manifestar. O Gaesp ainda aguarda resposta. Procurada pela reportagem, a pasta não comentou.