Quais são as prioridades no comércio internacional para Lula 4

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Lula venceu de virada, o que poucos analistas e quase ninguém no mercado previam. Também no exterior havia muitas apostas no outro candidato. O resultado das urnas está resolvido, mas reação externa ainda não. E o novo mandato começa com uma agenda internacional mais pesada do que a de qualquer um d

Lula venceu de virada, o que poucos analistas e quase ninguém no mercado previam. Também no exterior havia muitas apostas no outro candidato. O resultado das urnas está resolvido, mas reação externa ainda não. E o novo mandato começa com uma agenda internacional mais pesada do que a de qualquer um dos três anteriores. Até a posse, em 5 de janeiro, o mundo não ficará parado esperando o Brasil . Se os Estados Unidos forem a primeira prioridade, há longa lista a revisar. Desde 22 de julho, parte relevante das exportações brasileiras paga tarifa adicional de 25% com base na Seção 301. As conversas com o USTR foram retomadas em agosto, mas não há acordo à vista. Trump já disse que a eleição “pareceu fraudada”, para, na mesma frase, afirmar que gosta de Lula e, logo em seguida, conceder asilo a seu adversário. Convém ler suas frases, aparentemente desconexas, com atenção. A Casa Branca quer resultados, e os temas que lhe interessam são conhecidos: minerais críticos, mercado digital, propriedade intelectual. Os dois primeiros dependerão também do Congresso brasileiro, e o Executivo não poderá prometer em Washington o que não consegue aprovar em Brasília. Por isso, a negociação com os EUA começa, na verdade, na formação da base parlamentar. Com os EUA, até agora o Brasil vem categorizando temas. O inegociável: Pix, autonomia regulatória sobre plataformas e soberania da Justiça. O negociável: reforço para patentes, marcas, facilitação de comércio e cooperação em cadeias de suprimento. E o que deve ser exigido em troca: redução tarifária, ou pelo menos cotas, e reconhecimento do superávit norte-americano como fator na negociação, para um país que é também relevante comprador de tecnologia, software e serviços financeiros. Com uma segunda prioridade, a China, o desafio é de equilíbrio. Maior comprador do Brasil e, ao mesmo tempo, concorrente mais agressivo. Compra soja, minério e petróleo; vende aço, químicos, máquinas e veículos. Com mercados desenvolvidos parcialmente fechados ao produto chinês, o excedente procura destino e mercados emergentes são destino natural. O que exige defesa comercial técnica, rápida e previsível. Exige também uma política que atraia capital estrangeiro para produzir localmente, não apenas para vender aqui. Pequim reconheceu rapidamente o resultado, citando o TSE e a escolha dos eleitores. Mas isso não deve ser confundido com concessão comercial: a China negocia interesses, não afinidades. A terceira prioridade é transformar acordos já assinados em negócios reais. Com a União Europeia, o acordo está em aplicação desde 1.º de maio. Com Singapura, vigora desde agosto; o do EFTA já vale com a Islândia e começa com a Noruega em 1.º de novembro. Mas acordo comercial não é somente troféu para cerimônias, e sua efetividade depende de quotas regulamentadas, regras de origem precisas e empresas preparadas. O que, por sua vez, demanda, do lado brasileiro, um programa ativo de aproveitamento, com metas e iniciativas setoriais. Ainda com Europa, o comércio virá acompanhado de regulação ambiental. O regulamento antidesmatamento passa a valer para grandes operadores em 30 de dezembro. O CBAM (ajuste de carbono na fronteira) está na fase definitiva desde janeiro. As normas atingem setores em que o Brasil é competitivo: carne, soja, café, madeira, aço e alumínio. O Brasil pode reclamar e tem razões jurídicas para isso. Mas reclamação não substitui rastreabilidade, reconhecimento de sistemas, mercado de carbono — uma base institucional sólida que poderia transformar barreiras em vantagem competitiva para produtos brasileiros. Não se pode falar em prioridades sem se mencionar minerais críticos. A Lei 15.506 criou a política nacional e o conselho para o tema; o investidor vai decidir com base na regulamentação futura. Se a análise de investimentos for opaca, se a ANM continuar lenta e se o conselho virar instância de veto, o capital irá para outros destinos menos arriscados. A quinta prioridade é a vizinhança. Milei foi o único presidente sul-americano a não cumprimentar Lula, descortesia que não deve virar crise. Brasil e Argentina são sócios num bloco que acaba de ganhar relevância com os acordos europeus. Há interesses bilaterais concretos no setor automotivo, na energia e gás, investimentos, segurança regional. São temas que valem mais que antipatias e que demandam manutenção do Mercosul: revisão da tarifa externa comum, facilitação de comércio e coordenação na implementação dos acordos. A sexta prioridade é converter a vantagem energética em política industrial. Poucos países têm uma matriz elétrica tão limpa, e isso interessa a data centers, hidrogênio, aço verde e fertilizantes. O país tem credibilidade climática, mas falta transformá-la em investimentos e projetos concretos. Nada disso funcionará sem coordenação institucional. A pauta mencionada está repartida entre Itamaraty, Mdic, Fazenda, Agricultura, Minas e Energia e Camex. Quando todos coordenam, ninguém decide, e as negociações se perdem menos na mesa do que nos corredores de Brasília. Lula gosta de diplomacia presidencial, e ela tem valor. Ele enfrentará um mundo mais fragmentado, mais protecionista e mais transacional em 2027. Um mundo que não premia quem tem razão, mas quem tem estratégia. O Brasil tem ativos raros, um grande mercado e uma democracia que funciona sob pressão. Tornar estes ativos em poder de negociação será talvez a maior de todas as prioridades.