‘Inexplicável’, afirma ministro espanhol sobre decisão que pode ter provocado acidente entre trens

Por Estadão · Categoria: Geral ·

O ministro dos Transportes da Espanha, Óscar Puente , classificou como “inexplicável” a decisão da central de controle ferroviário de autorizar a retomada da circulação de um trem da estatal Renfe antes da colisão com uma composição da empresa privada Iryo, que deixou ao menos 68 mortos e 80 feridos

O ministro dos Transportes da Espanha, Óscar Puente , classificou como “inexplicável” a decisão da central de controle ferroviário de autorizar a retomada da circulação de um trem da estatal Renfe antes da colisão com uma composição da empresa privada Iryo, que deixou ao menos 68 mortos e 80 feridos . Segundo o ministro, uma falha no sistema de segurança interrompeu a circulação de trens em um trecho da linha de alta velocidade entre Madri e Sevilha nesta quarta-feira, 28, mas o comando central autorizou a retomada do percurso sem restrições de velocidade. “Não estou atribuindo responsabilidade a ninguém, estou apenas relatando os fatos”, afirmou Puente, ao apresentar uma reconstituição preliminar do acidente. O ministro disse que os maquinistas não tiveram culpa e que as circunstâncias da autorização para retomar a viagem ainda estão sendo apuradas. Segundo a explicação de Puente, por volta das 8h30, uma falha informática interrompeu o funcionamento do sistema de segurança ferroviária em um trecho de 63 quilômetros. O mecanismo de proteção fez com que os trens afetados parassem automaticamente. A central de controle assumiu então a gestão da circulação na área. O ministro afirmou que, apesar de um sinal de parada permanecer ativo, a central autorizou o trem da Renfe a voltar a circular normalmente. Para Puente, a composição não deveria ter recebido autorização para retomar o percurso naquelas condições. Caso a circulação fosse liberada, disse, o trem deveria ter sido orientado a avançar com velocidade reduzida, de modo que pudesse parar diante de qualquer obstáculo. A colisão ocorreu às 8h53, quando o trem da Renfe atingiu a composição da Iryo, que estava parada na linha. Puente afirmou que a velocidade exata do trem no momento do impacto ainda não havia sido determinada, mas que a composição poderia ter alcançado 200 km/h no trecho. O acidente envolveu trens que faziam o trajeto entre Madri e Sevilha, no sul do país. Segundo os dados preliminares divulgados pelas autoridades, havia 397 pessoas a bordo do trem da Renfe e 147 na composição da Iryo. A explicação apresentada pelo ministro direciona a investigação para as decisões tomadas pela central de controle depois da falha informática. Ainda não está esclarecido por que a circulação foi autorizada sem restrições de velocidade nem por que a ordem foi emitida apesar do sinal de parada. A empresa pública responsável pela infraestrutura ferroviária espanhola, a Adif, informou que a circulação na linha de alta velocidade entre Madri e a Andaluzia foi suspensa após o acidente. Equipes de emergência foram mobilizadas, com bombeiros, helicópteros e unidades móveis de terapia intensiva no atendimento às vítimas. A operadora privada Iryo afirmou ter acionado seus protocolos de segurança e estar trabalhando em coordenação com as autoridades. A estatal Renfe também ativou seu plano de atendimento às vítimas e familiares e disponibilizou uma linha telefônica para prestar informações. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez , cancelou compromissos previstos para esta quarta-feira para acompanhar a situação. O Partido Socialista (PSOE), liderado por ele, suspendeu as atividades de campanha previstas para o dia. O país está em período eleitoral, com eleições gerais marcadas para 29 de novembro. Em publicação na rede social X, Sánchez afirmou estar consternado com o acidente e disse que os serviços de emergência trabalhavam para atender os passageiros. O premiê também manifestou solidariedade às vítimas e a seus familiares. O rei Felipe VI e a rainha Letizia também divulgaram uma mensagem de pesar e afirmaram acompanhar as informações sobre a colisão. O acidente ocorre menos de um ano depois de outra tragédia ferroviária na Espanha. Em 18 de janeiro, uma colisão entre dois trens de alta velocidade em Adamuz, na Andaluzia, deixou 46 mortos. Na ocasião, um trem da operadora privada Iryo descarrilou antes de atingir uma composição da estatal Renfe que seguia no sentido contrário. A tragédia de janeiro provocou debates sobre a manutenção da rede ferroviária e a segurança dos passageiros, além de críticas da oposição de direita ao governo de Sánchez. A Espanha tem cerca de 4 mil quilômetros de linhas de alta velocidade, a segunda maior rede do mundo, atrás apenas da China. A expansão do transporte ferroviário e a entrada de operadores privados ampliaram a oferta de viagens no país, mas também alimentaram discussões sobre a capacidade da infraestrutura e a manutenção dos trilhos diante do aumento da circulação de trens. /AP, AFP e NYT