Estudo: ‘Freio’ genético pode inovar tratamento de doenças do sangue
Pesquisa aponta que bloquear a proteína BACH2 pode aumentar a produção de hemoglobina fetal, com potencial para futuras terapias contra doenças do sangue
Um estudo publicado na revista científica Nature identificou um mecanismo molecular que pode abrir caminho para novas estratégias de tratamento da anemia falciforme e da beta-talassemia , doenças genéticas que afetam o sangue. Os pesquisadores descobriram que a proteína BACH2 atua como um “freio” na produção de hemoglobina fetal , e que reduzir sua atividade pode aumentar a produção dessa proteína nas células sanguíneas. A pesquisa, publicada em 30 de setembro, analisou dados genéticos de mais de 28 mil pessoas de diferentes ancestralidades e investigou como variações genéticas influenciam os níveis de hemoglobina fetal, uma forma da proteína responsável pelo transporte de oxigênio que é produzida principalmente durante o desenvolvimento antes do nascimento . Leia Mais Por que o hemograma continua sendo um dos exames mais importantes GLP-1 pode ajudar em tratamentos renais, dizem nefrologistas a Kalil Conhece o leite A2? Saiba suas propriedades e benefícios Os resultados indicam que a inibição da BACH2 pode ativar uma via molecular que favorece a produção de hemoglobina fetal. A descoberta oferece uma possível nova abordagem para o desenvolvimento de tratamentos , mas ainda são necessários estudos para avaliar a segurança e a eficácia dessa estratégia em pacientes. Como funciona o mecanismo identificado A hemoglobina é uma proteína presente nos glóbulos vermelhos, responsáveis por transportar oxigênio pelo organismo. Durante o desenvolvimento fetal, o corpo produz principalmente hemoglobina fetal. Após o nascimento, essa produção diminui gradualmente e dá lugar à hemoglobina adulta. Na anemia falciforme, uma alteração genética leva à produção de uma hemoglobina anormal , que pode fazer com que os glóbulos vermelhos adquiram formato semelhante ao de uma foice. Essas células podem se romper mais facilmente ou obstruir vasos sanguíneos, provocando anemia, dores e outras complicações . A hemoglobina fetal pode reduzir os efeitos da hemoglobina alterada e, por isso, aumentar sua produção é uma das estratégias estudadas para tratar a doença. No novo estudo, os pesquisadores identificaram a participação da proteína BACH2 na regulação desse processo. Os experimentos indicaram que a BACH2 reduz a atividade de outro fator, chamado NRF2, que atua na ativação de genes relacionados à produção de hemoglobina fetal. Quando a atividade da BACH2 é reduzida, o NRF2 consegue atuar com maior intensidade, favorecendo a ativação desses genes e aumentando a produção de hemoglobina fetal nas células analisadas. O que os pesquisadores descobriram Para identificar o mecanismo, a equipe analisou informações genéticas de mais de 28 mil pessoas, com diferentes origens ancestrais, e investigou associações entre variações genéticas e os níveis de hemoglobina fetal. Em seguida, os pesquisadores realizaram experimentos em células sanguíneas humanas cultivadas em laboratório . Os resultados mostraram que aumentar os níveis de BACH2 reduzia a produção de hemoglobina fetal. Em contrapartida, diminuir a atividade da proteína elevava os níveis dessa hemoglobina. Os cientistas também observaram que a via BACH2-NRF2 atua de maneira independente da BCL11A, um gene já conhecido por participar da regulação da produção de hemoglobina fetal. Essa diferença é importante porque sugere a existência de outra via molecular que poderá ser explorada no desenvolvimento de terapias. No futuro, a possibilidade de atuar sobre mais de um mecanismo poderá ser investigada para ampliar a produção de hemoglobina fetal. Exame de sangue que detecta mais de 50 tipos de câncer chega ao Brasil | CNN PRIME TIME Descoberta ainda não é um tratamento disponível Apesar dos resultados promissores, a pesquisa não demonstra que bloquear a BACH2 seja seguro ou eficaz para tratar pessoas com anemia falciforme ou beta-talassemia. Os experimentos apresentados são uma etapa inicial da investigação de um possível alvo terapêutico. A descoberta amplia o conhecimento sobre os mecanismos que controlam a produção de hemoglobina fetal e identifica uma nova possibilidade de pesquisa para doenças hereditárias do sangue. Anemia na gestação? Veja quais alimentos ricos em ferro você deve priorizar *Sob supervisão de Carolina Figueiredo