“O Bosque Selvagem”: filme levou 5 anos e pode ser destaque no Oscar 2027
Nova animação da Laika (estúdio de "Coraline") chega aos cinemas nesta quinta-feira (29) com 99% de aprovação da crítica; brasileiros envolvidos na produção revelam detalhes à CNN Brasil
Uma floresta construída à mão, milhares de expressões faciais e cinco anos de produção são alguns dos detalhes do filme em stop-motion mais ambicioso da Laika (estúdio responsável por obras como “Coraline” e “Paranorman”). “O Bosque Selvagem” estreia na quinta-feira (29) nos cinemas brasileiros e já desponta como um possível concorrente ao Oscar 2027 de Animação. Dirigido por Travis Knight , o filme chega às telonas com 99% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes, tornando-se a produção mais bem avaliada da história do estúdio até o momento. E o reconhecimento é resultado de um processo que começou há mais de uma década e exigiu o trabalho de centenas de profissionais para transformar uma história de fantasia em um universo inteiramente artesanal. Gotham Awards abre temporada de premiações e anuncia indicados; veja lista Astro mirim de "Feito Pipa" diz que se empolga com Oscar 2027 "Jogos Vorazes": Jennifer Lawrence diz que está em "Amanhecer na Colheita" Em entrevista à CNN Brasil , o animador brasileiro Thiago Calçado e os dubladores Giulia Benite (Prue McKeel) e Pedro Bugarelli (Curtis Mehlberg) revelaram os desafios da produção, a grandiosidade do projeto e as reflexões provocadas pela história, que aborda temas como amor, perda e os limites das decisões humanas. “Demora tanto tempo quando estamos fazendo, a gente está tão imerso que chega um momento que não conseguimos saber se está bom ou ruim. É igual a todo processo de artista. É uma montanha-russa. Mas vendo o filme sendo construído, eu sabia que ia chegar longe. Já sabia que tinha ficado bom, mas está melhor do que eu esperava”, afirmou Calçado. Anos para sair do papel A trajetória de “O Bosque Selvagem” começou muito antes de suas primeiras cenas serem filmadas. Travis Knight teve contato com o manuscrito ainda inacabado da obra homônima do autor Colin Meloy e, desde então, alimentou o desejo de levá-la aos cinemas. O principal obstáculo era a própria dimensão da história. Com cenários grandiosos, criaturas fantásticas e sequências complexas de ação, o universo imaginado pelo autor exigia recursos técnicos que ainda não estavam disponíveis para o stop-motion da época. O projeto permaneceu em desenvolvimento durante anos, enquanto a Laika aperfeiçoava suas técnicas em outras produções. Os primeiros storyboards começaram a ser elaborados em 2018, a pré-produção teve início em 2020, pouco antes da pandemia de Covid-19, e as filmagens começaram oficialmente em 2021. Ao todo, foram 231 semanas de produção, um trabalho que se estendeu por cerca de cinco anos. Para Calçado, que já havia trabalhado com Knight em “Kubo e as Cordas Mágicas” , o resultado representa um avanço significativo para a técnica de animação. “É o maior filme de stop-motion feito até hoje. Em termos de evolução da técnica, são muitas cenas de ação, perseguição, explosão. É um filme muito rico visualmente, com vários personagens; é o filme mais longo de stop-motion”, destacou. Produção de “O Bosque Selvagem” • Divulgação O brasileiro também ressaltou a identidade artística da Laika, conhecida por desenvolver histórias que, apesar de apresentadas por meio da animação, não se limitam ao público infantil. “A Laika é sempre muito original nas histórias, fora do padrão, temas densos para adultos também. Os adultos pegam nas entrelinhas. É bem único o filme”, avaliou. Mais de 140 mil rostos e desafios para a dublagem brasileira A grandiosidade mencionada pelo animador se traduz em números expressivos. Para dar vida ao universo fantástico, a equipe construiu 132 cenários físicos, que representam 117 locações diferentes. A floresta que dá nome ao filme, por exemplo, conta com 728 árvores artesanais, inspiradas em dez espécies encontradas no noroeste dos Estados Unidos. No stop-motion, técnica em que bonecos e objetos são movimentados e fotografados quadro a quadro para criar a ilusão de movimento, cada detalhe exige precisão. Em “O Bosque Selvagem”, foram utilizados 233 bonecos e produzidos 142.030 rostos substituíveis, responsáveis por reproduzir as diferentes expressões dos personagens. Produção de “O Bosque Selvagem” • Divulgação As filmagens ocuparam 112 palcos, distribuídos por uma área superior a 14 mil metros quadrados. Ao final, o longa reuniu 2.804 planos em sua versão definitiva. Com 132 minutos de duração, “O Bosque Selvagem” também conquistou o título de longa-metragem em stop-motion mais extenso já realizado. Para Giulia Benite, responsável pela dublagem da protagonista, a dimensão desse trabalho se tornou evidente quando assistiu ao resultado final. “Eu já imaginei que seria uma grandiosidade, mas noção mesmo, só quando a gente vai assistir. É quando a gente percebe a riqueza de detalhes. Uma animação, feita em stop-motion, que levou 5 anos para filmar, é mais do que merecido receber esse reconhecimento”, disse. Pedro Bugarelli compartilha da mesma percepção. “Assistindo ao filme, eu percebi ainda mais essa grandiosidade. Acho que é muito legal ver que fizemos parte disso e também ver essa visão que o Thiago traz do tanto de coisa que tem por trás daquela imagem que estamos vendo. É muito legal poder colocar nossa parte no todo do trabalho”, comentou. Além do trabalho dos animadores, outro desafio da produção está em dar voz a personagens que foram cuidadosamente construídos para transmitir emoções mais por meio de movimentos e expressões faciais. Pedro Bugarelli explicou que a própria natureza do stop-motion exige uma atenção diferente durante a dublagem, especialmente na sincronização entre a fala e os movimentos da boca dos bonecos. “Esse filme de stop-motion é interessante por causa das batidas da boca. É diferente de uma animação convencional. É diferente o jeito de você encaixar a boca, da forma com que o personagem se mexe. É diferente encaixar a sincronia da voz com o personagem mexendo. É mais interessante de dublar”, contou. Uma aventura sobre amor, luto e escolhas Até onde você iria por amor? “O Bosque Selvagem” também aposta em uma história profundamente emocional. A trama acompanha Prue, uma jovem que embarca em uma jornada por uma floresta misteriosa e proibida após seu irmão mais novo ser sequestrado por corvos. Ao lado de Curtis, ela encontra criaturas fantásticas, aliados inesperados e adversários perigosos, enquanto descobre os conflitos que ameaçam aquele universo. Por trás da aventura, assim como as demais produções da Laika, estão questões que ultrapassam a fantasia. O amor e o luto aparecem como forças capazes de conduzir os personagens por caminhos radicalmente diferentes, colocando em discussão até onde alguém estaria disposto a ir para proteger ou recuperar aquilo que ama. Pedro Bugarelli destacou a maneira como o filme apresenta diferentes perspectivas sobre a perda. “No filme tem as duas visões, da mocinha sofrendo luto e da vilã também. O filme passa muitas lições boas, logo no início do filme. Mas esse tema do luto mexe muito com a gente. Aborda esses temas com muita excelência”, refletiu. Giulia Benite também chamou atenção para o contraste entre as motivações dos personagens. Segundo a atriz, a história explora como sentimentos semelhantes podem resultar em atitudes completamente distintas, dependendo das escolhas de cada um. “O filme tem muitas mensagens, difícil citar uma só. Uma coisa: ao mesmo tempo que a Prue faz o que for necessário, temos o outro lado, que também faz o necessário para conquistar o que quer, custe o que custar, mas por um lado obscuro. É literalmente o ser humano”, analisou. “O Bosque Selvagem” pode chegar ao Oscar? A recepção da crítica internacional também colocou “O Bosque Selvagem” entre os títulos que podem ganhar força na temporada de premiações de 2027, especialmente na categoria de Melhor Animação. Com 99% de aprovação no Rotten Tomatoes, o filme supera as avaliações de outros sucessos da Laika, incluindo “Coraline e o Mundo Secreto” e “Kubo e as Cordas Mágicas”, que alcançaram 91% e 97%, respectivamente. A produção também recebeu elogios de publicações internacionais respeitadas na indústria, como Variety, The Hollywood Reporter e Screen International, sobretudo pela ambição visual e pelo avanço técnico do stop-motion. A trajetória da Laika na premiação reforça as expectativas. Todos os cinco longas-metragens anteriores do estúdio foram indicados ao Oscar de Melhor Animação, embora nenhum tenha conquistado a estatueta. Assista ao trailer de “O Bosque Selvagem” O Bosque Selvagem | Novo Trailer Dublado | 29 de outubro nos cinemas Ratatouille completa 18 anos: confira 5 curiosidades sobre a animação