Caverna Desmoronada, no Petar, volta a receber visitantes em parque de SP após 15 anos fechada
Fechada para visitas há 15 anos, uma das cavernas mais inacessíveis do Estado de São Paulo voltará a fazer parte dos roteiros turísticos do Parque Estadual Alto do Ribeira (Petar) , em Iporanga, no Vale do Ribeira. Com grandes salões, rios subterrâneos, desníveis e formações esculpidas ao longo de m
Fechada para visitas há 15 anos, uma das cavernas mais inacessíveis do Estado de São Paulo voltará a fazer parte dos roteiros turísticos do Parque Estadual Alto do Ribeira (Petar) , em Iporanga, no Vale do Ribeira. Com grandes salões, rios subterrâneos, desníveis e formações esculpidas ao longo de milhares de anos, a Caverna Desmoronada reabre ao público nesta quarta-feira, 28, com um percurso que pode chegar a oito horas de duração. A gruta foi fechada à visitação durante uma década e meia para estudos e levantamentos que pudessem adequar as condições de uso público à conservação do ambiente subterrâneo. O trabalho permitiu avaliar características geológicas e ambientais, áreas de maior fragilidade, riscos, impactos da presença de visitantes e condições de segurança, além de definir os setores aptos à visitação e aqueles que exigem maior proteção. O trajeto O novo roteiro está entre as experiências mais desafiadoras oferecidas no Petar. São aproximadamente 10 quilômetros de trilha pela Mata Atlântica , cerca de 900 metros de percurso subterrâneo e duração média de oito horas , considerando ida e volta. Classificada como difícil, a atividade ocorre mediante reserva antecipada e exige acompanhamento de monitor ambiental autônomo credenciado. “Foram anos de estudos na elaboração do plano de manejo espeleológico para entender melhor as características da Caverna Desmoronada e definir a melhor forma de receber os visitantes, garantindo que a visitação aconteça de maneira responsável e sem comprometer a conservação desse importante patrimônio natural”, afirma Tatiane Ashino, diretora de Planejamento e Ordenamento Territorial da Fundação Florestal. Ciência para reabrir Durante o fechamento da caverna, cerca de 100 profissionais participaram do trabalho multidisciplinar e de levantamentos realizados na própria cavidade. Os estudos analisaram a geologia, circulação da água subterrânea, temperatura, umidade, estabilidade de blocos, fauna cavernícola, riscos biológicos e possíveis registros históricos, culturais e arqueológicos. Também foram realizados mapeamentos detalhados de galerias, salões, desníveis e áreas de maior fragilidade ambiental. A partir dessas informações, foi elaborado o Zoneamento Ambiental Espeleológico (ZAE), que estabelece quais setores podem receber visitantes, quais necessitam de controle mais rigoroso e quais devem permanecer prioritariamente destinados à conservação. O trabalho também avaliou riscos, impactos da visitação e capacidade de uso da cavidade. A Caverna Desmoronada integra um trabalho mais amplo de planejamento conduzido pela Fundação Florestal. A conclusão dos estudos resultou na elaboração de 32 planos de manejo espeleológico que abrangeram 20 cavernas do Petar, 10 do Parque Estadual Intervales, uma do Parque Estadual do Rio Turvo e a Caverna do Diabo. Galerias com espeleotemas O nome ‘Desmoronada’ está relacionado à própria formação geológica da caverna. Seu interior reúne enormes blocos rochosos resultantes de antigos processos naturais de abatimento do teto, que deram origem a grandes salões, galerias irregulares, desníveis e passagens acidentadas. Ao longo de milhares de anos, a ação da água subterrânea também esculpiu corredores e ampliou galerias. Em determinados trechos, a ressurgência de um rio subterrâneo atravessa a cavidade e integra a experiência do visitante. Nas galerias superiores estão espeleotemas — formações minerais desenvolvidas ao longo de milhares de anos — como estalactites, estalagmites, colunas, cortinas, escorrimentos e travertinos. Entre os pontos de destaque estão uma grande coluna central e o Pórtico do Vale da Ilusão, abertura que conecta grandes salões superiores da cavidade. A Desmoronada oferece duas possibilidades de visitação. No circuito tradicional, a entrada e a saída ocorrem pela mesma abertura, com percurso pelos salões superiores até o Pórtico do Vale da Ilusão. Já o circuito de travessia começa pela ressurgência do rio, segue por uma caminhada ascendente entre grandes blocos e inclui uma escalaminhada interna até os salões superiores, com saída por outra entrada da cavidade. Visitação monitorada Por se tratar de um roteiro de alta dificuldade, a visitação segue protocolos específicos. O acompanhamento de um monitor ambiental credenciado é obrigatório durante todo o percurso, assim como o uso dos equipamentos de segurança definidos para a atividade. A estruturação incluiu a aquisição de cordas técnicas e hastes de aço inox destinadas à demarcação do caminhamento e ao isolamento de áreas ambientalmente sensíveis, contribuindo para orientar o percurso e proteger tanto os visitantes quanto o ambiente subterrâneo. “A segurança é um dos principais critérios para a operação da visitação. O percurso foi estruturado considerando as características e os níveis de dificuldade da cavidade, com acompanhamento obrigatório de monitor ambiental credenciado e adoção de protocolos específicos para reduzir riscos e garantir a integridade dos visitantes e do ambiente subterrâneo, além da elaboração de Protocolos de Gestão de Segurança para todos os monitores credenciados a conduzir visitantes nesse atrativo”, afirma Rodrigo Aguiar, gestor da APA Quilombos do Médio Ribeira. Para o diretor-executivo da Fundação Florestal, Rodrigo Levkovicz, a retomada das atividades demonstra como a conservação e o uso público podem avançar de forma integrada. “A abertura da Caverna Desmoronada é resultado de um trabalho construído ao longo de anos pela Fundação Florestal, que envolveu pesquisa científica, estudo técnico, planejamento, monitoramento e a participação de profissionais de diferentes áreas. Nosso compromisso é garantir que o patrimônio natural seja conhecido e valorizado pela sociedade, mas sempre dentro de critérios que assegurem sua conservação”, afirma. Mais de 350 cavernas A Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE) classifica a Caverna Desmoronada como uma cavidade natural subterrânea horizontal com a presença de grandes colapsos (desmoronamentos). Ela está inscrita no Cadastro Nacional de Cavidades Naturais com a sigla SP-015 e tem como principais atributos a cavidade formada em rocha calcária, com travessia em túnel. Ela atravessa uma montanha no Núcleo Caboclos do Petar e possui uma entrada descrita como monumental, com uma saída que se abre diretamente para o paredão do chamado Vale da Ilusão. De acordo com a Fundação Florestal, o Petar reúne um dos maiores conjuntos de cavernas do País. São mais de 350, algumas com salões gigantes, dunas, cachoeiras, abismos de até 240 metros de profundidade, ‘quebra-corpos’ e escaladas. São cavernas secas ou molhadas (com rios no interior). No parque está a caverna com o maior pórtico do mundo, a Caverna Casa de Pedra, com uma boca de 197 metros de altura, segundo estudo do Instituto de Geociências da USP. No Petar está também a Caverna de Santana, a maior do Estado de SP, com mais de 8 km de extensão. A Caverna do Diabo, uma das mais conhecidas do Brasil, fica na mesma região, mas fora do Petar – está no Parque Estadual Caverna do Diabo. Nem todas as cavernas são abertas à visitação devido aos riscos, dificuldade de acesso ou para evitar a degradação de um ambiente muito frágil. Atualmente, as seguintes cavernas do Petar são visitadas: Santana, Água Suja, Morro Preto, Couto, Cafezal, Alambari de Baixo, Ouro Grosso, Aranhas, Chapéu Mirim I, Chapéu Mirim II, Teminina I e Teminina II. Como conhecer a caverna? A Caverna Desmoronada receberá visitantes de segunda a domingo, mediante reserva antecipada e acompanhamento obrigatório de um monitor ambiental credenciado. O roteiro é classificado como difícil e tem duração aproximada de oito horas, considerando ida e volta. Informações podem ser obtidas pelo telefone (15) 3552-1875, e as reservas são realizadas pelo sistema oficial de ingressos da Fundação Florestal (ingressosonline.fflorestal.sp.gov.br).