Diretor diz que BRB afrouxou critério para comprar ativos do Master: ‘Estou assustadíssimo’
BRASÍLIA - Diálogos de ex-diretores do Banco de Brasília (BRB) demonstram uma preocupação deles com a injeção de recursos no Banco Master e indicam que eles tinham conhecimento da fragilidade das carteiras de crédito oferecidas pela instituição de Daniel Vorcaro , posteriormente consideradas falsas
BRASÍLIA - Diálogos de ex-diretores do Banco de Brasília (BRB) demonstram uma preocupação deles com a injeção de recursos no Banco Master e indicam que eles tinham conhecimento da fragilidade das carteiras de crédito oferecidas pela instituição de Daniel Vorcaro , posteriormente consideradas falsas pela Polícia Federal. Eles também admitem que os critérios do banco público do DF foram flexibilizados para permitir a compra de carteiras do Master sem critérios técnicos. As conversas foram transcritas pela PF no relatório que resultou no indiciamento de 15 pessoas por crimes financeiros na injeção de recursos no Banco Master. Os investigadores consideraram graves os trechos de conversas entre o ex-superintendente de Operações Financeiras do BRB, Robério Mangueira, e o ex-diretor executivo de Finanças e Controladoria, Dario Garcia, a respeito das operações financeiras. Garcia foi indiciado pela PF, mas Robério não foi alvo de acusação criminal no relatório. Procuradas, as defesas ainda não se manifestaram. Os aportes no Master eram submetidos a eles e precisavam de uma aprovação, para que os recursos do BRB fossem liberados. A PF identificou que o Master cedeu R$ 17,5 bilhões em ativos ao BRB, dos quais ao menos R$ 12 bilhões foram considerados falsos. Em 26 de fevereiro de 2025, Robério informou a Dario que o Master pressionava o BRB para receber recursos naquele mesmo dia. “DARIO questionou ROBÉRIO se ele teria coragem de: ‘fazer na tora’. DARIO também declarou estar receoso. ROBÉRIO respondeu negativamente, embora considerasse a operação economicamente atrativa”, relatou a PF. Em 19 de março de 2025, Robério encaminhou a Dario um parecer de risco sobre a compra das carteiras. “O documento indicava que a operação exigiria aproximadamente R$ 2,78 bilhões em captações adicionais, levaria o Índice de Liquidez de Curto Prazo ao limite mínimo e agravaria o desenquadramento prudencial do BRB. Após o exame do parecer, a conclusão registrada foi: ‘não tem condição de comprar nada’”, relatou a PF. No dia seguinte, eles falam sobre a flexibilização dos critérios para aportes no Master. “Em 20/03/2025, ROBÉRIO explicou que o BRB historicamente adquiria carteiras com limite de inadimplência de 4%, mas que os filtros haviam sido flexibilizados até aproximadamente 12%: ‘Historicamente, temos comprado a carteira com teto em 4% de inadimplência nos dados da contraparte. Flexibilizamos os filtros até 1 2% e o desembolso ficou R$ 290 MM.’”, reproduziu a PF. Uma das preocupações deles era que o Master exigia novos repasses do BRB para honrar com suas dívidas perante o banco público do DF. Por isso, a PF afirma que o BRB emprestava dinheiro para o Master lhe pagar de volta. Em seguida, a PF reproduziu outro trecho de conversa entre Robério e Dario no qual eles conversaram sobre uma notícia na imprensa que indicava falsidade na base de dados das carteiras de crédito do Banco Master. “Em 25/04/2025, após o compartilhamento de notícia relacionada ao Banco MASTER, ROBÉRIO manifestou preocupação com a composição das bases: ‘a base de compra aparenta ser toda de operações de associações e a de recompra toda de operações do MASTER’. Também foi compartilhada a seguinte avaliação: ‘Se seguirmos estaremos expondo o Banco e nós mesmos. A notícia da denúncia do Voiter é gravíssima. Estou assustadíssimo aqui.’ A conclusão expressa no contexto da conversa foi: ‘não tem carteira’”, relatou a PF. Planejamento para encobrir fraudes A PF identificou conversas entre Paulo Henrique Costa e Daniel Vorcaro que demonstram, segundo a investigação, planejamento para encobrir as fraudes praticadas com a compra de créditos do Master pelo Banco de Brasília. No dia 17 de dezembro de 2024, o então presidente do BRB enviou a Vorcaro uma tabela com os maiores contratos analisados pelo BRB e apontou o caso de um um cliente com saldo de R$ 84.945,18. O executivo perguntou qual seria o salário dele, pois, para ter uma margem de consignável de 5% naquele valor, o cliente, como funcionário público, “teria que” ganhar R$ 1,6 milhão. “Esse tipo de informação atrapalha muito, porque ou a planilha está incorreta ou a regra de negócio usada é outra”, disse Paulo Henrique. E concluiu: “Veja como nós dois estamos tendo um retrabalho danado.” Vorcaro respondeu: “Puxa Vida”. Para a PF, o presidente do BRB identificava informações incompatíveis com “qualquer realidade econômica plausível” e, ainda assim, não suspendeu as operações nem mandou aprofundar as apurações. Segundo o relatório, Paulo Henrique “não manifesta qualquer preocupação quanto a possibilidade de fraude, apenas com ‘retrabalho, ou seja, com o atraso nas negociações’.”