Fernanda Montenegro reflete sobre memória, morte e ofício em documentário

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Logo no início do documentário que leva seu primeiro nome, Fernanda Montenegro faz um pedido ao diretor Pedro Waddington : narrá-la como se ela já não estivesse mais aqui. “Como já tenho essa idade, é como se já tivesse partido”, justifica a atriz, de 97 anos completados no último dia 16 de outubro

Logo no início do documentário que leva seu primeiro nome, Fernanda Montenegro faz um pedido ao diretor Pedro Waddington : narrá-la como se ela já não estivesse mais aqui. “Como já tenho essa idade, é como se já tivesse partido”, justifica a atriz, de 97 anos completados no último dia 16 de outubro Fernanda , o filme, é repleto de momentos como este: reflexões francas sobre o envelhecimento, morte e memória, por parte daquela que é uma das grandes damas da dramaturgia nacional. O longa estreou no Festival do Rio , no início do mês, foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo , que se encerra nesta quinta, 29, e chega ao streaming ainda este ano. Pedro, filho do diretor Andrucha Waddington, genro da atriz, acompanhou a atriz nos bastidores de seus dois últimos filmes – Vitória e Velhos Bandidos –, registrando de forma singular seu método de trabalho. A artista repete cenas, dá suas opiniões sobre o que foi filmado e, nos momentos de descanso, reflete sobre o seu ofício e sua vida. Em uma passagem tão tocante quanto engraçada, Montenegro tem uma conversa com Ary Fontoura, seu colega em Velhos Bandidos , filme dirigido por seu filho Claudio Torres. Eles começam falando dos amigos que já se foram, discutem a arte da atuação e opinam sobre relacionamentos. “Você pode t***** com todo mundo e não ter prazer na vida”, diz ela. 97 anos de Fernanda Montenegro: 10 frases marcantes da atriz Fernanda Montenegro: ‘Há uma hora em que a gente não tem mais futuro. Acho que só tenho o presente’ O Estadão assistiu ao filme no Festival do Rio, ao lado de uma plateia que se emocionou e, em vários momentos, divertiu-se vendo a atriz na tela. Sem agarrar-se a uma organização cronológica, o documentário opta por seguir o caminho das ponderações e lembranças de Fernanda sobre sua história, sua arte e seus amigos e companheiros de ofício, como Paulo Autran e Nelson Rodrigues – e também seu marido, Fernando Torres. As imagens filmadas por Pedro são intercaladas por uma narração de Fernanda Montenegro, em depoimento ao cineasta, e também por fotos e registros históricos de alguns de seus trabalhos no teatro, nos filmes e nas novelas. Há, ainda, cenas dos bastidores de Casa de Areia , filme dirigido por Andrucha em que a atriz contracena com a filha, Fernanda Torres, e também da grande leitura de A Cerimônia do Adeus , de Simone de Beauvoir, conduzida por ela no Parque do Ibirapuera, em 2024 . Ao longo do documentário, a artista reforça seu amor pelo teatro, que compara a um “casamento sólido”, e volta a dizer que Vitória e Velhos Bandidos devem ser seus últimos trabalhos de ficção nas telonas. “Eu quero voltar ao palco; cinema exige muita presença”, afirma ela, que em outra passagem define o cinema como algo de “vida e morte”. Ao apresentar o filme no Rio, Pedro Waddington exaltou a sabedoria de Montenegro e sua dedicação à profissão. “Ela tem um vigor. (...) É um exemplo de que ainda dá para continuar gostando disso aqui”, disse, arrancando risadas dos presentes.