Dívida externa avança 27,4% na gestão Lula, supera as reservas e Brasil deixa de ser credor externo líquido após 19 anos

Por Times Brasil — Mundo · Categoria: Internacional ·

Dívida externa chega a US$ 407,1 bilhões, supera as reservas de US$ 402 bilhões e faz o Brasil perder a posição de credor líquido. O post Dívida externa avança 27,4% na gestão Lula, supera as reservas e Brasil deixa de ser credor externo líquido após 19 anos apareceu primeiro em Times Brasil | CNBC.

Uma posição mantida por 19 anos chegou ao fim nas contas externas do País. A dívida externa brasileira alcançou US$ 407,1 bilhões, valor que supera as reservas internacionais de US$ 402 bilhões, já incluídos os créditos brasileiros no exterior. Com isso, a dívida externa líquida , que ficou negativa de 2007 a 2025 e colocava o Brasil como credor, passou a US$ 5,1 bilhões positivos no balanço de junho, o mais recente. O estoque bruto é o maior em 40 anos de estatísticas do Banco Central (BC) e reúne setor público, bancos e empresas. Por ora, o quadro não preocupa economistas nem agências de classificação de risco. Ainda assim, é acompanhado de perto, pois pode virar vulnerabilidade se o déficit em transações correntes seguir alto e houver saída relevante de dólares. Um episódio assim ocorreu no fim de 2024 , quando o estresse do mercado com a política fiscal levou o BC à maior intervenção da história do câmbio flutuante. Leia também: Presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, anuncia que deixará o cargo em fevereiro de 2027 Dívida externa sobe 27,4% e reservas, 15,8% Impulsionada por investidores que buscaram diversificação fora dos Estados Unidos, a dívida externa avançou 27,4% no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No mesmo período, as reservas subiram 15,8%, ritmo contido por intervenções do BC e pela valorização cambial. Para Elisa Machado, economista-chefe da KAT Investimentos, o descompasso indica que o País deveria aproveitar períodos de forte entrada de investimento direto e câmbio mais estável para recompor reservas. “Comprar na calma é mais barato”, afirma. Analistas consultados pela reportagem consideram improvável que a dívida externa líquida volte a superar US$ 70 bilhões, nível visto duas décadas atrás. Veem como plausível, no entanto, uma aproximação de US$ 30 bilhões nos próximos dois anos. Déficit em conta corrente reduz folga do investimento direto O déficit em transações correntes ficou mais alto nos últimos anos, mesmo com exportações ampliando a entrada de dólares e com a desaceleração da economia limitando saídas por importações e remessas de lucros. Pesam nessa conta gastos com serviços como streaming, investimentos em criptoativos e pagamentos a credores internacionais. Em 2025, saíram US$ 67,4 bilhões do País por transações correntes, mais que o dobro dos US$ 27 bilhões de 2023. Em contrapartida, o investimento estrangeiro direto ainda financia esse déficit sem consumir reservas, embora com folga menor. Naquele ano, o investimento direto superou o déficit em US$ 17,6 bilhões, bem abaixo da diferença de mais de US$ 38 bilhões registrada dois anos antes. Já em 2024, a folga foi inferior a US$ 9 bilhões. Economistas apontam perda de margem para absorver choques Felipe Tavares, economista-chefe da Monte Bravo, avalia que o Brasil não está exposto a uma crise clássica de balanço de pagamentos e que perdeu margem de manobra diante de choques mais persistentes. Segundo ele, acabou o argumento de “país credor líquido”, usado havia quase duas décadas com agências de rating e investidores estrangeiros. De acordo com Tavares, a perda dessa almofada reduz a capacidade de absorver choques prolongados sem repasse ao câmbio ou pressão sobre os prêmios de risco soberano. Por sua vez, Felipe Kotinda, economista do Santander, não vê motivo de preocupação agora, porque as reservas seguem elevadas e continuam entre os principais amortecedores da economia. Para ele, o alerta surgiria diante de alta persistente da dívida líquida acompanhada de queda de reservas, ampliação do déficit em conta corrente ou maior dependência de financiamento externo. “Em termos históricos, o País continua muito distante dos níveis de vulnerabilidade observados há duas décadas”, completa. Reservas cobrem mais de três vezes vencimentos de curto prazo Como a dívida externa líquida equivale a menos de 0,3% do PIB e as reservas cobrem mais de três vezes os vencimentos de curto prazo, as métricas externas ainda indicam um País protegido contra fuga de capitais. Essa avaliação pode mudar se a desaceleração do investimento direto, por incertezas fiscais ou regulatórias, abrir lacuna no financiamento externo. Fitch e Moody’s mantêm avaliação positiva das contas externas As agências seguem vendo as contas externas como ponto forte do crédito soberano. Descrevem o Brasil como economia com reservas elevadas, baixa exposição a dívida em moeda estrangeira e fluxos recorrentes de investimento externo. O risco principal, para elas, permanece no fiscal, já que o desequilíbrio das contas públicas pressiona os juros e eleva o custo da dívida do governo. Todd Martinez, diretor sênior da Fitch Ratings, diz que a agência não identificou mudança relevante na liquidez externa do País nem nas métricas de solvência. Ele lembra que o estresse do fim de 2024 mostra risco de deterioração desses indicadores. “O episódio ressalta a necessidade de um plano fiscal crível no próximo governo”, afirma. Além disso, Martinez observa que países de câmbio flutuante, como o Brasil, não precisam de reservas tão altas quanto economias de câmbio fixo ou administrado. Na visão dele, a forte liquidez externa reforça o arcabouço macroeconômico brasileiro. Já William Foster, vice-presidente sênior da Moody’s, afirma que a posição externa é hoje uma força. Ele cita a baixa dependência de dívida em moeda estrangeira, o câmbio flexível, o volume de ativos externos, a base exportadora diversificada e a persistência do investimento direto. Foster aponta ainda que juros altos por período prolongado e a credibilidade limitada da política fiscal reduziram a capacidade do governo de administrar o custo da dívida. A Moody’s cita a rigidez do Orçamento e a polarização política “profundamente enraizada” como entraves à consolidação fiscal. Atualmente, a Moody’s coloca o Brasil a um degrau do grau de investimento. Fitch e S&P Global mantêm o País a dois degraus. As três agências atribuem perspectiva estável ao rating soberano, sem sinal de mudança de nota nos próximos meses. Dívida privada responde por 73% do total Apesar da alta, 73% da dívida externa está no setor privado, formado por bancos e empresas, o que reduz o risco soberano direto. Em geral, essas companhias têm hedge natural, seja por exportações, seja por outras receitas em moeda estrangeira. Por sua vez, a fatia do setor público, próxima de um quarto do total, é formada em maior parte por títulos em reais negociados no mercado doméstico. Quando estão com não residentes, esses papéis entram nas estatísticas do BC como dívida externa. Já a dívida pública emitida em moeda estrangeira, que gera exposição cambial, soma R$ 348 bilhões e representa menos de 4% do estoque da dívida pública federal. Na avaliação da Fitch, o governo segue como credor externo líquido, pois as reservas superam com folga a dívida pública com o exterior. Segundo Martinez, essa posição é o principal diferencial do País frente a outras economias com a mesma nota. Tesouro quer elevar dívida em moeda estrangeira a 7% O Tesouro Nacional avalia como “bastante confortável” a cobertura da dívida externa e monitora o mercado para novas emissões no exterior. A captação fora do País integra a gestão da dívida, com foco em diversificar fontes e melhorar a combinação entre custo e risco, com exposição cambial limitada. A meta é elevar para 7% a participação da dívida em moeda estrangeira, hoje abaixo de 4% do estoque da dívida pública federal. De acordo com o Plano Anual de Financiamento (PAF), o avanço deve ser gradual e depender das condições de mercado. Por esse critério, a diferença entre reservas e dívida do setor público equivale a 6% do PIB, e o Tesouro classifica o governo como credor externo. Na comparação, no México as reservas excedem a dívida soberana em 1% do PIB, enquanto Colômbia, Uruguai e Chile têm mais dívida do que reservas. Juros dos Treasuries e corrida por IA encarecem captação Paralelamente, o Tesouro dá prioridade à continuidade das emissões de títulos de referência em dólar. O órgão planeja novas operações no mercado europeu para consolidar uma curva de referência em euro e acompanha as condições para a primeira emissão em yuan, já autorizada pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Por outro lado, a disputa por capital ocorre com juros mais altos nos Treasuries e corrida por investimentos em inteligência artificial (IA), que tem drenado dólares do mercado global. Para Elisa Machado, isso pode reduzir o apetite por títulos de emergentes. “O efeito mais provável é encarecer e encurtar o financiamento em carteira”, avalia. O post Dívida externa avança 27,4% na gestão Lula, supera as reservas e Brasil deixa de ser credor externo líquido após 19 anos apareceu primeiro em Times Brasil | CNBC .