Lucro da Ambev surpreende, mas não convence analistas; entenda o que preocupa em ABEV3
Lucro da Ambev veio acima do esperado no 3T26, mas analistas adotam tom cauteloso com ABEV3. Entenda quais pontos do balanço chamaram atenção e o que pode pesar à frente.
A XP e a Ativa Investimentos adotaram uma postura cautelosa em relação à Ambev (ABEV3) após o balanço do terceiro trimestre de 2026 (3T26) , diante de tendências operacionais fracas, pressão sobre as margens e um ambiente competitivo mais desafiador. Apesar do lucro líquido acima das expectativas, as duas casas projetam uma reação contida dos investidores aos resultados. A Ativa Investimentos reforçou a recomendação neutra para a companhia, enquanto a XP Investimentos avalia que o balanço deve ser recebido com ceticismo pelo mercado financeiro . Para a XP, os resultados ficaram significativamente abaixo do esperado em relação à operação da Ambev , apesar do crescimento na comparação anual, beneficiado por uma base comparativa favorável. A margem de lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização ( Ebitda ) atingiu 33,7%, recuo de 10 pontos-base na comparação anual, pressionada por despesas administrativas, de vendas e marketing . A receita líquida consolidada da Ambev obteve alta de 3,6% em 12 meses, segundo o analista Lucas Dias, da Ativa, ligeiramente abaixo das projeções. A margem bruta ficou em 51%, queda de 40 pontos-base em um ano e 110 pontos-base abaixo das estimativas, em um cenário misto entre geografias, com impactos de câmbio e commodities . Por outro lado, o lucro líquido surpreendeu positivamente , embora tenha recuado 10,2% em relação ao mesmo período do ano anterior. O resultado ficou 16,7% acima das projeções da Ativa e 15,4% acima das estimativas da XP, que avaliou que uma melhora de R$ 774 milhões no resultado financeiro, na comparação anual, contribuiu para o desempenho. Cerveja Brasil cresce só 0,5% e decepciona Na operação de Cerveja Brasil , o volume cresceu apenas 0,5% em um ano, abaixo da alta de 4% projetada pela XP, que classificou o desempenho como “uma decepção” diante da base comparativa favorável. Os analistas Leonardo Alencar, Leonardo Paiva e Arthur Devite acreditam que o posicionamento de preços da Ambev em relação aos concorrentes foi o principal fator para o resultado, considerando que os volumes da indústria avançaram 4% no 3T26. Embora a administração tenha destacado ganhos sequenciais de participação de mercado, a XP observa que os concorrentes parecem ter apresentado uma dinâmica saudável no período. A receita de Cerveja Brasil avançou 4,8%, para R$ 10,1 bilhões, com crescimento de 4,2% na receita operacional líquida por hectolitro. Entretanto, o custo dos produtos vendidos por hectolitro aumentou 4,5%, pressionado por commodities e pelo mix de produtos, enquanto as despesas com vendas, gerais e administrativas (SG&A) cresceram 7,7%. Com isso, a margem bruta ficou em 50,8%, queda de 10 pontos-base, e a margem Ebitda atingiu 34,9%, recuo de 20 pontos-base. Em bebidas não alcoólica s no Brasil, a XP identificou a principal surpresa positiva do trimestre, destacando a recuperação da participação de mercado perdida e o retorno a níveis históricos. O volume cresceu 3,6%, enquanto a receita avançou 6,3%, para R$ 2,2 bilhões, com aumento de 2,6% na receita por hectolitro. A margem bruta ficou em 44,3%, queda de 40 pontos-base, e a margem Ebitda atingiu 28,1%, recuo de 10 pontos-base, em meio ao aumento das despesas de distribuição. Nas operações internacionais , a XP avaliou que a América Latina Sul apresentou um trimestre forte, com reajustes robustos de preços, normalização das operações na Bolívia e um ambiente inflacionário mais benigno na Argentina. Na América Central e no Caribe, a companhia ainda enfrenta comparações difíceis após a desconsolidação de Cuba e o desinvestimento em Barbados. Já o Canadá permanece pressionado pelo consumo mais fraco. Por que o 4T26 preocupa mais que o último trimestre? Os American Depositary Receipts ( ADRs , recibos que permitem que investidores consigam comprar nos EUA ações de empresas não americanas) da Ambev caem 2,78% no pré-mercado da Bolsa de Nova York (NYSE) , mostrando a decepção dos investidores com os resultados do 3T26. Para a XP, a atenção dos investidores deve se voltar rapidamente para o quarto trimestre de 2026 (4T26) , já que a Ambev enfrentará um ambiente competitivo mais desafiador e não contará mais com as comparações favoráveis que sustentaram os resultados recentes. A corretora considera que o potencial de revisões negativas das expectativas pode ser parcialmente mitigado pelo programa de recompra anunciado pela companhia, mas mantém a expectativa de uma reação cautelosa do mercado financeiro.