Menopausa no SUS: atendimentos crescem, mas acesso à terapia hormonal segue limitado

Por Estadão · Categoria: Geral ·

A menopausa nunca esteve tão presente nas conversas, nas redes sociais e na mídia. O assunto ganhou visibilidade e passou a ocupar um espaço importante no debate sobre a saúde das mulheres . Mas, enquanto a discussão avança, a realidade de milhões de brasileiras que dependem do SUS ainda é marcada p

A menopausa nunca esteve tão presente nas conversas, nas redes sociais e na mídia. O assunto ganhou visibilidade e passou a ocupar um espaço importante no debate sobre a saúde das mulheres . Mas, enquanto a discussão avança, a realidade de milhões de brasileiras que dependem do SUS ainda é marcada por dificuldades de acesso a atendimento especializado e tratamentos adequados para os sintomas do climatério. Os números do Ministério da Saúde mostram que os atendimentos relacionados a essa fase da vida cresceram expressivamente, passando de 803 mil em 2023 para 2,2 milhões apenas nos primeiros oito meses de 2026. Mas esse avanço esconde uma lacuna importante: não sabemos quantas mulheres estão efetivamente recebendo tratamento. Em resposta a questionamentos desta coluna, o Ministério confirmou que os números representam atendimentos, não mulheres atendidas. Uma mesma paciente pode ter sido contabilizada diversas vezes. O Brasil tem aproximadamente 33,5 milhões de mulheres entre 40 e 64 anos, segundo o IBGE, faixa etária que abrange grande parte da transição menopausal e dos primeiros anos da pós-menopausa. Nem todas precisam de tratamento, mas a dimensão dessa população evidencia a importância de uma rede pública preparada para oferecer assistência adequada. E existe um problema adicional: o acesso à terapia hormonal, considerada o tratamento mais eficaz para ondas de calor e suores noturnos, ainda é limitado e desigual no SUS. Dependendo do município onde mora, uma mulher pode encontrar opções de tratamento que não estão disponíveis para outra. O que o SUS oferece hoje às mulheres na menopausa? Segundo o Ministério da Saúde, a porta de entrada para o atendimento é a Unidade Básica de Saúde (UBS). Mulheres com sintomas como ondas de calor, alterações do sono e do humor , ressecamento vaginal ou outros desconfortos relacionados à transição menopausal podem procurar a unidade para uma avaliação individualizada. O atendimento previsto inclui consultas médicas e de enfermagem, orientações sobre alimentação , atividade física , sono e sexualidade, além de avaliação da saúde cardiovascular, óssea e mental. Também contempla rastreamento dos cânceres de mama e colo do útero, conforme as recomendações vigentes. Nos casos considerados mais complexos, como sintomas persistentes, sangramentos anormais ou suspeita de menopausa precoce, a orientação é encaminhar a mulher para atendimento especializado. E a terapia hormonal? O que está disponível? É justamente na oferta de medicamentos que aparecem algumas das principais limitações da assistência. O Ministério da Saúde confirmou que o SUS disponibiliza estriol em creme vaginal, mediante avaliação clínica individual. O medicamento pode ser indicado para sintomas geniturinários da menopausa, como ressecamento vaginal e dor durante as relações sexuais. É um tratamento importante, mas com uma finalidade específica. O estriol vaginal não substitui a terapia hormonal sistêmica utilizada para tratar ondas de calor e suores noturnos. Em relação a outros tratamentos hormonais , o Ministério da Saúde informou que estrogênios combinados integram o Componente Básico da Assistência Farmacêutica e que Estados e municípios podem oferecer outros hormônios com recursos próprios. Na prática, isso significa que o acesso à terapia hormonal para a menopausa ainda depende, em parte, do município onde a mulher vive. Duas mulheres com sintomas semelhantes e a mesma indicação clínica podem encontrar opções diferentes de tratamento na rede pública, dependendo de onde moram. Portanto, não é correto afirmar que o SUS não oferece nenhum tratamento hormonal. O problema é que ainda não existe acesso amplo e uniforme às diferentes opções terapêuticas, incluindo formulações de estradiol e progesterona utilizadas no tratamento dos sintomas vasomotores. Estradiol e progesterona podem ser incorporados ao SUS Essa situação poderá começar a mudar nos próximos meses. A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) está avaliando a incorporação de estradiol e progesterona para mulheres a partir dos 40 anos, na transição menopausal ou na menopausa, com sintomas vasomotores moderados a intensos e indicação de terapia hormonal. A proposta contempla estradiol associado à progesterona para mulheres com útero e estradiol isolado para aquelas que não têm útero. Segundo o Ministério da Saúde, a previsão é de que a avaliação inicial aconteça na reunião ordinária da Conitec em novembro. Entre os dias 19 e 28 de outubro, a comissão abriu uma chamada pública para selecionar representantes que possam apresentar a perspectiva das pacientes durante a avaliação. A iniciativa permite que experiências de mulheres que convivem com os sintomas ou que já utilizaram os medicamentos sejam consideradas na discussão. A eventual recomendação favorável, porém, não significa que os medicamentos estarão imediatamente disponíveis nas farmácias do SUS. A incorporação depende de etapas adicionais, incluindo a decisão do Ministério e a organização da oferta na rede pública. Está com sintomas da menopausa? Saiba como buscar atendimento no SUS Se você está enfrentando ondas de calor, suores noturnos, insônia, alterações de humor, irregularidades menstruais ou desconfortos vaginais, pode procurar uma UBS de referência do seu bairro. Não é necessário esperar a menstruação parar definitivamente para solicitar atendimento. O primeiro passo é agendar uma consulta médica ou de enfermagem. Durante o atendimento, relate todos os sintomas, quando começaram e de que maneira interferem no seu dia a dia. Alterações do sono, dificuldades no trabalho e problemas na vida sexual também devem ser mencionados. A avaliação deve considerar seu histórico de saúde, fatores de risco e preferências. Em mulheres com 45 anos ou mais e sintomas típicos, geralmente não é necessário realizar exames hormonais para identificar a transição menopausal. Se houver indicação de tratamento medicamentoso, pergunte quais opções estão disponíveis na rede pública da sua cidade. O estriol vaginal pode ser oferecido para sintomas geniturinários, enquanto a disponibilidade de outros hormônios varia conforme o município. A equipe da farmácia da UBS pode informar quais medicamentos são fornecidos pela rede local. Quando houver necessidade de avaliação especializada, a própria unidade deverá orientar sobre o encaminhamento. O acompanhamento não precisa terminar na primeira consulta. Mulheres com sintomas persistentes ou que necessitem de ajustes no tratamento podem continuar sendo acompanhadas pela equipe de atenção primária. Mais atendimentos não significam necessariamente melhor assistência Em 2026, o Ministério da Saúde publicou novas orientações para o acompanhamento de mulheres no climatério. Segundo a pasta, mais de 10 mil profissionais receberam capacitação em saúde da mulher nos últimos dois anos, dos quais 3,6 mil participaram de uma formação específica sobre menopausa e pós-menopausa no primeiro semestre deste ano. Nesta terça-feira, 27, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou mais uma iniciativa. Durante visita à Unicamp, em Campinas, afirmou que pretende convidar especialistas do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism) para discutir a criação de um programa nacional voltado à transição menopausal. A proposta é melhorar o acesso a medicamentos e tratamentos na rede pública, além de ampliar a oferta de exames como a densitometria óssea, importante para o diagnóstico da osteoporose. Ainda não há prazo definido para a implantação do programa. São iniciativas relevantes para uma fase da vida feminina que, historicamente, recebeu pouca atenção das políticas públicas. Mas existe uma diferença importante entre reconhecer a menopausa como uma questão de saúde pública e assegurar que todas as mulheres tenham acesso a atendimento qualificado e tratamentos eficazes. Para as brasileiras que dependem exclusivamente do sistema público, o que realmente importa é conseguir chegar a uma unidade de saúde, ser ouvida, receber uma avaliação adequada e ter acesso ao tratamento indicado para seu caso. A menopausa não é uma doença, mas seus sintomas podem comprometer profundamente o sono, o trabalho, a saúde e a qualidade de vida. E não deveriam ser tratados como um desconforto inevitável que as mulheres precisam simplesmente suportar. Ampliar o acesso à terapia hormonal é parte desse desafio. Mas é igualmente necessário garantir informação, profissionais capacitados e acompanhamento contínuo. O município onde uma mulher mora não deveria determinar quais tratamentos ela pode receber. Garantir uma assistência adequada à menopausa exige mais do que aumentar o número de consultas ou anunciar novas iniciativas. Exige assegurar que as mulheres tenham acesso aos cuidados de que realmente precisam.