Faria Lima espera dois caminhos para Lula: um ruim e outro muito ruim
Executivos do mercado financeiro avaliam os caminhos para a economia no quarto mandato de Lula e os riscos para juros, emprego e investimentos.
Talvez, ao ler o título deste artigo, você tenha pensado que não está nem aí para o que a Faria Lima espera do quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) . Afinal, para muita gente, o mercado financeiro não passa de um grupo de especuladores preocupados em ganhar dinheiro. Mas quem compreende minimamente de macroeconomia sabe que a reação do mercado é um dos primeiros sinais do que pode acontecer com a economia real. Não porque investidores tenham uma bola de cristal, mas porque preços de ativos, juros e câmbio refletem expectativas sobre o futuro . E há uma verdade que costuma ser ignorada no debate político: o mercado não precisa gostar de Lula ou de Flávio Bolsonaro (PL) , derrotado nas eleições. Ele busca retorno, avalia riscos e direciona capital para onde encontra oportunidades. É assim em qualquer economia capitalista. Conversei com mais de 20 CEOs e executivos do setor financeiro para entender o que esperam dos próximos quatro anos. Não encontrei um único interlocutor verdadeiramente otimista. As avaliações se dividem entre aqueles que enxergam um cenário muito ruim e os que acreditam que o governo ainda pode evitar o pior. O problema não é ideológico, mas matemático. O Brasil chegou a julho de 2026 com uma dívida bruta equivalente a 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB) . Para 2027, o orçamento prevê R$ 2,83 trilhões em despesas primárias, das quais aproximadamente 90% são obrigatórias. Apenas cerca de R$ 143 bilhões, ou 5% do total, poderiam ser efetivamente cortados sem mudanças estruturais. Para dimensionar o tamanho da armadilha, cada R$ 1 de aumento do salário mínimo acrescenta aproximadamente R$ 413 milhões às despesas públicas, em razão de sua vinculação a aposentadorias e benefícios. Portanto, quando um presidente promete ampliar gastos sociais, elevar benefícios e criar novas despesas permanentes, precisa explicar de onde virá o dinheiro. Caso contrário, a promessa de hoje se transforma na dívida de amanhã. Os dois caminhos do novo governo Lula O primeiro cenário, considerado o mais preocupante , é o de um Lula que interprete a vitória eleitoral como autorização para ampliar gastos sem enfrentar o desequilíbrio fiscal. A eventual escolha de um ministro da Fazenda mais comprometido com convicções ideológicas do que com a sustentabilidade das contas públicas reforçaria essa percepção. Não se trata de exigir um ministro de direita, mas alguém capaz de reconhecer que a aritmética fiscal não muda conforme o partido no poder. O Brasil já convive com uma carga tributária próxima de 34% do PIB , o que torna cada vez mais difícil resolver o problema simplesmente cobrando mais impostos. A experiência histórica também é reveladora. Desde 2014, o governo central registrou superávit primário em apenas um ano. O ajuste mais expressivo das últimas décadas ocorreu em 1999, quando o resultado primário melhorou aproximadamente 3,2 pontos porcentuais do PIB, em circunstâncias excepcionais de crise cambial e apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI) . Agora, a necessidade de ajuste volta a se aproximar de dois a três pontos do PIB, mas sem aquelas condições. Se o próximo governo insistir em expandir despesas, o risco é de deterioração das expectativas, pressão sobre o dólar , inflação mais persistente e juros elevados por mais tempo. Isso encarece o crédito, compromete investimentos e reduz a capacidade de crescimento. Mesmo uma eventual ascensão do Brasil no ranking das maiores economias merece cautela. Ultrapassar países como Itália ou Rússia , caso as projeções se confirmem, não significará necessariamente que estamos enriquecendo. Rankings calculados em dólares também dependem do câmbio e do desempenho relativo dos demais países. A Itália enfrenta baixo crescimento e uma dívida pública elevada, enquanto a Rússia sofre os efeitos econômicos da guerra e das sanções internacionais. Subir porque outros perderam posições não é o mesmo que avançar por produtividade, competitividade e expansão sustentada da renda. O PIB brasileiro pode crescer entre 2% e 3% neste ano , mas o número isolado não conta toda a história. Quando parte relevante da expansão depende do impulso fiscal, sem correspondente avanço do investimento privado e da produtividade, a capacidade de sustentar esse ritmo fica comprometida. O segundo cenário é menos pessimista , embora esteja longe de representar uma perspectiva confortável. Parte dos executivos com quem conversei acredita que Lula poderá optar por um ministro da Fazenda de perfil mais pragmático, capaz de reconstruir algum diálogo com investidores, sinalizar contenção de despesas e rever promessas de campanha que não cabem no orçamento. Não seria necessariamente uma agenda de austeridade profunda, até porque mudanças em benefícios sociais e despesas obrigatórias exigiriam enfrentar resistências políticas e poderiam afetar a popularidade presidencial. Mas medidas concretas, ainda que graduais, poderiam reduzir parte da desconfiança. O desafio é que o tempo trabalha contra o governo. Estimativas apresentadas pela Kinea indicam que um ajuste de dois pontos porcentuais no resultado primário, combinado com uma redução de aproximadamente três pontos no custo da dívida, poderia estabilizar o endividamento próximo de 90% do PIB. Sem a queda dos juros, o mesmo esforço fiscal seria insuficiente. Em outras palavras, não basta anunciar responsabilidade fiscal . É preciso convencer investidores, empresários e consumidores de que ela será cumprida. Nesse ambiente, o Judiciário também terá papel decisivo. A crescente judicialização de questões econômicas, tributárias e regulatórias exige atenção porque segurança jurídica e previsibilidade institucional são condições essenciais para decisões de investimento de longo prazo. Nenhum empresário compromete capital por cinco ou dez anos sem considerar o risco de mudanças nas regras. A diferença entre os dois cenários, portanto, não está na preferência política dos investidores, mas na capacidade do governo de oferecer sinais concretos de disciplina fiscal, estabilidade institucional e respeito aos contratos . Quem paga a conta da queda de confiança na economia? E existe uma dimensão dessa discussão que considero ainda mais importante: quem realmente paga a conta quando a economia perde a confiança? Certamente não é o grande investidor, que dispõe de patrimônio , diversificação internacional e alternativas de renda fixa capazes de oferecer retornos elevados em um ambiente de juros altos. Seus filhos continuarão estudando em boas escolas, sua família continuará contando com assistência médica privada e seu padrão de vida dificilmente sofrerá o mesmo impacto de quem depende exclusivamente do salário. Quem mais perde é o trabalhador , especialmente o de menor renda. Nesta semana, visitei uma empresa cujo CEO me recebeu com uma advertência: o clima estava pesado porque, no dia anterior, a companhia havia desligado 25% dos colaboradores. Não ouvi essa história de terceiros. Estive lá e escutei diretamente do executivo que a decisão buscava preparar a operação para um ambiente econômico que ele considera mais difícil nos próximos quatro anos. Evidentemente, uma decisão empresarial isolada não comprova o comportamento de toda a economia, mas revela como a deterioração das expectativas pode antecipar consequências concretas. Antes de uma crise aparecer nas estatísticas, ela pode surgir no congelamento de uma contratação, no cancelamento de uma fábrica ou na demissão de um funcionário. Empresários não precisam ser petistas, bolsonaristas ou simpatizantes de qualquer partido para investir. Precisam acreditar que haverá demanda, retorno e condições para crescer. Quando essa confiança desaparece, o investimento recua, o emprego sofre e a renda das famílias fica pressionada. É por isso que a discussão sobre o que a Faria Lima espera de Lula não deveria interessar apenas aos investidores. Deveria interessar principalmente a quem depende de uma economia forte para trabalhar, empreender e melhorar de vida. Depois de ouvir mais de 20 executivos, minha conclusão é que o mercado financeiro enxerga dois caminhos para o próximo governo: um ruim e outro muito ruim. A escolha entre eles não será determinada pelo discurso político, mas pelas decisões econômicas tomadas a partir de janeiro. E, se o pior se confirmar, a conta mais pesada não chegará à Faria Lima. Chegará à mesa de quem menos pode pagar.