Investimento exponencial em IA preocupa eleitor que pode frear Trump em eleição de meio de mandato
ENVIADO ESPECIAL A NEW ALBANY, OHIO -A paisagem muda completamente no trajeto entre a cidade de Columbus, capital de Ohio , e New Albany, que se tornou a “capital” dos datacenters no Estado . Enormes instalações podem ser vistas de todos os ângulos possíveis, dando a impressão de que os servidores d
ENVIADO ESPECIAL A NEW ALBANY, OHIO -A paisagem muda completamente no trajeto entre a cidade de Columbus, capital de Ohio , e New Albany, que se tornou a “capital” dos datacenters no Estado . Enormes instalações podem ser vistas de todos os ângulos possíveis, dando a impressão de que os servidores de empresas como Amazon e Google vão acompanhar o caminho até o horizonte. New Albany é uma cidade de 11 mil habitantes e mais de 40 datacenters. A previsão é de que pelo menos outros 28 sejam inaugurados no próximo ano. O local passou a receber data centers em 2010, mas a realidade desta pequena cidade rural mudou na última década com a instalação de servidores de hiperescala, que ocupam mais espaço, consomem mais energia e são barulhentos. Os impactos em New Albany e ao redor do Estado deram início a um movimento contrário aos datacenters . Os protestos produziram um resultado raro: a união entre alguns democratas e republicanos. Darcie Odum, uma artista plástica que mora em Columbus, é democrata e ativista da ONG Conserve Ohio, que busca banir a construção de data centers que consumam mais de 25 megawatts (MW) de energia por mês. Já o chefe de cozinha Brandyn Bernard é republicano e morador de Pataskala, município vizinho a New Albany que também foi impactado pela instalação de data centers. “Pataskala é uma cidade pequena, com plantações de milho e várias fazendas”, aponta Bernard. “As empresas de tecnologia compraram as casas dos moradores e derrubaram todas as plantações com tratores até não sobrar nada. A rotina da cidade foi afetada”. A insatisfação dos moradores em relação a essas construções deve impactar o resultado das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos . Líderes republicanos favoráveis à construção de datacenters tiveram que mudar de postura. O mesmo aconteceu com políticos democratas. “O presidente Trump adora datacenters. Eu me arrependo de ter votado nele”, pontua Bernard. “ Empresas como Meta, Microsoft, Amazon e Google têm vínculos com o Partido Republicano , e Trump permite que elas façam o que quiserem ”. Tour pelos datacenters A reportagem do Estadão entrou em um jipe com Darcie Odum, do Conserve Ohio, para realizar um tour por New Albany. As empresas mais importantes do setor de tecnologia possuem instalações no local e alguns data centers são cercados por barreiras acústicas que foram colocadas recentemente, em meio a reclamações de poluição sonora. Poucas casas permanecem na região, que parece ter sido praticamente engolida por datacenters. “Eu sabia que tinham muitas instalações aqui, mas não imaginei que seria tanto”, admite Darcie, que nunca havia visitado essa parte do Estado. Durante uma parada para registrar fotos e vídeos, um segurança do Google pediu que a reportagem fosse embora e ameaçou chamar a polícia. “É tudo muito misterioso. Ninguém perguntou aos moradores da comunidade se eles queriam essas enormes instalações aqui”, disse a ativista do Conserve Ohio. A entidade deseja aprovar uma emenda constitucional em Ohio com o intuito de proibir a construção de novos datacenters com consumo superior a 25 megawatts (MW) por mês. Eles precisam de 430 mil assinaturas para que a emenda entre na cédula de votação. De acordo com com o Conserve Ohio, eles já conseguiram mais de 130 mil. A organização acredita na importância de votar essa questão por conta da quantidade de data centers em funcionamento no Estado. De acordo com dados do governo de Ohio, mais de 200 datacenters estão em operação. A maioria deles está na região central de Ohio, em cidades próximas a Columbus. O condado de Licking, que abriga os municípios de New Albany e Pataskala, foi um dos mais afetados pela política pró-datacenter. A área é considerada bem republicana e Donald Trump venceu as eleições presidenciais no condado com 64% dos votos, mas os habitantes não estão felizes. “Fiquei irritado porque queriam construir um data center a três quilômetros da minha casa”, diz Bernard. “Eu moro em Pataskala e escuto o barulho dessas instalações que estão em New Albany. Essa região costumava ser tranquila”. Questionamentos sobre o prejuízo A população tem uma lista enorme de questionamentos em relação a essas instalações. Os incentivos fiscais dados por governos estaduais a empresas de tecnologia incomodam, assim como o aumento nas contas de energia, os impactos ambientais, a poluição sonora e o consumo excessivo de água . A insatisfação aumentou com o avanço da construção de datacenters de hiperescala, voltados para a inteligência artificial generativa. Essas instalações são maiores, demandam mais energia por conta dos milhares de aceleradores computacionais e funcionam 24 horas por dia. Os moradores de Ohio reclamam que os consumidores estão pagando a conta e não as empresas de tecnologia. “Esses data centers de hiperescala consomem quantidades enormes de água e energia, e seu uso para a IA generativa traz implicações preocupantes”, avalia Becca Pollard, diretora executiva do Buckeye Environmental Network, ONG que atua na luta por justiça ambiental no Estado. Para a ativista, a questão se tornou bipartidária, mas afeta mais os eleitores republicanos, já que os maiores data centers estão em zonas rurais, cujos moradores tendem a votar em candidatos mais conservadores. “É um problema bipartidário que lança luz sobre a relação de políticos com as grandes empresas de tecnologia”, explica Becca. De acordo com ela, a população de Ohio não teve tempo de avaliar os benefícios da construção de datacenters no Estado. “É tudo muito rápido. As comunidades só descobrem os detalhes quando o projeto já está acertado e não têm tempo de pensar sobre os impactos negativos dessas instalações.” Além disso, a diretora-executiva do Buckeye Environmental Network aponta que o número de trabalhos permanentes em cidades rurais é pequeno, principalmente porque data centers requerem uma expertise especifica, ligada á tecnologia. “Empregos temporários no setor da construção estão sendo criados, mas ,a longo prazo, pouca gente que vive nessas zonas rurais vai trabalhar nos data centers”. A instalação de data centers também é um problema na Pensilvânia . De acordo com Stacey Palmer, líder do Partido Republicano no condado de Butler, a construção destes servidores prejudica zonas agrícolas. “Uma vez que os data centers destroem belas áreas agrícolas, essa zona nunca mais vai voltar a ser agrícola”, lamenta a republicana. “Sou contra a presença dessas instalações em locais assim e as pessoas não deveriam ter que pagar contas de luz mais altas só por conta destes data centers”. De acordo com uma pesquisa do Pew Research Center divulgada em setembro, os americanos estão mais preocupados com os impactos ambientais e econômicos dos data centers desde o início do ano. 54% dos americanos afirmam que os data centers são, em grande parte, prejudiciais ao meio ambiente — um aumento em relação aos 39% registrados em janeiro. Além disso, 50% dos americanos estão preocupados com o aumento nas contas de luz, ante 38% em janeiro. Eleições de meio de mandato Políticos democratas e republicanos já mudaram suas posições desde que a insatisfação com os data centers começou. Em maio, o governador republicano de Ohio, Mike DeWine, suspendeu novos pedidos de isenção fiscal para as instalações e reforçou a necessidade de negociações entre as empresas de tecnologia e as comunidades onde os data centers seriam instalados. Na Pensilvânia, o governador democrata Josh Shapiro chegou a celebrar o investimento da Amazon no Estado, mas em agosto ele reforçou os requisitos para que as companhias tenham benefícios fiscais, com exigências relacionadas a licenciamento ambiental, transparência, consultas com as comunidades envolvidas e custos de energia. A situação tem prejudicado mais os republicanos nas eleições de meio de mandato, por conta do apoio explícito de Donald Trump à construção de data centers. O presidente americano chegou a acusar a China de financiar protestos contra as instalações, o que foi negado por ativistas. Expansão da construção civil Apesar da oposição crescente à construção de datacenters, existem setores que celebram a instalação de servidores em locais como Ohio. É o caso de Dorsey Hager, secretário-executivo do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil da região central de Ohio. Hager é filiado ao Partido Democrata , mas destaca os benefícios da construção dos data centers para os trabalhadores do setor que ele representa. “60% dos trabalhos de construção vêm de data centers. Esses locais são seguros, estão entre os melhores lugares para se trabalhar, com boa remuneração e incentivos”. De acordo com ele, os datacenters estão sendo injustamente culpados pelo aumento das contas de luz. “A região central de Ohio está crescendo muito em termos de população e empresas. As pessoas precisam entender que essa região vai crescer, as contas vão ficar mais caras e a paisagem vai mudar de qualquer jeito.” Na Pensilvânia, empresárias como Audrey Russo, do Pittsburgh Technology Council, uma associação comercial que estimula o investimento em tecnologia no sudoeste da Pensilvânia, destacam que a instalação de data centers pode contribuir para o renascimento de áreas que foram impactadas pelo declínio industrial. “Em Ohio, eles fizeram data centers em áreas rurais e pagaram para que pessoas saíssem de suas casas. Aqui na região de Pittsburgh, a ideia é fazer data centers em lugares que viraram fantasmas e não têm ninguém”, explica Audrey. Ela cita locais como Homer City, uma localidade de mil pessoas que fechou um acordo com a Amazon, para que uma antiga usina de carvão se transformasse em um datacenter. “Essas comunidades não têm escolas e policiamento adequado. O volume de receita dos data centers vai transformar esses lugares”, aponta Audrey. “Não quero que a região perca a oportunidade de beneficiar comunidades que foram deixadas para trás”.