'Brasil não quebra com Lula, mas fica condenado a um crescimento medíocre', diz ex-banqueiro conselheiro da Natura
Fábio Coletti Barbosa se diz a favor das políticas sociais do governo, mas vê a necessidade de um 'pente-fino' para identificar quem recebe os benefícios indevidamente.
O administrador Fábio Coletti Barbosa, 72 anos, tem passado os últimos dias ouvindo Marisa Monte e Maria Bethânia. Ele também vem assistindo à comédia Seinfeld , série americana dos anos 90 que traz personagens egoístas, céticos, mesquinhos, que nunca aprendem uma lição de moral ao final dos episódios. "Estou tentando digerir os últimos acontecimentos", brinca o presidente do conselho da multinacional brasileira Natura, a respeito do atual momento político. Como executivo que fez carreira no setor financeiro, ocupando a presidência do Santander Brasil e da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Barbosa é pragmático. "Ok, o resultado é esse. E o que nós podemos fazer para ajudar a construir o país que sonhamos? Quem são os interlocutores que vamos buscar para conversar sobre as melhores políticas a serem adotadas para que o Brasil possa ser aquilo que a gente deseja? [A eleição] é página virada", diz ele, que também é membro do conselho de outras grandes empresas, como Ambev e Votorantim. Sem declarar o voto, mas identificando-se com o espectro político do centro — nas eleições de 2022 apoiou Simone Tebet (PSB-SP) —, Barbosa afirma que a equipe de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) havia sinalizado um corte de gastos para corrigir o desequilíbrio fiscal, que leva a uma alta taxa de juros, "ruim para a população em geral". "Já o presidente Lula só agora, depois de eleito , falou de responsabilidade fiscal por meio do José Guimarães [ministro das Relações Institucionais, que declarou que a responsabilidade fiscal e o compromisso social caminham como prioridade no governo]." Barbosa é crítico da política de aumento de gastos públicos para fomentar a economia. "Se fosse verdade que gastos públicos maiores são bons para mitigar a pobreza, não haveria pobres no Haiti, no Congo e na Índia", diz ele, chamando a atenção para a necessidade de aumentar a produção e não apenas distribuir renda. "O que acontece se todo mundo tiver dinheiro para a picanha, mas a produção da picanha não aumentar? O preço vai subir. E, para controlar a inflação, o Banco Central eleva a taxa de juros. Tanto a taxa de juros mais alta, que encarece o crédito, quanto a inflação mais alta são ruins para as pessoas de menor poder aquisitivo", diz. O ex-banqueiro se diz a favor das políticas sociais do governo, mas vê a necessidade de um "pente-fino" para identificar quem recebe os benefícios indevidamente. "A esquerda não tem o monopólio do bem-estar social do país. As pessoas que argumentam por um equilíbrio fiscal também buscam o bem-estar social", diz. Na opinião do executivo, o ano de 2027 será muito difícil do ponto de vista econômico, porque o atual modelo defendido pelo governo Lula já não se sustenta. Mas não vê um cenário catastrófico. "O Brasil não quebra. O país tem hoje as contas externas em ordem, uma inflação sob controle, o Banco Central independente, uma produção de petróleo importante, uma agricultura pujante, energia abundante, uma produção de metais robusta. O presidente Lula tem aberto muitos mercados", diz. "Mas o Brasil fica condenado a um crescimento medíocre, em função de juros elevados, de uma necessidade muito grande de financiamento." BBC News Brasil - Como o senhor analisa o atual momento político e seus reflexos para a economia do país? Fábio Coletti Barbosa - Em todo o mercado, havia um posicionamento para a possível eleição de cada um dos dois candidatos. Numa vitória de Flávio Bolsonaro, havia a preocupação com os impactos na questão ambiental, além das dúvidas em torno das suas propostas de governo. Mas, na economia, ele demonstrava vontade de endereçar a questão fiscal. No caso do presidente Lula, não houve nenhum compromisso assumido em relação à questão fiscal; só agora isso tem sido tratado pelo José Guimarães [ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais]. Pelo contrário, o que houve até então foi um aumento dos compromissos futuros em função da série de benefícios anunciados. O mercado olha muito a questão do ajuste fiscal e das contas públicas. Isso não significa falta de sensibilidade social, mas sim um questionamento óbvio: 'Como a gente pode dar conta de tantos compromissos assumidos?'. A equipe do Flávio Bolsonaro dizia que iria endereçar esse desequilíbrio fiscal, que no fim leva a uma alta taxa de juros, o que é ruim para a população em geral. O presidente Lula nunca fez um compromisso nessa direção. Quando ele venceu, veio a reação do mercado, de que os gastos iriam continuar, levando à manutenção dos juros elevados, o que é ruim para a economia e para o mercado de ações. BBC News Brasil - Na seara econômica, o que deveria ser a prioridade do novo governo? Barbosa - Eu gosto da frase do Jean-Claude Juncker, ex-primeiro-ministro de Luxemburgo e ex-presidente da Comissão Europeia: "Todos sabemos o que fazer; só não sabemos como ser reeleitos depois de fazê-lo". Obviamente, um candidato a presidente dificilmente consegue ser eleito dizendo que vai fazer cortes em despesas, seja no Brasil ou em qualquer lugar do mundo. Talvez a exceção tenha sido o Javier Milei, porque na Argentina a situação era tão crítica que a população estava preparada para isso. Mas não é o caso no Brasil. A situação aqui é dolorida, é ruim, mas não representa um momento de ruptura. Não haveria espaço para esse tipo de discurso. BBC News Brasil - Na sua opinião, como ajustar as contas públicas? Barbosa - Com uma reforma administrativa, com o corte de penduricalhos [no poder judiciário], com um pente-fino nos benefícios sociais, que muitas vezes chegam a pessoas que não são o alvo do governo. Nós sabemos muito bem disso: pessoas, por exemplo, que trabalham sem registro para continuar recebendo os benefícios, ou um casal que se separa para cada um receber o benefício. Enfim, têm havido abusos. A equipe econômica que assistia Flávio Bolsonaro tinha isso em mente, o que é muito mais típico de um governo de orientação econômica de direita. A orientação econômica de esquerda sempre vê o aumento de gastos em favor de benefícios sociais, mas eles não têm o monopólio em querer o bem-estar social do país. As pessoas que argumentam por um equilíbrio fiscal também buscam o bem-estar social. Gladstone Campos Barbosa projeta que o ano de 2027 será muito difícil do ponto de vista econômico BBC News Brasil - Como é possível conciliar uma orientação de direita e a busca pelo bem-estar social? Barbosa - Se fosse verdade que gastos públicos maiores são bons para mitigar a pobreza não haveria pobres no Haiti, no Congo e na Índia. Tudo já teria sido resolvido com um incremento nos gastos. Mas, infelizmente, a solução não é tão fácil assim. Quando se coloca dinheiro na economia sem que haja investimentos, chega-se a um processo inflacionário. Ou seja, a sociedade tem mais dinheiro, mas a produção não cresceu. O que acontece se todo mundo tiver dinheiro para a picanha, mas a produção de picanha não aumentar? O preço vai subir. E para controlar a inflação, o Banco Central eleva a taxa de juros. Tanto a taxa de juros mais alta, que encarece o crédito, quanto a inflação mais alta são ruins para as pessoas de menor poder aquisitivo. É necessário que você tenha uma política mais contida de gastos, que leve a uma inflação mais baixa, a uma taxa de juros menor, que gere crescimento, que traga melhores oportunidades para todos. O governo pode e deve estar sempre atento à questão da igualdade de oportunidades, especialmente em relação à educação e ao saneamento básico. Mas apenas injetar mais dinheiro na economia gera inflação, porque não existe como aumentar a produção de uma hora pra outra. BBC News Brasil - O senhor é a favor ou contra as políticas sociais? Barbosa - Sou a favor de um pente-fino para corrigir distorções. O Marcos Mendes [economista e pesquisador do Insper] fez um estudo fantástico sobre como otimizar os benefícios sociais, evitando brechas para que pessoas que não são alvo dos programas sejam contempladas. Ele também comenta que o valor do Bolsa Família poderia ser ajustado a diferentes necessidades, em vez de adotar um valor único. Acho que hoje ninguém mais é contra a renda mínima. A questão é como estimular as pessoas a saírem da renda mínima. Hoje, por exemplo, em várias regiões do país, muitos funcionários preferem não ser registrados para que possam receber Bolsa Família ou seguro-desemprego. BBC News Brasil - Na sua opinião, a reforma tributária feita no governo Lula foi suficiente? Barbosa - Foi um avanço, mas não o suficiente. Tem algumas arestas a serem aparadas. De fato, vai gerar um desconforto em um primeiro momento, mas pelo menos trouxe alguma simplificação. Ela vai no caminho certo. Falta definir a alíquota, falta entender como vai funcionar o split payment [sistema que separa e recolhe o imposto de forma automática no exato momento da transação de compra e venda] e qual será o risco de um fornecedor estar ou não pagando o seu imposto devidamente. Esse risco acaba sendo transferido em parte para a empresa compradora. Mas existem também outras reformas a serem estudadas, como a do imposto de renda. O principal ponto é que hoje a carga tributária no Brasil está muito pesada e complexa. Muitos benefícios fiscais elevam a taxação. BBC News Brasil - O senhor se refere a incentivos fiscais para o setor privado? Barbosa - Sem dúvida nenhuma. Incentivos ou exceções que acabam criando uma distorção no quadro geral. Quanto mais exceções você cria, mais sobrecarrega aqueles que não foram contemplados. BBC News Brasil - Recentemente, o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, criticou a isenção de imposto de renda sobre títulos de renda fixa como LCI, LCA, CRI, CRA e debêntures incentivadas. Essa isenção gera perdas para o governo estimadas em R$ 57 bilhões ao ano (considerando R$ 33 bilhões de renúncia fiscal e R$ 24 bilhões pelo encarecimento de taxas para bancar a concorrência dos títulos públicos com os papéis isentos). Qual a sua opinião a respeito? Barbosa - Eu acho que toda a questão do imposto de renda precisa ser revisitada, é uma reforma que ainda não foi feita. Esses títulos são um incentivo para o setor imobiliário e para a agricultura e acabam beneficiando os investidores, que obviamente não são pessoas que deveriam ser contempladas como exceção. Eu endosso o que o André Esteves falou, acho que ele tem razão. Mas essa questão deve ser tratada dentro da reforma global do imposto de renda. BBC News Brasil - Voltando às eleições, como candidato à presidência, o senador Flávio Bolsonaro defendia temas controversos, como redução da maioridade penal para 14 anos, fim das cotas raciais e a revisão do fim da escala 6x1. Como o senhor analisa essas questões? Barbosa - A pauta de comportamento tem que ser discutida no Congresso. Até acho que o poder executivo precisa ficar mais calmo em relação a isso. Porque quem define as leis no país é o legislativo. Mas, para ser objetivo, o país tem, sim, um problema de desigualdade de oportunidades que precisa ser endereçado, em especial por meio da educação, mas também via crescimento econômico, que dará mais oportunidades de renda para as pessoas. E o crescimento econômico depende de estabilidade na inflação, de juros baixos e segurança jurídica. Quero ver o governo trabalhando nessas três coisas. Hoje os juros estão elevados e a população está endividada, então as mesmas políticas do passado não surtem os mesmos efeitos. Não é aumentando o gasto público que a economia vai se mover. Isso realmente precisa mudar. Hoje existem bons nomes sendo ventilados que podem dar uma melhor perspectiva para a economia. BBC News Brasil - Muitos empresários criticaram as bets por comprometerem parte da renda dos trabalhadores, que seria destinada ao consumo, além de aumentarem o endividamento da população. Barbosa - O fim das bets foi uma boa medida, independentemente de ter sido oportunista ou não, porque de fato as pessoas vinham direcionando recursos às bets. Mas eu quero chamar a atenção para o fato de que o endividamento também é fruto de uma política monetária que eleva a taxa de juros, que reduz o poder aquisitivo das pessoas. A gente precisa combater as razões que levam os juros no Brasil a serem elevados. BBC News Brasil - Na sua avaliação, quais foram os avanços e retrocessos do terceiro mandato do presidente Lula? Barbosa - O governo foi eleito com o apoio de uma frente ampla, com nomes como Simone Tebet [PSB-SP] e outros que buscavam a terceira via, como eu mesmo na ocasião. Mas acho que governou sem abrir muito o diálogo com a sociedade que defende o centro, que pensa em uma economia mais aberta. Acho que pecou por isso. Nos últimos meses, ele tentou essa aproximação, mas podia ter feito isso antes. Em segundo lugar, houve o descuido com a dívida pública, que passou de 72% para 82% do PIB [Produto Interno Bruto]. Eu entendo que o sucesso desse caminho tem vida curta, justamente por levar ou à inflação ou à alta da taxa de juros, o que corrói o benefício buscado originalmente. O melhor é o equilíbrio fiscal como forma de dar uma condição social melhor para todos. Eu costumo dizer que a economia brasileira não andou para trás, ela ficou para trás. A prova de que o governo Lula não teve um grande sucesso nesses quatro anos foi a dificuldade em vencer um oponente que contava com enorme rejeição por parte da sociedade. O fato de ele ter se isolado, de ter estimulado o 'nós contra eles', de ter apostado em dívida pública, foram problemas sérios durante o seu governo. Mas é óbvio que temos que reconhecer que o presidente Lula está sempre conectado com pautas sociais. Só acho que ele poderia ter se mostrado aberto a ouvir outras considerações para endereçar melhor essas questões. O resultado é que o Brasil tem um crescimento medíocre, que gera um custo social muito grande. Isaac Fontana/EPA/Shutterstock Reforma tributária feita no governo Lula foi um avanço, 'mas não o suficiente', diz Barbosa BBC News Brasil - É verdade que o setor financeiro, representado pela Faria Lima [centro financeiro e corporativo na zona oeste de São Paulo], acredita que o próximo governo Lula vai quebrar o Brasil? Barbosa - O Brasil não quebra, mas fica condenado a um crescimento medíocre, em função de juros elevados, de uma necessidade muito grande de financiamento. É lógico que o Brasil tem coisas muito boas, algumas delas atribuíveis à administração do PT: uma produção de petróleo importante; uma agricultura pujante; energia abundante; uma produção de metais robusta. O presidente Lula tem aberto muitos mercados, exporta para muitos países. O país tem hoje as contas externas em ordem, uma inflação sob controle, o Banco Central independente. O Brasil não vai quebrar. Mas vamos ter um ano difícil em 2027, com certeza, porque a economia está perdendo fôlego para manter o crescimento ainda medíocre que vinha tendo. BBC News Brasil - O quanto uma sociedade menos desigual beneficia os negócios, na sua opinião? Barbosa - Participei recentemente de uma discussão muito boa a respeito disso com o Michael França [economista e coordenador do Núcleo de Estudos Raciais do Insper, que acaba de lançar o livro Os Custos das Desigualdades , em parceria com o também economista Daniel Duque]. Uma sociedade desigual, com pessoas que não tiveram acesso a uma educação que lhes permita melhores condições de produtividade, tem um custo econômico para o país. Existe um custo moral óbvio mas, do ponto de vista estritamente econômico, é muito caro carregar essa desigualdade. O mercado consumidor brasileiro poderia ser de 210 milhões de pessoas, mas tem a metade disso. BBC News Brasil - No mês passado, o documentarista e produtor da revista Piauí João Moreira Salles citou o senhor em um artigo, que falava sobre empresários que sabiam do perfil reacionário da família Bolsonaro e ainda assim participaram de um jantar com Flávio Bolsonaro. Qual foi a impressão que o ex-candidato do PL à presidência lhe deixou? Barbosa - Eu, democraticamente, já ouvi todo mundo, candidatos de direita e esquerda. Não tem problema nenhum em ouvir todos os lados. Mas eu aprendi que, nesse tipo de conversa, os anfitriões se comportam de maneira a agradar com quem estão interagindo. São políticos capazes de cativar a audiência. Hoje penso que o assunto Flávio Bolsonaro seja página virada. Na última segunda-feira de manhã [dia 26, após as eleições], acordei, conversei com alguns amigos e disse: "Ok, o resultado é esse, o que nós podemos fazer para ajudar a construir o país que sonhamos? Quem são os interlocutores que vamos buscar para conversar sobre as melhores políticas a serem adotadas para que o Brasil possa ser aquilo que a gente deseja?". É página virada. Como Jean-Paul Sartre [filósofo francês] dizia: "O importante não é o que fazem de nós, mas o que nós fazemos daquilo que fazem de nós". Eu não olho para trás, eu só olho para frente. O que Lula propõe para enfrentar os sinais preocupantes da economia no 4º mandato Ian Bremmer: 'Se Lula não agir rápido na economia, o mercado vai castigá-lo duramente' O que vai acontecer com dólar e juros após derrocada dos mercados financeiros com vitória de Lula