AVC não tem idade: como reconhecer os sinais e agir sem perder tempo

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Há doenças em que podemos esperar algumas horas para observar a evolução de um sintoma. O acidente vascular cerebral (AVC) não é uma delas. Quando uma pessoa apresenta subitamente dificuldade para falar, perda de força em um lado do corpo ou assimetria no rosto, o relógio começa a correr contra o cé

Há doenças em que podemos esperar algumas horas para observar a evolução de um sintoma. O acidente vascular cerebral (AVC) não é uma delas. Quando uma pessoa apresenta subitamente dificuldade para falar, perda de força em um lado do corpo ou assimetria no rosto, o relógio começa a correr contra o cérebro . E os números brasileiros mostram por que precisamos falar mais sobre isso. Dados do Sistema Único de Saúde ( SUS ) divulgados neste mês mostram que, somente nos primeiros sete meses de 2026, foram registradas 50.424 mortes e 182.253 internações por AVC na rede pública brasileira. Estamos falando de aproximadamente 238 mortes e 860 internações por dia. São números que deveriam chamar a atenção de todos, e não apenas de médicos, gestores públicos ou de quem já convive com alguma doença cardiovascular. No mundo, a dimensão também impressiona. A World Stroke Organization (WSO) estima que mais de 12 milhões de pessoas sofram um AVC a cada ano. Cerca de 6,5 milhões morrem em decorrência da doença. E existe um número que costumo destacar porque ajuda a dimensionar o risco: uma em cada quatro pessoas com mais de 25 anos terá um AVC ao longo da vida. AVC não é uma doença exclusiva da velhice É justamente por isso que precisamos abandonar uma ideia ainda bastante comum: AVC não é uma doença exclusiva da velhice . É evidente que o risco aumenta com a idade. Entretanto, a Sociedade Brasileira de AVC informa que aproximadamente 10% dos casos ocorrem em pessoas com menos de 55 anos. Globalmente, a WSO aponta que mais de 60% dos AVCs acontecem antes dos 70 anos e 16% antes dos 50. Isso significa que o paciente com AVC pode ser aquele senhor de 80 anos que todos imediatamente reconhecem como alguém de risco, mas também uma mulher de 45, um homem de 38 ou uma pessoa que ainda está em plena atividade profissional e familiar. O cérebro não pede carteira de identidade antes de sofrer um AVC. Tempo é cérebro Existem dois grandes tipos de AVC. O isquêmico, responsável por aproximadamente 85% dos casos, acontece quando há obstrução de um vaso sanguíneo, impedindo que determinada região cerebral receba adequadamente sangue e oxigênio. Já o AVC hemorrágico ocorre quando um vaso se rompe e há sangramento cerebral. Nos dois casos, estamos diante de uma emergência. No AVC isquêmico, dependendo das características do paciente e do tempo transcorrido desde o início dos sintomas, existem tratamentos capazes de restabelecer o fluxo sanguíneo. Entre eles estão os medicamentos trombolíticos, utilizados em pacientes elegíveis para dissolver o coágulo, além da trombectomia mecânica em situações selecionadas. Mas nenhum avanço da medicina consegue devolver os minutos que foram perdidos em casa esperando para ver se a boca volta ao normal ou se a fala melhora. Sinais de atenção que pode estar acontecendo um AVC Eu gosto de uma regra simples para ajudar a reconhecer um AVC: a regra SAMU: S de sorriso: peça para a pessoa sorrir e observe se a boca ficou torta. A de abraço: peça para levantar os dois braços e veja se um deles cai ou apresenta fraqueza. M de música: peça para repetir ou cantar uma frase e perceba se a fala está enrolada, estranha ou incompreensível. U de urgência: diante de qualquer uma dessas alterações surgidas de forma súbita, é hora de ligar para o SAMU, pelo 192. Também podem aparecer perda ou alteração repentina da visão, dormência ou fraqueza de um lado do corpo, confusão mental, dificuldade para caminhar, perda de equilíbrio e dor de cabeça súbita e muito intensa. Não espere passar. Não coloque a pessoa para dormir para ver se melhora. Não marque consulta para o dia seguinte. AVC é emergência. Uma boa notícia no SUS em 2026 Neste ano, tivemos uma notícia relevante para o atendimento do AVC no Brasil. Em setembro, foi sancionada uma lei que prevê a ampliação da oferta de medicamentos trombolíticos na rede de urgência e emergência do SUS, incluindo as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). O Ministério da Saúde também instituiu um comitê para acompanhar a implementação das linhas de cuidado de AVC e infarto e buscar tornar mais ágil a jornada dos pacientes dentro da rede. É uma medida importante porque, no AVC, não basta existir tratamento. É preciso que ele chegue ao paciente no tempo adequado. O próprio Ministério da Saúde informou que o SUS contabilizou 292 mil atendimentos por AVC em 2025, dos quais 218 mil foram relacionados ao AVC isquêmico. Ampliar acesso, organizar fluxos e reduzir o intervalo entre os primeiros sintomas, diagnóstico e tratamento pode significar a diferença entre voltar para casa independente e conviver com sequelas importantes. O AVC que não aconteceu também importa Quando falamos em AVC, naturalmente pensamos em hospitais, ambulâncias, tomografias, trombólise e reabilitação. Mas uma parte essencial dessa discussão acontece muito antes da emergência. Hipertensão arterial , diabetes , colesterol elevado, tabagismo , sedentarismo, excesso de peso, alimentação inadequada e consumo excessivo de álcool estão entre fatores relacionados ao risco vascular sobre os quais podemos atuar. Muitas vezes, porém, esses fatores são silenciosos. A pessoa não “sente” que sua pressão está elevada. Pode não perceber alterações importantes na glicemia ou no colesterol. É justamente aí que prevenção, acompanhamento médico e mudança de hábitos fazem diferença. A medicina precisa tratar cada vez melhor quem sofreu um AVC, mas também precisa impedir que o primeiro AVC aconteça. E precisamos começar essa conversa mais cedo. Se pessoas com menos de 50 ou 55 anos também podem sofrer um AVC, prevenção não deve começar apenas quando alguém entra na terceira idade. Reconhecer pode salvar uma vida Depois de três décadas trabalhando como médico que cuida do cérebro eu tenho uma dica que considero uma das mais importantes (e também uma das mais simples): conhecer os sinais de um AVC é uma forma de cuidado coletivo. Talvez você nunca precise reconhecer um AVC em si mesmo. Mas poderá perceber os sinais em seu pai, sua mãe, seu companheiro, uma colega de trabalho ou alguém sentado ao seu lado em um restaurante. Não precisamos transformar a população em médicos. Precisamos fazer com que as pessoas entendam que uma alteração neurológica súbita não deve ser observada durante horas dentro de casa. Quando o assunto é AVC, reconhecer rapidamente que alguma coisa está errada e pedir ajuda pode mudar uma história inteira. Porque, no cérebro, tempo não é apenas dinheiro: é neurônio, independência e vida.