Quanto vale uma empresa: o que o fundador pede ou o que o mercado paga?

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Em quatro acordos no Shark Tank Brasil, empreendedores aceitaram avaliações inferiores às pedidas. Colunista mostra o que essas negociações ensinam sobre preço, risco e decisões na Bolsa.

Todo investidor já se apaixonou por uma boa história e esqueceu de perguntar quanto estava pagando por ela. Acontece com ação, com fundo e, claro, com empresa fechada. Curiosamente, ao olhar para quatro negociações que fechei nos episódios desta temporada do Shark Tank Brasil , percebi que o número mais importante de cada uma não era o que o empreendedor pediu. Era a distância entre o que ele pediu e o que o mercado aceitou pagar . Os acordos foram estes. No Viajantes App , de serviço e tecnologia , a pedida era de R$ 600 mil por 15%; fechei por 30%. Na Bebê Pupa , do segmento infantil, o empreendedor pedia R$ 1 milhão por 7,5%, e fechamos R$ 1 milhão por 33%. Na Stellar Beauty , de beleza, entrei com a shark Renata Vichi : a pedida era R$ 1 milhão por 5%, e o acordo saiu em R$ 1,5 milhão por 35%. Na Goodspine , de saúde, a pedida era R$ 1 milhão por 20%; fechei R$ 1 milhão por 49%. Faça a conta que todo investidor deveria fazer. Dividindo o aporte pela participação, chega-se ao valuation (quanto a empresa vale na negociação). O Viajantes pedia algo como R$ 4 milhões e fechou perto de R$ 2 milhões. A Bebê Pupa pedia cerca de R$ 13,3 milhões e fechou em torno de R$ 3 milhões. A Stellar Beauty pedia R$ 20 milhões e fechou perto de R$ 4,3 milhões. A Goodspine pedia R$ 5 milhões e fechou em cerca de R$ 2 milhões. A pedida mostra o que o vendedor espera. O preço mostra o que o investidor aceita pagar . Isso não significa que as empresas sejam ruins. Pelo rótulo, são quatro setores sem nada em comum. Pela conta, é a mesma lição, e ela vale na Bolsa . Quem compra uma ação a R$ 10 porque o dono acha que ela vale R$ 30 não está investindo, está torcendo . Uma ótima empresa comprada cara pode dar um péssimo investimento , e uma empresa menor comprada pelo preço certo pode ser o contrário. Antes de perguntar se o ativo é bom, vale perguntar quanto se paga por ele . Há também o outro lado da mesa, que o investidor de carteira costuma ignorar: a diluição (a fatia do fundador que encolhe quando entra um sócio). Em todos os casos, o empreendedor abriu mão de mais do que planejava. Na Goodspine, a participação ficou em 49%, um ponto abaixo do controle. O fundador cede espaço, mas mantém a maioria e ganha capital e um sócio ao lado. Participação menor numa empresa que cresce pode valer mais do que participação inteira numa empresa parada . Como investidora, aprendi que o que me faz levantar a mão raramente é só o produto. No Viajantes, pesou a base de mais de 1 milhão de downloads. Na Bebê Pupa, a patente própria e a margem líquida de 20%. Na Stellar Beauty, a tração: R$ 2 milhões de faturamento em 2025. Na Goodspine, a patente e mais de 7 mil unidades vendidas. Em todas, o preço precisava fazer sentido para o risco que eu estava assumindo . E o risco, nesse tipo de aposta, é real: empresa fechada tem baixa liquidez (dificuldade de vender a participação quando se quer) e a possibilidade concreta de perder o valor investido. Por isso, deve ocupar uma fatia do patrimônio compatível com esse risco, nunca a carteira inteira. Vale o exercício com a própria carteira. Quantos investidores sabem dizer quanto pagaram pelo que compraram, e não apenas o que compraram? Quantos confundem o preço-alvo de quem vende com o valor de quem compra? Quantos negociam o preço de entrada com o mesmo cuidado com que escolhem o ativo? Quatro empresas, quatro setores, uma só pergunta. A pedida mostra a ambição. O preço mostra o limite do bom negócio .