Jetour G700 chega por R$ 469.900 com jeitão de Defender e sem versão anfíbia
Quando descobri que a apresentação do Jetour G700 seria perto da Represa de Guarapiranga, na zona sul de São Paulo, até me animei em dar uma de capitão. Afinal, o SUV chinês ganhou projeção com demonstrações de uma configuração capaz de flutuar e se deslocar na água. A possibilidade de trocar o vola
Quando descobri que a apresentação do Jetour G700 seria perto da Represa de Guarapiranga, na zona sul de São Paulo, até me animei em dar uma de capitão. Afinal, o SUV chinês ganhou projeção com demonstrações de uma configuração capaz de flutuar e se deslocar na água. A possibilidade de trocar o volante pelo timão, porém, ficou na imaginação. O modelo que chega ao Brasil tem credenciais off-road, mas não é anfíbio. De acordo com a Jetour, a tecnologia ARC presente na chamada Ark Edition ainda está em estágio de protótipo até mesmo na China. Uma eventual oferta por aqui dependeria, também, de questões específicas de homologação. Portanto, nada de navegar pela Guarapiranga. A proposta brasileira é atravessar obstáculos com os pneus no chão, mesmo quando há água pelo caminho. Feito sobre a arquitetura GAIA, o G700 desembarca nas concessionárias no início de novembro em duas configurações. A Premium, de cinco lugares, tem preço sugerido de R$ 469.900, enquanto a Premium de seis, sai por R$ 499.900. Nas duas, o SUV combina um motor 2.0 turbo a gasolina com dois elétricos, tração integral e uma lista extensa de equipamentos. O Jornal do Carro teve novo contato com o modelo ( meu colega Vinicius Montoia o guiou no Festival Interlagos ). Mais uma vez, a experiência foi breve, de aproximadamente 20 minutos. É pouco para estabelecer conclusões sobre comportamento, conforto em viagens, capacidades ou consumo real. Deu, contudo, para conhecer a proposta, explorar a cabine e experimentar uma de suas funções mais curiosas, chamada de Tank Turn . Ou, pelo menos, parte da função. Jetour G700 tem vocação para a água, mas não é barco A distinção entre o G700 das lojas e a Ark Edition vai além de uma versão com mais equipamentos. A capacidade anfíbia pressupõe flutuar e se movimentar sem depender do contato dos pneus com o fundo. Já a transposição de um curso d’água acontece com o carro apoiado no solo, dentro dos limites de profundidade e das condições de uso previstas pela fabricante. No modelo destinado ao Brasil, a Jetour informa capacidade para atravessar até 900 mm de água. São 90 centímetros, o mesmo limite divulgado, por exemplo, para o vindouro Range Rover Electric . O restante do conjunto também mostra que a aparência aventureira tem respaldo técnico. O G700 utiliza carroceria sobre chassi de longarinas, suspensão independente de duplo A nos dois eixos e tração integral inteligente, batizada pela marca de XWD. O veículo tem ainda bloqueios de diferencial dianteiro, traseiro e central, além de uma função de bloqueio diagonal dinâmico. O G700 tem 230 mm de vão livre do solo, ângulo de ataque de 35 graus e de saída de 28 graus. Os oito modos de condução incluem Eco, Normal, Sport, Neve, Lama, Areia, Pedra e X. Neste último, o sistema identifica as condições do terreno e ajusta automaticamente parâmetros de funcionamento do veículo. O pacote inclui ainda o modo de rastejamento, destinado à progressão controlada em baixa velocidade, e câmeras com visualização que marcas como a Jetour e a Leapmotor insistem em ser 540 graus. É uma expressão comercial, feita para vender mais, e descreve a combinação das imagens do entorno com uma representação da área sob o veículo. Mas tá tudo bem. Trata-se de recurso útil para enxergar obstáculos encobertos pela carroceria. Giro pela metade O Tank Turn , também presente no T2 4x4 , é uma das funções com maior potencial para chamar atenção. A ideia é fazer o SUV mudar de direção em um espaço reduzido, girando praticamente sobre o próprio eixo. O nome remete à maneira como um tanque de guerra é capaz de realizar curvas bastante fechadas. No G700, a manobra usa o controle dos motores elétricos dos dois eixos para aplicar torque de forma diferenciada. O eixo dianteiro atua no sentido de avanço, enquanto o traseiro aplica torque no sentido contrário. Com a coordenação eletrônica do conjunto, o carro consegue descrever um giro muito mais fechado do que faria em uma manobra convencional. Na nossa tentativa, porém, o G700 ‘fraquejou’ e não completou a volta. O terreno impediu a conclusão da manobra. Conforme a orientação apresentada no evento, a função é interrompida quando o veículo encontra uma inclinação de 3 graus ou mais. O episódio mostra que o recurso depende de condições específicas para funcionar. Pode ajudar em determinadas situações fora de estrada, mas sua presença na lista de equipamentos não significa que o motorista conseguirá executar um duplo twist carpado em qualquer lugar. Também seria exagero transformar esse contato de 20 minutos em um veredicto sobre a dinâmica do G700. Faltaram estrada e tempo para avaliar com propriedade direção, suspensão, freios e a interação entre os motores. Foi uma rápida introdução ao carro e às suas ferramentas. Quadradão e com um quê de Defender O parentesco visual com o universo do Defender é difícil de ignorar. O G700 adota o estilo boxy , com carroceria de linhas retas, teto quase horizontal, laterais altas e volumes bem definidos. A dianteira tem uma grade ampla, com o nome Jetour em destaque, ladeada por conjuntos ópticos de formato retangular. O capô elevado, os para-lamas pronunciados e as caixas de roda angulosas reforçam a aparência musculosa. Na traseira, o estepe na tampa do porta-malas completa a receita clássica dos utilitários de vocação aventureira. As rodas de 20 polegadas usam pneus 275/60, com uma quantidade considerável de borracha entre o aro e o chão. Visualmente, combinam com a proposta de um jipão que pretende frequentar mais do que estacionamentos de shopping. No quesito dimensão, o Jetour G700 tem 5,2 metros de comprimento, 2,05 m de largura e 1,956 m de altura, com entre-eixos de 2,87 m. A configuração de cinco lugares tem bancos em disposição 2+3 e privilegia o bagageiro. São 966 litros, ampliáveis a 2.195 litros com os encostos rebatidos. Já a opção de seis lugares adota três fileiras de dois assentos e oferece de 224 a 719 litros, conforme a disposição dos bancos. 905 cv exigem uma explicação O conjunto híbrido plug-in reúne um motor 2.0 turbo a gasolina de 211 cv, um elétrico dianteiro de 286 cv e outro traseiro de 408 cv. A transmissão é DHT, específica para o sistema híbrido, que também conta com um gerador dedicado. A Jetour destaca os 905 cv de potência total instalada e os 115,7 kgfm de torque total instalado. E aí é importante prestar atenção ao termo. A própria ficha técnica esclarece que os números resultam da soma dos valores individuais e não estão disponíveis simultaneamente durante o uso. Portanto, a cavalaria divulgada não deve ser tratada como a potência combinada efetivamente entregue pelo conjunto. A promessa de desempenho, de qualquer maneira, é expressiva para um SUV desse tamanho. Segundo a fabricante, o G700 cumpre o 0 a 100 km/h em excepcionais 4,8 segundos e atinge 180 km/h. A bateria de fosfato de ferro-lítio, fornecida pela CATL, tem 34,13 kWh. A autonomia exclusivamente elétrica é de 73 km, conforme números do Inmetro. A recarga aceita até 170 kW em corrente contínua, com promessa de elevar o nível de 30% a 80% em aproximadamente dez minutos. Em corrente alternada, a potência máxima é de 11 kW. Com tanque de gasolina de 100 litros, a autonomia total do Jetour G700 é de até 1.300 km. Nos números de consumo apresentados para o funcionamento híbrido, o G700 registra 9,3 km/l na cidade e 8,7 km/l na estrada. O breve percurso do lançamento não permitiu verificar essas médias na prática. Cabine de luxo e telas por todos os lados Por dentro, o G700 aposta em couro Nappa, superfícies macias e uma profusão de telas para justificar o posicionamento. O elemento de maior impacto é o painel de instrumentos panorâmico de 35,4 polegadas, instalado na parte superior do conjunto dianteiro. Abaixo dele, a central multimídia tem 15,6 polegadas. As configurações oferecem Apple CarPlay e Android Auto sem fio, carregador de celular por indução de 50 W e sistema de som Lexicon, cortesia da Harman, com 18 alto-falantes. Também estão presentes bancos dianteiros com ajustes elétricos e memória, ventilação dos assentos dianteiros, iluminação ambiente, chave presencial, vidros dianteiros laminados e teto solar panorâmico. Na versão de cinco lugares, o ar-condicionado automático tem duas zonas. A de seis amplia o sistema para três zonas e concentra os principais mimos para os passageiros. A segunda fileira recebe duas poltronas individuais com ajustes elétricos, ventilação, aquecimento e massagem. Os bancos dianteiros também ganham aquecimento e massagem nessa configuração. Para quem viaja atrás, há uma tela retrátil de entretenimento de 17,3 polegadas instalada no teto. Outra, de aproximadamente 8,9 polegadas, permite controlar funções dos bancos, da climatização e do entretenimento. A terceira fileira tem ajuste e rebatimento elétricos, enquanto o teto panorâmico é segmentado. A lista inclui ainda alimentação de equipamentos externos pela função V2L, com potência de até 3,3 kW. Assim, o SUV pode fornecer energia para aparelhos compatíveis durante uma parada ou atividade ao ar livre. No quesito segurança, o modelo dispõe de oito airbags na configuração de cinco lugares e dez na de seis, que acrescenta bolsas laterais traseiras. As duas têm airbag de joelhos para o motorista e uma bolsa central entre os ocupantes dianteiros. O pacote de assistências à condução reúne controle de cruzeiro adaptativo, frenagem automática de emergência, assistência de permanência em faixa, monitoramento de ponto cego e alerta de tráfego cruzado traseiro, entre outros recursos. Rival britânico na mira A ambição da Jetour apareceu também na apresentação comercial. A marca colocou o G700 de seis lugares, de R$ 499.900, ao lado de um “competidor A” britânico anunciado por R$ 817.990 (alô, Land Rover Discovery Tempest). A diferença é de R$ 318.090, suficiente para deixar clara a estratégia de oferecer porte, equipamentos e capacidade fora de estrada por um valor consideravelmente menor. O comparativo da própria fabricante, contudo, também apontava vantagens do rival, como sete lugares, ar-condicionado de quatro zonas e alguns equipamentos ausentes no SUVão chinês. A lista de telas e funções do G700 é extensa, mas não reflete superioridade em todos os critérios. Para o lançamento, a Jetour oferece bônus de R$ 20 mil na avaliação do usado e uma condição de R$ 30 mil para clientes da marca, sujeitos às regras comerciais. A garantia do veículo é de sete anos ou 200 mil km. Já para bateria e motores elétricos, são oito anos ou 200 mil km. O G700 chega com uma proposta ambiciosa e preços que colocam pressão sobre SUVs de luxo tradicionais. O contato inicial permite reconhecer o tamanho dessa aposta, sobretudo pela cabine de nobre estirpe e pelo arsenal fora de estrada. Saber como tudo isso se traduz em convivência, conforto e comportamento exigirá mais do que os 20 minutos disponíveis. Já a minha estreia como capitão na Guarapiranga terá de esperar. Uma pena.