Lições de 2023 atenuam impactos da vazante no Polo Industrial de Manaus
Medidas tomadas pelo comércio e indústria, como a antecipação de estoque, reduziram os impactos econômicos da seca
Com previsão do início da subida do Rio Negro para a segunda quinzena de novembro, os principais efeitos da estiagem até agora conseguiram ser mitigados e pouco têm afetado o Polo Industrial de Manaus (PIM) e o comércio da capital. Uma das principais razões para o aparente fracasso da seca frente às atividades econômicas é a experiência de anos anteriores, que levou indústria e comércio a se prepararem com antecedência em 2026. As informações vêm das principais autoridades do setor produtivo e da administração pública do Amazonas, que estiveram reunidas ontem, na 322ª reunião ordinária do Conselho de Desenvolvimento do Estado do Amazonas (Codam), presidida pelo governador Roberto Cidade (União). O secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do Amazonas, Gustavo Igrejas, informou que, até agora, a estiagem não tem afetado tanto a atividade produtiva no Polo Industrial de Manaus. “Esse ano, na verdade, a estiagem está arrefecendo. Eu estava outro dia dando uma olhada e já estagnou no Médio Solimões, ali na região de Coari. E, até esse presente momento, não teve nenhum grande impacto na Zona Franca de Manaus. Dizem que a grande preocupação vai ser para o ano que vem. O El Niño pode provocar uma cheia não tão grande e, aí sim, uma estiagem muito forte a partir do ano que vem”, afirmou o secretário Gustavo Igrejas. PORTOS AVANÇADOS Igrejas atribui a aparente tranquilidade desse ano a dois fatores: o Rio Negro não baixou aos níveis que se imaginava que ele chegaria e as experiências de 2023 e 2024 ensinaram algumas lições que foram postas em prática em 2026. O titular da Sedecti lembrou ainda que, em 2023, foi preciso parar por 50 dias a produção na Zona Franca de Manaus. “Em 2024, isso não aconteceu mesmo com uma estiagem mais forte e, agora, daqui para a frente, a gente já tem esse mecanismo que impede a parada da Zona Franca”, informou. Para o secretário Gustavo Igrejas, o setor produtivo tem que se preparar porque cada vez mais os fenômenos climáticos estão ocorrendo em espaços menores de tempo. “Se você pegar as maiores cheias da história, as maiores secas da história, a gente teve neste século. O Rio Negro, por exemplo, você tem 130 anos de medição, você vai ver que as maiores secas, a maior parte de secas e cheias estão acontecendo agora nesse século”, pontuou. SEM PARALISAÇÃO Para o vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (FIEAM), Nelson Azevedo, a indústria se preparou melhor este ano para mitigar os impactos da estiagem e isto se reflete no pleno funcionamento das empresas, sem que os efeitos sejam sentidos nas fábricas do Polo Industrial de Manaus. “Está todo mundo trabalhando. A preocupação existe, mas acontece que também há uma preocupação constante para tentar evitar que o pior ocorra. Não tem impacto dentro das empresas”, afirmou Nelson Azevedo. O representante da FIEAM acrescentou que as possibilidades de maiores danos têm sido realmente bem acompanhadas pela indústria. “Os próprios poderes públicos que são da área estão fazendo essa assistência. A gente espera que realmente isso termine sem comprometer, sem que qualquer intempérie venha a prejudicar as nossas atividades. Não tenho dúvida nenhuma que a indústria se preparou melhor este ano. A indústria está preparada”, declarou. COMÉRCIO ANTECIPOU ESTOQUES O presidente da Associação Comercial do Amazonas (ACA), Bruno Loureiro Pinheiro, afirma que, até agora, o comércio não sofreu com desabastecimento ou aumento de preço, como em anos anteriores. “A partir do anúncio da Defesa Civil, no início do ano, por parte do governo do Estado do Amazonas, que a gente teria uma possível estiagem severa, os empresários, todos trabalharam com o calendário de 2024, antecipando estoques. Então, a gente percebeu um grande número de empresários se organizando”, relata Bruno Pinheiro. O presidente da ACA também elogia o trabalho realizado pelos empresários junto à Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) em relação à taxa de pouca água ou taxa da seca, cobrada por empresas de navegação quando o rio está muito seco. “O trabalho que a gente fez com a Antaq, com o Ministério Público Federal, no TRF3, em São Paulo, para tentar que a Antaq organizasse essa questão da taxa de pouca água surtiu o efeito. No ano passado não houve a cobrança da taxa. Então foram três meses que, no ano passado, não repassamos o aumento de custo para a população”, afirmou. Bruno conta que também neste ano, no mês de setembro, não houve cobrança da taxa. “Algumas empresas, individualmente, em outubro agora, conseguiram justificar, através de processos entre a empresa e o órgão regulador, e já estão cobrando a taxa. É lógico que a gente respeita a decisão do órgão regulador sabendo que houve a justificativa”, diz Bruno Pinheiro. “Eu acho que a gente sai desse cenário do ano passado, de 2025 e 2026, é muito mais tranquilo do que o de 2024, que a gente foi pego por aquela surpresa de 5 mil dólares por container. Esse ano todo o setor produtivo se preparou, se organizou, antecipou o estoque, preparou seu fluxo de caixa e com isso a gente percebe nas próprias prateleiras, que não houve nem aumento de preço e nem também falta de produto”, destaca. BOX | CODAM APROVA 63 PROJETOS A 322ª reunião ordinária do Conselho de Desenvolvimento do Estado do Amazonas (Codam), presidida pelo governador Roberto Cidade, aprovou 63 projetos industriais de instalação na Zona Franca de Manaus. Com as novas aprovações, o Conselho agora acumula 277 projetos em 2026 e deve superar 2025, melhor ano da história, quando 320 projetos foram aprovados. “São mais de 2 mil postos de trabalho que serão gerados, tendo em vista que este ano, nós estamos quebrando todos os recordes de geração de emprego, com mais de 135 mil postos gerados aqui na Zona Franca de Manaus, o maior modelo econômico do Amazonas. Isso ajuda a manter a nossa floresta preservada e a economia do Estado forte. Isso é possível, primeiro pela garantia constitucional e também pelo apoio do Executivo estadual para atrair mais investimentos e quem ganha com isso é a população do nosso estado”, destacou Roberto Cidade. Durante a penúltima reunião de 2026, foram analisados 27 projetos industriais de implantação, 27 de diversificação e nove de atualização, que, juntos, acumulam aproximadamente R$ 1,65 bilhão em investimentos projetados e mais de 2 mil postos de trabalho.