Patrick Stewart deu nova dimensão e profundidade ao papel de capitão da Enterprise em ‘Star Trek’

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Os trekkers, como são conhecidos os fãs de Star Trek , ou Jornada nas Estrelas , começaram a semana com a morte de Walter Koenig , que durante décadas interpretou Pavel Chekov, oficial da USS Enterprise. E agora chega a notícia da morte do ator britânico Patrick Stewart , o capitão Jean-Luc Picard,

Os trekkers, como são conhecidos os fãs de Star Trek , ou Jornada nas Estrelas , começaram a semana com a morte de Walter Koenig , que durante décadas interpretou Pavel Chekov, oficial da USS Enterprise. E agora chega a notícia da morte do ator britânico Patrick Stewart , o capitão Jean-Luc Picard, que também ficou conhecido pelo papel de Professor Xavier, nos filmes de X-Men . Entre as duas franquias, fico com Star Trek . O começo de tudo se deu com a série original, hoje conhecida como clássica, em meados dos anos 1960. A TV americana estava tomada por programas de detetives, como Perry Mason e Dragnet , e histórias ambientadas no faroeste, The Lone Ranger , Bonanza . Jornada nas Estrelas unia os dois universos, mas tendo como cenário o espaço – essa terra desconhecida a ser desbravada, onde mistérios dos mais diversos precisavam ser revelados. A trama se passava no século 23, mas o criador Gene Roddenberry tinha uma ideia clara de futuro, fincada, claro, em seu tempo. Na época em que se passa Jornada nas Estrelas , a Terra já superou guerras, a fome, a miséria. O planeta faz parte de uma Federação Unida dos Planetas. Havia inimigos, os impérios Klingon e Romulano, e batalhas a serem vencidas, mas o objetivo principal era conhecer, não dominar. Na tripulação da Enterprise, comandada pelo capitão James T. Kirk, havia mulheres em cargos importantes. O segundo em comando era uma alienígena, um estrangeiro, Spock. Foi na Enterprise que se deu o primeiro beijo inter-racial da TV americana. E, na segunda temporada da produção, Roddenberry colocou na ponte de comando o oficial russo Pavel Chekov. Era o auge da Guerra Fria. A série teve apenas três temporadas, foi cancelada. Mas tornou-se cult e as reprises em canais locais foram conquistando uma legião de fãs em todo o país. No final dos anos 1970, começaram a nascer, então, os filmes, seis. São desiguais. Costuma-se dizer que os ímpares – Star Trek , À Procura de Spock e A Última Fronteira – são bem mais fracos que os pares – A Ira de Khan , A Volta para Casa e A Terra Desconhecida . São mesmo. E a regra vale para o sétimo, Generations , no qual, em uma atrapalhada história de viagem no tempo, o elenco da Série Clássica despediu-se simbolicamente e abriu espaço, no cinema, para os personagens de Star Trek: The Next Generation , spin-off que havia sido criado em 1987, na esteira do sucesso dos filmes. Na série original, o capitão da Enterprise, James T. Kirk, era interpretado por William Shatner . Kirk, americano de Iowa, era um personagem apaixonado, intenso, impulsivo; e Shatner, aquele tipo de canastrão cuja canastrice a gente aprende a aceitar, apreciar e reconhecer como lenda. Já em The Next Generation , que se passa quase um século depois, o papel de capitão da Enterprise, Jean-Luc Picard, ficou com o britânico Patrick Stewart. Para que o personagem desse certo, precisaria ser diferente de Kirk. E Picard era o seu oposto. Stewart, conhecido pelo trabalho no teatro, intérprete de Shakespeare e de outros clássicos no West End londrino, apresentou ao público um capitão mais frio, duro, rígido em seu apego aos regulamentos. O espírito de Kirk estava representado, na nova geração, no primeiro oficial de Picard, o comandante William Riker, interpretado por Jonathan Frakes. Mais jovem e enérgico, era ele que descia aos planetas em missões arriscadas, vivia aventuras e paixões. Mas lhe faltava o carisma de Shatner. E, além disso, uma nave é, afinal, o seu capitão. Assim, a partir da terceira temporada, Picard ganhou novos contornos. O capitão passou a se envolver mais nos momentos de ação. E, ao mesmo tempo, se desenhava como um intelectual profundamente humano, cujo drama (e generosidade com relação ao outro) nascia da necessidade individual de carregar nos ombros os grandes temas da existência. Ao ser capturado e assimilado pelos Borg, meio humanos, meio robôs, passou a reconhecer a marca do inimigo como parte indissociável de si mesmo, contra a qual vai se insurgir de maneira violenta em Primeiro Contato , o primeiro filme da nova leva da franquia. Em Generations , ao receber a notícia da morte do sobrinho, o único que poderia levar a linhagem da família Picard adiante, chorou sua própria solidão. Em Insurreição , trocou a obediência aos regulamentos pela obrigação moral do respeito ao outro. Em Nêmesis , confrontou-se com a própria origem – e mortalidade – em uma reflexão sobre como um processo histórico marcado por violência e miséria transforma o indivíduo. Não por acaso, Stewart definia Corrente de Comando como seu episódio favorito da série. Nele, Picard é capturado pelos cardassianos e interrogado por Gul Madred, interpretado por David Warner, que quer extrair informações sobre as defesas da Federação. O capitão é torturado. Stewart quis que as cenas fossem graficamente fortes, pois não caberia aliviar para o espectador o horror da tortura. À medida que a cena se desenrola, estabelece-se um jogo psicológico entre os dois. É um dos grandes momentos da história da teledramaturgia americana da época. Dificilmente o seria sem Patrick Stewart.