“A gente é o maestro no set de filmagem”: como O Bosque Selvagem ganha vida com stop motion
O Bosque Selvagem, nova animação da LAIKA Studios, possui uma animação tão detalhada que você não sabe nem para onde olhar na tela do cinema . Com cenários construídos artesanalmente e personagens que ganham vida por meio da técnica de stop motion , o filme também chama a atenção pela naturalidade d
O Bosque Selvagem, nova animação da LAIKA Studios, possui uma animação tão detalhada que você não sabe nem para onde olhar na tela do cinema . Com cenários construídos artesanalmente e personagens que ganham vida por meio da técnica de stop motion , o filme também chama a atenção pela naturalidade dos movimentos e pela combinação entre drama e comédia. Em entrevista ao Minha Série, o animador brasileiro Thiago Calçado, que já trabalhou em produções como Ilha dos Cachorros, de Wes Anderson, e Pinóquio — vencedor do Oscar de Melhor Animação — de Guillermo del Toro, explicou como funciona o processo de dar vida aos bonecos e destacou as inovações técnicas presentes no longa. Já os dubladores brasileiros Giulia Benite e Pedro Gulbarelli compartilharam os maiores desafios que enfrentaram ao interpretar personagens apenas com a voz e a maneira como a experiência contribuiu para suas atuações. Confira abaixo a entrevista completa com os dubladores e com o animador! Como funciona o trabalho de um animador de stop motion ? Depois de participar de produções de destaque na animação, Thiago trabalhou em O Bosque Selvagem desde o início do processo. Diferentemente de técnicas digitais, o stop motion exige que cada movimento dos personagens seja construído manualmente, quadro a quadro, até formar a sequência que será exibida na tela. “O meu trabalho consiste em mover um boneco a 24 quadros para fazer um segundo e, seguindo as orientações do diretor sobre o que é melhor para todo o contexto, para o que é importante naquela cena, escutar o áudio dos atores e transformar aquilo em atuação, dentro de um prazo de produção que você tem que entregar”, explicou Thiago Calçado. Eu acho assim, a Laika está sempre subindo o sarrafo na qualidade dos filmes em stop motion Thiago Calçado, animador de O Bosque Selvagem O animador contou que se sente como o maestro naquele momento, sendo um dos últimos envolvidos na produção final. “ A gente é o maestro ali do set de filmagem em stop motion , porque a gente é o último elo da corrente. Fazem os cenários, vem o áudio, fotografia, iluminação, o boneco, e tudo aquilo a gente tem que fazer funcionar na nossa mão da melhor maneira possível para o filme, para contar uma história, para que, no final, as pessoas possam se emocionar e tocar o coração delas. Eu acho que é o mais importante do meu trabalho, do trabalho dos atores também”, contou, reforçando o papel dele no filme. Mas afinal, o que torna o stop motion especial em meio às animações digitais? Em um cenário no qual o CGI e as técnicas inteiramente digitais estão cada vez mais presentes, o caráter artesanal do stop motion é uma das características que diferenciam a produção. Para Thiago, o cuidado envolvido em cada etapa do processo se reflete diretamente no resultado visto pelo público. “Eu acho que é porque é artesanal, né? É um trabalho artesanal ali. Ali, todo mundo está fazendo aquilo por amor. Você vê o amor no set. É uma coisa tátil, palpável e que fica refletida na tela”, expressou Calçado. Os bonecos de O Bosque Selvagem têm até um mecanismo para respirar! Thiago contou um pouco sobre a evolução do processo de animação por stop motion. “Você consegue ver ali que é tudo o material que a gente usa. Hoje evoluiu muito. Você fazia muito com massinha, hoje já é silicone, resina. E eu acho assim, fica impresso na tela esse cuidado de todos os artistas envolvidos na produção, que é uma linha de produção”, explicou o animador. A evolução tecnológica também está presente nos detalhes dos personagens. Segundo Thiago, que trabalha pela segunda vez com a LAIKA, o estúdio continua desenvolvendo novas possibilidades para tornar os bonecos mais expressivos e naturais. “É a segunda vez que eu trabalho para a Laika e eles sempre evoluem demais tecnicamente. E, dessa vez, os bonecos têm um respirador. Você consegue respirar o boneco. Se ele está parado, você consegue inflar o peito e desinflar (...) Isso é uma tecnologia nova dos bonecos, eu digo. E, fora que evolui tudo: câmera, luz. Isso vai evoluindo também ao longo da técnica.” A riqueza de detalhes é uma das marcas da LAIKA Em O Bosque Selvagem, os cenários e a vegetação ajudam a construir um universo visual que convida o espectador a observar até mesmo os elementos ao fundo das cenas. Para Thiago, esse cuidado faz parte da identidade do estúdio e está relacionado à busca por uma animação mais naturalista. “ Eu acho assim, a Laika está sempre subindo o sarrafo na qualidade dos filmes em stop motion . Ela está sempre dando norte em termos do que a técnica é capaz de fazer. E eu acho que a assinatura do estúdio é esse cuidado, sabe? Essa riqueza de detalhes. É um ambiente muito rico, né?”, disse Calçado, rasgando elogios sobre sua parceira LAIKA Studios. “Tudo feito na câmera. Ali, tudo é real. Aquela mansão é feita, até os cipós também são todos reais. Então, a Laika tem esse preciosismo também na animação, que é um pouco da assinatura: essa animação realista, naturalista (...) Não, ele é tudo meio real, meio natural, bem próximo de uma atuação de um ator mesmo”, continuou o animador. Travis Knight: CEO da LAIKA Studios, diretor e animador A direção de Travis Knight também aparece na combinação entre momentos dramáticos e passagens cômicas. Embora a história tenha uma carga emocional intensa, o filme encontra espaço para o humor, uma característica que chamou a atenção durante a sessão. Thiago concordou com a percepção e apontou semelhanças com outro trabalho do cineasta. “Eu vejo bastante semelhança com Kubo e as Cordas Mágicas. É o segundo que ele dirige, né? Você começa a ver já o estilo dele no ritmo de montagem e tal. Bem interessante. Eu gosto muito de trabalhar com ele. Me chama de novo, Travis! Cadê a câmera?”, finalizou Calçado. Giulia Benite comenta sobre as diferenças entre dublagem e atuação com o corpo A experiência de dar voz a Prue, protagonista de O Bosque Selvagem, também trouxe reflexões sobre as particularidades de cada forma de atuação. Giulia já havia participado de uma animação com voz original, processo em que a interpretação é gravada antes de a animação ser construída, mas a dublagem de uma produção já finalizada exige outra abordagem. “Eu tenho que dublar em cima do que já foi feito, então existe ali um cuidado com o tempo, com o personagem. Você tem que prestar atenção nos movimentos que ele está fazendo, na forma como ele fala, tudo. Claro que a gente dá o nosso toque também, né? A gente dá nosso jeitinho brasileiro de falar, que eu acho que tem uma emoção diferente”, contou a atriz. Ao aprofundar a questão, a atriz destacou que a dublagem também exige uma interpretação completa, mas concentrada em um único recurso: a voz. Sem as expressões faciais e os movimentos corporais visíveis ao público, o trabalho depende de outros elementos para transmitir as emoções. tem uma frase muito legal da Prue no final, em que ela fala: “Eu achei que crescer fosse trazer mais respostas, mas parece que eu só tenho mais perguntas”. Eu acho que isso resume muito da vida, né? Giulia Benite, dubladora de Prue em O Bosque Selvagem Entre os aspectos que mais agradaram à atriz está a personalidade da personagem. Na história, Prue decide partir em busca do irmão mesmo sem saber quais perigos encontrará pelo caminho. Para Giulia, a determinação da protagonista foi um dos pontos mais interessantes de interpretar. “Ela é incrível. É uma personagem muito forte, sabe? Eu acho muito legal a gente ter um filme em que uma mulher protagonista forte toma as próprias decisões e vai atrás do que quer (...) Acho que isso foi o que eu mais gostei de dublar a Prue, que é uma mulher muito forte e que eu considero até muito parecida comigo nessa questão de determinação. Quando quero alguma coisa, eu vou atrás, enfrento o que tenho que enfrentar”, expressou Benite, sobre seu amor por Prue. O desafio de acompanhar a transformação de Curtis Enquanto Prue conduz a jornada em busca do irmão, Curtis também passa por mudanças importantes ao longo da história. Para Pedro Bulgarelli, responsável pela voz do personagem, um dos maiores desafios foi representar essa transformação em um período de gravação muito mais curto do que o tempo vivido pelo personagem na narrativa. “Olha, eu acho que essa é uma das coisas mais difíceis: representar um período muito grande na vida do personagem. O personagem deve ter vivido o quê? Semanas. E eu ali, em um dia, numa semana, tendo que representar esse arco todo. E isso é uma coisa de que eu gosto muito na atuação. No teatro, a gente tem muito disso: em um dia, numa sessão, em uma hora corrida, você tem que representar isso”, explicou o ator. A governadora e a Prue estavam fazendo de tudo pelas pessoas que amavam (...) Eu acho que essa empatia se deve a esse lugar, das duas estarem na mesma posição. Pedro Bulgarelli, dublador de Curtis em O Bosque Selvagem Pedro conta que acompanhou a história junto com Curtis e isso o ajudou a entender e crescer com o personagem, mesmo o dublando. “No início, assim como ele, eu também estava com mais medo, sem saber o que fazer, e, no final, já estava mais confiante com o filme. Então, acho que isso ajudou, mas também foi um desafio fazer isso. E acho que deu para fazer. Eu acho que consegui fazer isso bem”, finalizou o ator. Giulia também pontuou essa diferença e como essa gravação cronológica e simultânea com a história torna o trabalho diferente. “É muito legal, porque, quando você vai fazer um filme, não é nada em ordem cronológica, né? E aí, às vezes, eu começo fazendo o filme de um jeito. Daí, quando vejo, falo: “Ai, eu podia ter feito tudo diferente, né?”. Como a gente grava em ordem completamente aleatória, acaba sentindo isso (..) E essa dublagem foi muito legal nisso, porque foi tudo em ordem cronológica. Então, você vai realmente conhecendo o personagem ao longo do que vai gravando", contou a atriz. Qual é a principal mensagem de O Bosque Selvagem? Além dos aspectos técnicos e dos desafios da atuação, O Bosque Selvagem também apresenta reflexões sobre os limites que as pessoas podem ultrapassar por quem amam. Ao comentar a jornada de Prue, Thiago destacou a disposição da protagonista para enfrentar obstáculos em busca do irmão. “Eu acho que a grande mensagem é até onde você vai pelas pessoas que ama. Eu acho que é isso que você aprende ali, que ela vai longe, né? Pelo meu irmão... Meu irmão já tinha desistido, mas ela foi... Brincadeira! Eu amo ele de paixão”, brincou o animador. Pedro, por sua vez, chamou a atenção para a relação entre Prue e a governadora, antagonista da história. Embora as duas ocupem posições diferentes na narrativa, ambas são movidas pelo desejo de proteger as pessoas que amam. Essa semelhança ajuda a compreender a empatia demonstrada pela protagonista. “A governadora e a Prue estavam fazendo de tudo pelas pessoas que amavam. Claro que a Prue não precisou ir tão longe, né? Mas as duas estavam nesse mesmo lugar. Eu acho que essa empatia se deve a esse lugar, das duas estarem na mesma posição. Claro que a governadora está em um lugar muito mais além, muito pior”, contou o ator. Giulia complementou a reflexão ao destacar a diferença entre amar alguém e agir sem considerar as consequências para outras pessoas. Para ela, a história também traz uma mensagem sobre o amadurecimento e a dificuldade de encontrar respostas definitivas ao longo da vida. “Acho que sem pensar no outro, né? A governadora queria conseguir o filho dela custe o que custar, mesmo que custasse, enfim, a vida de alguém, destruir uma família. Mas eu acho que tem uma frase muito legal da Prue no final, em que ela fala: “Eu achei que crescer fosse trazer mais respostas, mas parece que eu só tenho mais perguntas”. Eu acho que isso resume muito da vida, né? Essa frase me marcou", terminou a atriz. O Bosque Selvagem já está disponível nos cinemas de todo o Brasil.