Brasil diz ter convocado diplomata argentina para cobrar explicações sobre viagem de Flávio Bolsonaro

Por Correio Braziliense — Mundo · Categoria: Internacional ·

Na linguagem diplomática, a convocação de um diplomata para prestar esclarecimentos é uma demonstração de reprovação a alguma conduta adotada pelo país do diplomata convocado.

Fontes do governo brasileiro disseram à BBC News Brasil em caráter reservado que o Ministério das Relações Exteriores (MRE) convocou a encarregada de negócios da Argentina , Emilia Cortés, para cobrar explicações sobre a passagem do senador e ex-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) , pelo território argentino antes de viajar para os Estados Unidos , na terça-feira (27/10). A informação havia sido revelada inicialmente pelo portal UOL e foi confirmada pela BBC News Brasil. Nas suas redes sociais, no entanto, o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Pablo Quirno, contestou a informação e disse que não teria havido pedido de explicações. Na linguagem diplomática, a convocação de um diplomata para prestar esclarecimentos é uma demonstração de reprovação a alguma conduta adotada pelo país do diplomata convocado. Segundo fontes ouvidas pela BBC News Brasil, a convocação da diplomata argentina aconteceu na quinta-feira. Cortés é a mais alta diplomata argentina atuando no Brasil desde agosto, quando o governo argentino convocou de volta a Buenos Aires o então embaixador no Brasil, Guillermo Daniel Raimondi em meio a uma crise diplomática entre os dois países. Ainda de acordo com os relatos obtidos pela BBC News Brasil, Cortés foi recebida pelo diretor do departamento de Mercosul do MRE, o diplomata João Marcelo Galvão de Queiroz. Segundo as fontes ouvidas pela BBC News Brasil, a reunião foi curta e o diplomata brasileiro solicitou informações sobre o papel do governo argentino na viagem de Flávio aos EUA. Flávio deixou o país dois dias depois de perder as eleições presidenciais para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) . Ele descumpriu uma decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes , que o obrigou a entregar passaportes e a deixar o país, no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o senador e o advogado e seu amigo pessoal Willer Tomaz. Na segunda-feira (26/10), Flávio fez uma postagem em suas redes sociais dizendo que não tinha planos de deixar o país, mas no dia seguinte, ele, sua mulher e duas filhas embarcaram em um jato privado de um aeroporto de Puerto Iguazu, na Argentina, e desembarcaram no dia seguinte em Miami. Os quatro tiveram o ingresso autorizado nos Estados Unidos. Nos últimos dias, um diplomata brasileiro ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado disse que a possível participação do governo argentino na viagem de Flávio para fora do Brasil seria interpretada como mais um episódio de deterioração das relações entre os dois países. Ainda nesta semana, o jornal argentino Clarín divulgou a informação de que um homem próximo ao presidente da Argentina, Javier Milei, Santiago Caputo, teria participado do plano para tirar Flávio do Brasil e levá-lo aos Estados Unidos. Caputo não tem cargo formal no governo do país vizinho, mas é apontado pela mídia argentina com alguém com amplo acesso a Milei. Em uma carta publicada por Flávio Bolsonaro após sua chegada a Miami, ele agradeceu a Javier Milei e ao presidente dos EUA, Donald Trump. "Antes de mais nada, queria agradecer ao Presidente Milei, pela coragem, senso de justiça e legalidade, ao Presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por me acolher. Essa é uma terra de liberdades e irmãos que comungam dos mesmos valores das boas pessoas do meu país", disse. Apesar de integrantes do governo brasileiro confirmarem a convocação da diplomata argentina para cobrar explicações sobre a saída de Flávio pelo território argentino, o governo da argentina negou a existência da reunião. Em uma postagem no X (antigo Twitter), o ministro Pablo Quirno rebateu reportagem do jornal La Nacion sobre o assunto. "Falso. Não houve nenhum pedido de explicações", disse Quirno em sua postagem. A BBC News Brasil enviou questionamentos sobre a convocação da diplomata argentina, mas não obteve respostas.