Anavilhanas defende pluralidade em “Amazônias, gentes-florestas”
Temática apresentada pelo peixe-boi das cores verde e branco é uma construção coletiva e um mergulho nas identidades culturais da Amazônia em nome do bem-viver.
Novo Airão (AM) – Com o tema “Amazônias, gentes-florestas”, o peixe-boi Anavilhanas, das cores verde e branco, aposta em uma proposta temática pautada na pluralidade do bioma amazônico e em um território vivo de saberes compartilhados, tendo em vista a busca pelo título de bicampeão do Eco Festival do Peixe-Boi, que acontece nos dias 30 e 31 de outubro e 1º de novembro em Novo Airão (município distante 200 quilômetros de Manaus). No sábado (31), o Anavilhanas abre as apresentações. Em entrevista à reportagem de A CRÍTICA, Adan Renê, membro do Conselho de Arte do Peixe-Boi Anavilhanas, explicou que, neste ano, a escolha de um tema flexionado no plural parte do entendimento de uma Amazônia plural e multifacetada, bem como na proposta de desconstruir a visão (errônea, simplista e eurocêntrica) da região, revelando as várias Amazônias que coexistem e se nutrem. “A escolha se deu justamente porque por muito tempo se teve uma visão de ecologia ou de defesa do meio-ambiente em que se pensava que o ser humano era algo superior à floresta, aos biomas, à fauna e à flora, e consequentemente ele tinha esse poder de intervir sobre. Com os ensinamentos dos povos tradicionais, principalmente os indígenas, essa visão, ela passa a ser questionada”, explicou o conselheiro. Durante o processo de construção, pesquisa e diálogo acerca do tema, os membros do Conselho de Arte do Anavilhanas perceberam que havia algo faltando ao fazerem referência para a “Amazônia” no singular, apontando para uma concepção problemática e eurocentrada. “Não é só ter essa relação que os povos indígenas vão chamar, nas inúmeras lutas travadas por eles, de ‘gentes-florestas’. Ou seja, unir as pessoas e as florestas como sendo um só. Mas que na verdade a gente precisava pluralizar isso. Porque somente dando visibilidade a esse conjunto de pessoas que são gente-bicho e que são bicho-gente, é que a gente pode tentar quebrar esse tipo de visão, que é uma visão a nosso ver limitada e extremamente problemática”, destacou. Ainda segundo Renê, a compreensão da pluralidade amazônica apresentada pelo peixe-boi Anavilhanas, permite que o sujeito se compreenda coletivamente como parte deste contexto. Em sua proposta, o tema defendido pela agremiação tece uma crítica direta à visão eurocêntrica e ao projeto colonial. “Esse projeto que se inicia com essa história de cunho colonial e que permanece até hoje, com esses outros projetos neocolonialistas, transformou algo que era extremamente complexo em algo simplista, por não dar conta de explicar. Essa visão que os povos indígenas tinham de que o rio fala, que as plantas se comunicam, que os animais nos observam da mesma maneira que a gente os observa, que existem pessoas que tem capacidade de se “ingerar” em encantados e que esses seres também cuidam de nós”, detalhou. “Amazônias, gentes-florestas”: tema e desenvolvimento Ensaio técnico do Anavilhanas na Lagoa do Peixe-Boi Foto: Daniel Brandão Anunciado como um manifesto em forma de celebração, “Amazônias, gentes-florestas” revela uma construção coletiva e um mergulho às identidades amazônicas, na qual a fronteira entre o homem e a natureza é expressada em afeto, tradição e resistência. “Esse ano o festival tem algo de novo, que é o item “Tema e Desenvolvimento”, que passa a existir e ser avaliado. Nós vamos levar tudo isso para apresentação por meio dos nossos atos. A nossa apresentação é dividida em atos que vão mostrar todas essas diversidades. Tentar ao máximo, afinal de contas essas diversidades são muitas Mas dentro desses atos, a gente pretende ir mostrando como é que essas narrativas podem ser ressignificadas”, detalhou. O conselheiro explica que o espetáculo musical e cênico-teatral do peixe-boi Anavilhanas será dividido em três atos, que dialogam-se e comunicam-se entre si, sendo eles: Amazônia indígena, Amazônia negra e Amazônia acolhedora. “A gente vai apresentar em todos os atos, em todas as cenas que estamos trazendo na nossa apresentação. Então é por meio do canto, é por meio da música, é por meio da dança e, acima de tudo, é por meio de uma história que vai ser contada por meio da canção e tudo aquilo que somente a arte e a poesia são capazes de revelar”, salientou. Ainda segundo o conselheiro de arte, todos os elementos do espetáculo verde e branco foram pensados para transmitir e traduzir a proposta temática, com base em pesquisa e no conhecimento dos povos tradicionais. “Em termos de conhecimento indígena, nós temos a Carina Dessana, que é membro do Conselho de Arte, e responsável por nos fazer entender o que isso significou e continua significando para os povos indígenas. Nós pegamos esse conceito de “gentes-florestas” e acrescentamos aquilo que é da nossa luta, porque nós todos somos amazônidas, que estamos fazendo e estamos pensando em espetáculo”, argumentou. Construção coletiva Ao assumir a Amazônia como narradora de sua própria história, o Anavilhanas construiu um tema a partir de uma reflexão coletiva sobre pertencimento e identidade. A proposta nasce do entendimento de que, historicamente, a região foi descrita e interpretada por olhares externos, enquanto as vozes dos povos amazônidas permaneceram à margem desse processo. “E o que a gente propõe exatamente é construir coletivamente essa narrativa a partir de tantas escutas, a partir de tantas visões, a partir de tantos conhecimentos que a gente foi construindo não só no campo científico e cultural, mas com a nossa própria vivência mesmo enquanto essas “gentes-florestas”. Isso significa para o projeto que a base dele é: É nós falarmos por nós”, destacou. Como resposta e crítica a visão simplista sobre a Amazônia, o Anavilhanas aposta em uma narrativa plural, que reconhece seus próprios atores como protagonistas e autores das histórias que moldam a Amazônia contemporânea. “Chega de sermos narrados, porque a gente viu exatamente tanto de prejuízo que a gente teve, em ter sido contado sempre sobre uma ótica que é eurocêntrica e que transformou a Amazônia em vários mitos que só nos prejudicaram. Desde a ideia de um vazio demográfico, até o questionamento se os povos indígenas teriam ou não alma”, concluiu Adan Renê.