Perda de maioria legislativa não seria o maior incentivo para Trump se aproximar de Lula
No discurso após sua reeleição, no domingo, 25, o presidente Lula prometeu regular as plataformas digitais , que teriam servido de instrumento para uma “intromissão” externa na eleição brasileira. Trata-se, antes de tudo, de levantar uma bandeira cara à esquerda mundial, que defende a aprovação de l
No discurso após sua reeleição, no domingo, 25, o presidente Lula prometeu regular as plataformas digitais , que teriam servido de instrumento para uma “intromissão” externa na eleição brasileira. Trata-se, antes de tudo, de levantar uma bandeira cara à esquerda mundial, que defende a aprovação de leis para evitar que o poder das novas tecnologias fique concentrado nas mãos de grandes corporações privadas — insistindo na velha lógica da disputa sobre quem controla os meios de produção. Há quem, corretamente, alerte para o risco de exagerar na dose da regulação, permitindo ao Estado praticar censura ou inibir a inovação. Há, também, duas mensagens com destinatários externos na promessa de Lula. São eles o presidente americano Donald Trump e os chefes das big techs , as grandes empresas digitais, que incentivaram a adoção de tarifas de importação e outras estratégias de pressão contra o Brasil. A mensagem para Trump pode ser resumida assim: a derrota de Flávio Bolsonaro é também sua derrota; isso significa que há um limite para sua influência no Brasil e o melhor é buscar nossa colaboração pela via da negociação. Já a mensagem para Mark Zuckerberg, da Meta, e seus colegas é a seguinte: vocês também perderam — vamos manter o Pix, nossas leis de comércio eletrônico e decisões concorrenciais — e agora vem o troco. A bravata de Lula contra as plataformas digitais (era mesmo necessário levantar essa lebre no dia da vitória?) é uma demonstração de como ainda há elementos capazes de manter as tensões entre Brasil e Estados Unidos em alta. Há uma tentação de enxergar a eleição legislativa desta terça-feira, 3, nos Estados Unidos, como o grande divisor de águas na relação bilateral, como se uma eventual vitória dos democratas pudesse forçar Trump a mudar de postura e buscar uma aproximação com Lula. Mesmo com maioria, a oposição no Congresso teria capacidade limitada de bloquear a política externa de Trump. Como no caso da regulação das plataformas digitais, uma agenda contra a qual ele se opõe em todo o mundo, o que de fato vai pautar os próximos passos do presidente americano em relação ao Brasil é, primeiro, o reconhecimento de que Lula será seu interlocutor obrigatório pelos próximos anos, e, segundo, a avaliação sobre se a estratégia de pressão está funcionando ou não. Apesar dos sinais dúbios, a resposta para a primeira questão parece ser sim. A segunda depende muito de como o governo Lula vai agir daqui para frente. Manter o tom de confronto depois de superada a fase de campanha não é o melhor caminho.