Governo e PT elevam o tom contra o mercado financeiro e rejeitam ajuste fiscal a dois dias do Copom

Por Times Brasil — Brasil · Categoria: Nacional ·

Boulos, Gleisi Hoffmann, Rui Costa e Edinho Silva criticam investidores depois da queda de 17,5% da Bolsa na semana da reeleição de Lula O post Governo e PT elevam o tom contra o mercado financeiro e rejeitam ajuste fiscal a dois dias do Copom apareceu primeiro em Times Brasil | CNBC.

Ministros e lideranças do PT intensificaram nos últimos dias as críticas ao mercado financeiro e à cobrança por ajuste fiscal. A reação veio depois da forte queda dos ativos brasileiros na semana seguinte à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Também ocorre às vésperas da reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), que define a taxa básica de juros na quarta-feira (4). Em entrevistas, notas e postagens, os governistas acusam o setor de “chantagem, terrorismo e especulação”. O primeiro a se manifestar foi Rui Costa, ex-ministro da Casa Civil e senador eleito pela Bahia. Na sexta-feira (30), ele disse que os agentes financeiros também precisam pensar no país. “Eu fico imaginando, se alguém que tem contrato, por exemplo, de pavimentação de uma rua ou de uma estrada, ele tivesse o poder de formar expectativa sobre o preço do asfalto que será pago pelo contrato no mês seguinte. Obviamente, ele aumentaria as expectativas de preço para que o governo, no mês seguinte, pagasse o asfalto mais caro que ele executará”, disse Rui Costa. Boulos fala em chantagem No sábado (31), o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), afirmou ver chantagem na pressão pelo ajuste. “Você não pode contrapor uma chantagem de mercado à vontade popular. Isso é anular a democracia”, disse. Para Boulos, a economia de recursos deve vir do corte de privilégios, e não do “lombo dos mais pobres”. Ele defendeu que entrem na discussão as desonerações fiscais, os supersalários e as emendas parlamentares impositivas, que o governo é obrigado a pagar. No domingo (1º), Lula publicou um vídeo no X em que garante que não vai cortar nenhum programa social e acusa a oposição de espalhar fake news sobre o assunto. Segundo integrantes do governo, a ideia é usar as redes para rebater o discurso de que haverá um “tesouraço” nos benefícios sociais. No mesmo dia, o presidente do PT, Edinho Silva, afirmou em nota que as especulações sobre a área econômica não ajudam o país e só fazem o jogo “dos oportunistas do mercado, daqueles que apostam contra o governo Lula, contra o futuro do país”. Ele também tentou encerrar as dúvidas sobre quem comanda a economia: “O único que fala em nome do governo Lula na política econômica é o ministro Dario Durigan”. Gleisi, Gabrielli e a proposta de Lara Resende Parte da tensão veio de um boato: o de que Lula receberia André Lara Resende, um dos economistas que criaram o Plano Real. Em artigo de 25 de setembro, ele defende reduzir para 7,5% ao ano a Selic, a taxa que serve de referência para os demais juros do país. Durigan negou o encontro e disse que tabelar os juros não está nos planos do governo. A ex-presidente do PT e ex-ministra de Relações Institucionais Gleisi Hoffmann, cotada para um ministério no novo mandato, saiu em defesa do economista. No domingo, ela disse que o artigo era “fundamental para enfrentar essa ofensiva terrorista sobre a política fiscal brasileira” e reproduziu um trecho do texto: “Acuso os analistas do mercado financeiro de confundir o interesse dos rentistas com a racionalidade econômica”. Nesta segunda-feira (2), Gleisi foi além. Escreveu que o mercado financeiro “tem o DNA do autoritarismo” e que torceu por Flávio Bolsonaro na eleição. Disse ainda que, nesse meio, “praticamente todos são bolsonaristas de carteirinha”. Sobre a possível reunião com Lara Resende, afirmou: “Conversar sobre um tema ou uma proposta não significa encampá-la.” O coordenador do programa de governo da campanha de reeleição de Lula, José Sérgio Gabrielli, também entrou no debate. Ele escreveu um artigo de 11 páginas sobre a política fiscal. No texto, diz que as contas públicas estão em situação menos grave do que afirmam os defensores do ajuste, mas admite que serão necessárias algumas medidas para diminuir o déficit. Para Gabrielli, o que mais pesa sobre a dívida são os juros. Nos 12 meses até agosto, eles somaram R$ 1,2 trilhão, ou 8,9% do PIB. No mesmo período, o déficit primário, que é o saldo negativo das contas do governo sem contar os juros, ficou em 0,62% do PIB. Pelas contas do economista, para estabilizar a dívida o governo precisaria de um superávit primário de 3,41% do PIB em 2027, cerca de R$ 466 bilhões. O projeto de Orçamento prevê 0,56%. Cobrir a diferença, de quase R$ 400 bilhões, com corte de despesas deixaria o Estado “completamente inviabilizado”, escreve. Gabrielli também elogia a ideia de Lara Resende de criar um órgão mais amplo que o CMN (Conselho Monetário Nacional) para coordenar as políticas fiscal e monetária. Ele defende ainda um ajuste progressivo, sem “austeridade contra o próprio eleitor”. Contra a autonomia do BC As críticas se somam às do próprio presidente Lula. Em sabatina no SBT, durante a campanha, ele questionou a autonomia do Banco Central: “Você não pode ser presidente da República e não poder discutir a política monetária, porque o Banco Central é independente”. Na mesma entrevista, disse que o sistema financeiro “faz pressão todo santo dia”. Aprovada em 2021, a lei da autonomia mantém com o presidente da República a indicação dos diretores do BC. Os mandatos deles, porém, não coincidem com o do presidente, para proteger as decisões sobre juros de interferência política. O que está em jogo no Copom A semana após a eleição teve as maiores desvalorizações do ano. A Bolsa, que tinha batido o recorde de 200 mil pontos, perdeu 17,5%. Foi o maior recuo semanal desde a semana encerrada em 20 de março de 2020, no início da pandemia. Para a maioria dos economistas, esse ambiente deve levar o Banco Central a interromper, na quarta-feira, o ciclo de cortes da Selic iniciado em março. O mercado aponta a alta do dólar, a incerteza sobre as contas públicas e a pressão nos juros futuros como obstáculos ao controle da inflação. No governo, a leitura é outra. Para os aliados de Lula, os juros altos atrasam o crescimento, levaram a inadimplência a um nível recorde e ajudam a explicar a crise de empresas como as grandes varejistas. O post Governo e PT elevam o tom contra o mercado financeiro e rejeitam ajuste fiscal a dois dias do Copom apareceu primeiro em Times Brasil | CNBC .