Matuh leva queijos artesanais do Cerrado mineiro para a China

Por Estadão · Categoria: Geral ·

"O pessoal de Cabo Verde pirou nas cervejas e o de Portugal nos queijos", disse Marina Cavechia, única produtora de queijos brasileira a participar da Exposição de Produtos e Serviços dos Países de Língua Portuguesa em Macau, na China, na semana passada, com a presença de outros lusófonos como Angol

"O pessoal de Cabo Verde pirou nas cervejas e o de Portugal nos queijos", disse Marina Cavechia, única produtora de queijos brasileira a participar da Exposição de Produtos e Serviços dos Países de Língua Portuguesa em Macau, na China, na semana passada, com a presença de outros lusófonos como Angola. "Já os chineses não estão acostumados com queijos e produtos lácteos, é uma super novidade para eles", disse Marina. Ela divide seu tempo entre o Teta Cheese Bar , em Brasília, e a fazenda e queijaria em Estrela do Sul (MG), perto de Uberlândia, no Cerrado mineiro. A participação foi B2B , com rodadas de negócios e degustações no stands, sem consumidores finais. Marina levou 36 latas de cerveja (do Teta Cervejaria, com seis rótulos premiados) e seis quilos de queijo, embora mais três quilos tenham sumido em uma bagagem extraviada, o que custou um dia de feira e um bom susto. "Foi bem suficiente, o saldo foi positivo, dei entrevistas e fizemos primeiros contatos promissores", disse ela, que aumentou suas redes de contatos . Menos sal A primeira impressão dos visitantes, porém, trouxe um alerta: os queijos foram considerados "muito salgados" para o paladar local. "Talvez seja necessário estudar uma adaptação de receita, ou não, porque vi no supermercado em Shangai queijos intensos, como o cheddar inglês maturado 24 meses, então quer dizer que tem público". A exposição aconteceu em Macau, junto com a MIF -- Feira Internacional de Macau e a MFE -- Feira Internacional de Franquias de Macau, no formato de "três exposições em uma". Com um rebanho em agrofloresta de 15 vacas Jersey e uma capacidade de triplicar a produção, Marina pretende exportar seus queijos e cervejas dentro do portfólio de importadoras de vinho ou de outros produtos premium , sem a necessidade de fechar um contêiner só de queijo. Macau, segundo ela, oferece incentivos para quem quer abrir empresa e está em processo de expansão. A ideia do governo chinês é triplicar o tamanho do território econômico. "Foi um começo para uma trajetória de exportação, agora as relações precisam ser cultivadas ao longo do próximo ano para avançar", promete. Queijo autoral e bem estar animal Marina Cavechia , ex-jornalista de tv, foi convertida ao mundo do queijos em 2015 e virou uma das principais vozes do queijo artesanal no Brasil. Abriu o Teta Cheese Bar em Brasília, em 2018 e em 2022 ganhou o prêmio de Melhor Queijista do Brasil. Ficou em 5º lugar no concurso Best Cheesemonger da França no ano seguinte. Mesmo ano que suas vacas começaram a dar leite . Sua família materna cuidava da chácara dos avós em Estrela do Sul, no Triângulo Mineiro . A mãe de Marina, Inez (Nete) , já tinha iniciado um projeto de recuperação do solo da propriedade, que sofria com a diminuição da água. A estratégia foi a agrofloresta , com a família inteira mobilizada em mutirões de plantio e poda . Em 2021, veio a ideia de consorciar o sistema agroflorestal com o manejo de vacas leiteiras . A queijaria surgiu em 2023 , com sala de fabricação, câmaras de cura, salga e expedição. A meta é chegar a 500 litros, mas Marina é atenciosa com o meio ambiente: "é o máximo que podemos ter para não exigir demais da terra" . O nome Matuh carrega a filosofia do projeto. "Matuh" vem de uma raiz indígena que significa mato ou floresta ; em sânscrito, remete a "mãe", "materno" . A queijaria se define como o encontro entre "maturar e matutar , o tempo que cura o queijo e o pensamento que se transforma em forma, textura e sabor ", disse ela. Os três queijos: nina, nete e lala A Matuh produz três queijos , todos batizados em homenagem aos apelidos das mulheres da família, de leite de vacas Jersey criadas a pasto. Os fermentos são do comércio, mas algumas populações selvagens próprias, como a B. linens do Nina, "já se implantou aqui e não precisamos mais comprar", disse ela . O nina é a própria Marina. De leite cru e massa prensada semi-cozida , o queijo de 4 kg é maturado por seis meses , com lavagens semanais na casca . O resultado é um queijo de aromas de campo úmido e textura fondante na boca . Em descrições de menu, aparece com notas amanteigadas e frutadas , textura firme e cremosa ao mesmo tempo, e um leve toque picante . Já o nete é o apelido de Inês, mãe da produtora. Também de leite cru , mas de massa prensada não cozida e curador por três meses , com uma casca "mofadona, viva, com notas terrosas e textura amanteigada , a tradução do terroir onde estamos, o Cerrado mineiro". O l ala é um queijinho pequeno, menos de 300 g, massa mole , com casca de mofo branco ou natural, 15 dias de cura, é o único de leite pasteurizado. A homenagem vai para Iara, tia de Marina, a quem ela chama de Lala .