Como recuperar os eleitores perdidos para Trump? Democratas de Ohio descobriram uma receita moderada
ENVIADO ESPECIAL A OHIO E PENSILVÂNIA-O Partido Democrata em Ohio parece alheio às disputas que ocorrem ao seu redor. Enquanto democratas progressistas e moderados em Estados vizinhos como Michigan e Wisconsin estão travando batalhas pelo domínio partidário local , Ohio prefere evitar temas polêmico
ENVIADO ESPECIAL A OHIO E PENSILVÂNIA-O Partido Democrata em Ohio parece alheio às disputas que ocorrem ao seu redor. Enquanto democratas progressistas e moderados em Estados vizinhos como Michigan e Wisconsin estão travando batalhas pelo domínio partidário local , Ohio prefere evitar temas polêmicos como questões culturais ou o relacionamento dos Estados Unidos com Israel e foca em temáticas do dia a dia, como a crise do custo de vida, o fortalecimento da educação pública e a proteção aos sindicatos . A tática parece estar dando certo. Os democratas lideram tanto a disputa por uma vaga no Senado quanto a corrida pelo governo do Estado. Ohio costumava ser o Estado mais competitivo dos Estados Unidos e o termômetro da nação em anos eleitorais, mas a coalizão organizada por Donald Trump seduziu os eleitores e fez muitos analistas considerarem Ohio um Estado republicano. “Não há dúvida de que o Estado ficou mais de direita”, opina Dani Isaacsohn, líder da minoria democrata na Câmara Estadual de Ohio. “Mas essas eleições vão mostrar que Ohio ainda é competitivo”. A crise do custo de vida enfrentada pelos americanos deu uma vantagem natural aos democratas em todo o país, mas a coalizão que os democratas em Ohio estão construindo promete ser mais duradoura e mostrar um caminho sobre como seguir em frente na esfera nacional. “É um desafio ser democrata em Ohio porque precisamos sempre combater essas narrativas nacionais sobre quem são os democratas e quais políticas defendemos”, avalia Allison Russo, deputada estadual e candidata ao cargo de Secretária de Estado. “Aqui nós não focamos em questões culturais. A nossa ideia é valorizar as raízes do partido ligadas a classe trabalhadora e ao movimento sindical”. Mensagem democrata Dani Isaacsohn, o líder da minoria democrata na Câmara de Ohio, é uma das principais figuras do partido no Estado. Ele tem 37 anos, é formado em Direito na Universidade de Yale e foi elogiado por todos os líderes republicanos que conversaram com a reportagem do Estadão . Isaacsohn é o líder de uma bancada que conta com 34 democratas. O Partido Republicano tem ampla maioria, com 65 assentos na Câmara Legislativa. “Para aprovar um projeto de lei, precisamos trabalhar com a maioria. Isso vale tanto para um republicano na Califórnia quanto para um democrata em Ohio”, explica Isaacsohn, que recebeu a reportagem em seu gabinete em Columbus. Segundo ele, o foco dos democratas é passar legislações que sejam de “senso comum”, sem a imposição de ideologias. “Tentamos promover questões do dia a dia, que possam tornar a vida mais acessível, ampliar o acesso à saúde e facilitar a compra de casa própria”, aponta o líder da minoria. Isaacsohn diz que os democratas buscam exemplos de projetos aprovados em Estados republicanos para avançar em suas pautas. “Analisamos políticas habitacionais de Estados como Montana, Texas e Flórida, além de políticas energéticas do Kansas e educacionais do Mississippi”. Além de tentar passar legislação, o líder democrata aponta que o partido no Estado busca articular uma visão de futuro, com foco na ampliação de acesso a oportunidades, redução do custo de vida e a facilitação da compra da casa própria. Candidatos democratas Para Isaacsohn, os candidatos democratas para os principais pleitos das eleições de meio de mandato têm o perfil perfeito para o momento vivido pelos americanos. “Essa eleição é focada no custo de vida e os republicanos estão no comando em Ohio há 20 anos”, destaca. O postulante democrata ao Senado é Sherrod Brown. Ele representou Ohio no Senado por 18 anos e sobreviveu a onda republicana no Estado por dois ciclos eleitorais até perder o posto em 2024. Brown espera recuperar seu posto em 2026. “Ninguém tem uma imagem tão associada à dignidade do trabalho e ao esforço para garantir que a economia deixe de favorecer a classe dos bilionários do que Sherrod Brown”, diz Isaacsohn. O ex-senador nasceu em Mansfield, cidade com forte histórico industrial e ligada ao trabalho sindicalizado. Brown conseguiu formar uma coalizão com trabalhadores organizados, mesmo em redutos conservadores do Estado. Ele tem posições mais protecionistas e votou contra o NAFTA , o acordo de livre-comércio entre EUA , México e Canadá , quando era congressista em 1993. O acordo levou ao fechamento de diversas fábricas e usinas em Estados como Ohio e deixou milhares de trabalhadores desempregados. Segundo Brown, o sistema econômico americano é “manipulado” por bilionários e contrário aos interesses da classe trabalhadora. O discurso do ex-senador ressoa mais no atual momento vivido pelos americanos. Uma vitória de Brown em 2026 poderia significar dar ao Partido Democrata a maioria no Senado. Classe trabalhadora A recuperação da coalizão democrata no Estado passa justamente por restabelecer o vínculo do partido com os sindicatos, que penderam para os republicanos na última década , em meio a retórica trumpista que falava em recuperar os trabalhos industriais no chamado Cinturão da Ferrugem e o foco exacerbado dos democratas em questões culturais e de gênero. O discurso democrata passou a ser visto como elitista e alienou eleitores da classe trabalhadora que tinham visões mais conservadoras. Dorsey Hager, secretário-executivo do Sindicato dos trabalhadores da construção do centro de Ohio, aponta que os membros de sua organização estão divididos em relação a quem apoiar nestas eleições de meio de mandato. Sherrod Brown tem tração com os eleitores, assim como a candidata democrata ao governo, Amy Acton, mas os republicanos tiveram muita adesão nos últimos anos. “Os democratas passaram muito tempo falando sobre temas que não dizem respeito a classe trabalhadora, como questões da comunidade LGBTQIA+ e pautas relacionadas à diversidade”, opina Hager. “Essas questões são importantes, mas o foco dos trabalhadores está em ganhar um bom salário, prover para a família, ter acesso a assistência médica e se aposentar com dignidade”. Hager recebeu a reportagem do Estadão na sede de seu sindicato em Columbus. O local está repleto de cartazes de democratas pró-sindicatos, como Sherrod Brown e Amy Acton. O líder sindical é democrata, mas vota em republicanos por morar em uma zona conservadora. “Os republicanos têm se saído muito melhor com os sindicatos nos últimos 10 anos e nossos membros têm se voltado para eles”, explica Hager. “Eles sentem falta dos democratas de antigamente, da era Kennedy e também durante o governo Clinton”. Apesar disso, o líder sindical aponta que a mensagem do partido em Ohio tem ressoado com os sindicalistas. “Sherrod Brown tem um ótimo plano, assim como outros democratas, como Allison Russo. Se eles continuarem nesse caminho, o voto sindical vai voltar.” Perfil moderado O retorno dos sindicalistas ao Partido Democrata em Ohio passa por ter candidatos com perfil moderado, pró-sindicatos e com apelo a um público mais conservador. É o caso de Brian Poindexter, candidato a uma vaga no Congresso em um distrito republicano no Estado. Seus pais e avós foram membros de sindicatos e ele trabalha como metalúrgico há 19 anos. Poindexter votou no republicano John McCain em 2008 contra Barack Obama , antes de votar no democrata em 2012. Apesar de ter sido endossado pelo senador progressista Bernie Sanders , Pointdexter não compactua com posições ligadas à ala socialista do partido, como abolir o Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos EUA ( ICE , na sigla em inglês) e garantir serviço de saúde gratuito para todos. Ele é o favorito para vencer, especialmente por conta dos problemas pessoais de seu oponente, o congressista republicano Max Miller. O incumbente foi acusado de abusos contra sua ex-esposa, Emily Moreno, e a filha de dois anos do casal. Emily é filha do senador republicano Bernie Moreno, o que transformou o episódio em uma crise no Partido Republicano de Ohio. “Pointdexter é um metalúrgico sindicalizado que tem feito um excelente trabalho ao abordar a questão do custo de vida”, avalia Hager. “Ele é um homem ético e defensor dos valores familiares. Foi o melhor candidato que os democratas poderiam encontrar.” Jovens O ressurgimento dos democratas em Ohio também está relacionado ao apoio de eleitores mais jovens que viram o Estado se tornar cada vez mais republicano nos últimos anos. A crise relacionada ao custo de vida e a dificuldade de ascensão social afeta principalmente essas gerações, que têm votado mais como um bloco econômico do que em divisões raciais e de gênero. “Os democratas perceberam que mulheres e outras minorias raciais querem políticas de ascensão social para a classe média”, aponta o líder sindical. “Eles estão criando essas parcerias”. Para o líder sindical, a democrata Allison Russo é uma das figuras que mais personifica o voto jovem e a mensagem ligada à melhora de vida dos chamados jovens adultos. A reportagem do Estadão conversou com Allison no campus da Universidade Estadual de Ohio, em Columbus. A democrata estava conversando com estudantes e pedindo que eles se registrassem para votar. Estamos presenciando uma reação contrária ao controle republicano, diz Allison. “As pessoas estão irritadas com os preços dos combustíveis, inflação e as tarifas. Os democratas têm a melhor oportunidade em muito tempo de conquistar vitórias importantes”. Allison está concorrendo para o cargo de secretária de Estado, função que supervisiona e organiza as eleições em Ohio. Ela lidera as pesquisas contra o republicano Robert Sprague e pode se tornar a primeira democrata a ocupar o cargo desde 2011. De acordo com ela, os democratas não têm conseguido se conectar com a classe trabalhadora nos últimos anos, mas diz que “Ohio é diferente”. “Nós somos um Estado do Meio-Oeste e não temos as mesmas políticas dos democratas na Califórnia e Nova York”.